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Fillon à beira do abismo

O reformista Macron abre caminho em meio à crise da direita francesa

Manifestação de apoio a Fillon, no domingo em Paris. AFP

A direita francesa representada pelo partido Os Republicanos está à beira do abismo. Apenas um mês e meio atrás, essa formação política, coluna vertebral da Quinta República, tinha novamente o Palácio do Eliseu ao alcance de suas mãos. Agora, porém, pode ser eliminada no primeiro turno das eleições presidenciais da França. Seria um revés inédito. As causas de sua situação alarmante são duas: o escândalo do suposto emprego fictício da mulher de seu candidato, François Fillon, e a consolidação da liderança de Emmanuel Macron, que o supera amplamente nas pesquisas e aparece até mesmo como o preferido nas intenções de voto para o primeiro turno, à frente da ultradireitista Marine Le Pen.

A obstinação de Fillon de continuar na corrida presidencial, apesar da deserção em massa em suas fileiras e da hemorragia de apoios eleitorais, alarma o partido. Sua gestão errática e torpe da crise está agravando a situação. Apesar da anunciada acusação por parte da Justiça, não cumpriu sua promessa de se retirar, criticou os juízes e a imprensa e acabou confiando sua candidatura a uma demonstração de força nas ruas, algo impróprio para quem pretende ser o presidente da República.

O comitê político dos Republicanos antecipou para esta segunda-feira sua reunião para avaliar a situação, o que prenuncia a provável mudança que os dirigentes exigem. Os barões do partido, como Alain Juppé (seu possível substituto) e o ex-presidente Nicolas Sarkozy, procuram uma saída. O problema é que o tempo joga contra os conservadores, e a forte resistência de Fillon ameaçaria abrir uma guerra interna que debilitaria ainda mais o partido e poderia piorar o descalabro eleitoral.

Enquanto isso, a 50 dias das eleições presidenciais, Macron, ex-ministro da Economia de François Hollande, abre caminho como candidato favorito dos franceses. Sua mensagem liberal social e reformista se conectou com a sociedade. Frente aos populismos, seu programa promete uma modernização realista e sustentada da economia, aposta em um profundo europeísmo e adota a transição energética iniciada por Hollande, uma das políticas mais transformadoras de seu mandato.

Macron afirma que seu movimento, Em Marcha!, não é de esquerda nem de direita. Essa posição, que inicialmente gerou ceticismo quanto a suas possibilidades de êxito, agora o conduz voando rumo ao Eliseu, com intenções de voto de todo o arco ideológico. Os centristas, tradicional apoio da direita, já estão migrando para seu campo. A suspeita de malversação de fundos públicos que pesa sobre Fillon pôs em destaque a necessidade de regeneração da política francesa. Esse é justamente outro dos princípios defendidos por Macron, que, além disso, pertence a uma nova geração disposta a romper com a endogamia e os privilégios da vida pública.

Esta campanha volátil está produzindo resultados inesperados. Os dois grandes partidos (o socialista de Hollande e o conservador) correm o risco de não passar para o segundo turno. Se as pesquisas se confirmarem, ambos serão obrigados a se reinventar. A boa notícia é que a França, cuja fortaleza é essencial para a Europa, conta, apesar de tudo, com um candidato − o mais europeísta − capaz de devolver a confiança ao país e de frear a ameaça xenófoba e nacionalista da Frente Nacional.

 

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