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Fazendeiros acusam seguranças da Vale de agressão em área de litígio no Pará

Vizinhos de área de mineradora dizem ter recebido chutes e socos ao arrumarem cerca

Empresa, que instala maior projeto do mundo do gênero no local, diz que conteve "tentativa de invasão"

Fazendeiros acusam seguranças da Vale de agressão em área de litígio no Pará

Um fazendeiro e seu filho, vizinhos de uma área pertencente à mineradora Vale, afirmam que foram agredidos por seguranças da empresa no município de Canaã dos Carajás, no sudeste do Pará, na última segunda-feira. O conflito aconteceu em uma região em litígio, onde a Vale desenvolve projetos de mineração milionários, como o recém-inaugurado S11D, que promete ser o maior projeto de extração de ferro do mundo. Jorge Martins dos Santos, de 46 anos, e Thiago Sales dos Santos, de 24 anos, contam que arrumavam uma cerca na fazenda da família quando ao menos oito seguranças da Prosegur, contratada pela Vale, os atacaram com chutes e socos. Thiago, segundo o pai, chegou a ter uma convulsão e desmaiou. A Vale afirma que eles tentavam invadir uma área da empresa e, ao serem abordados, agrediram os seguranças, que agiram "em legítima defesa".

"A Vale deveria ter construído uma cerca e não construiu. Sem ela, meu gado invade a área deles e some", conta Jorge, cuja propriedade faz margem com uma área onde passa um ramal de trem que escoa a produção da Vale. "Nós fizemos uma cerca e estávamos fazendo um reparo quando os seguranças chegaram e mandaram parar. Logo vieram outros guardas e chegaram agredindo com socos, chutes, coronhadas na cabeça e jogando spray de pimenta na gente." O agricultor afirma que ele e o filho foram algemados pelos funcionários contratados pela mineradora e continuaram a ser agredidos, mesmo imobilizados. Outras pessoas que trabalhavam com eles também foram agredidas. "Eles alegam que a gente estava invadindo a área deles, mas a gente estava do lado de dentro", continua ele. Os dois foram levados à delegacia, onde prestaram depoimentos. A reportagem não conseguiu contatar o delegado responsável pela ocorrência nesta quinta-feira. Imagens compartilhadas pela família mostram Thiago com um corte abaixo do olho, bastante inchado, e ensanguentado no rosto. Um vídeo mostra o jovem, que passou mal na delegacia, sendo colocado em uma ambulância dos Bombeiros que o levou para o hospital.

A Vale afirma que houve uma tentativa de invasão em sua área por um grupo liderado por Jorge. "Eles tentavam construir cerca a mais de um quilômetro além do limite da fazenda, ou seja, invadindo área de propriedade privada", ressaltou em nota. A empresa disse ainda que a equipe de segurança buscou o diálogo, mas que um dos vigilantes foi agredido por Thiago. "Neste momento, os seguranças, em legítima defesa e utilizando-se do direito de desforço imediato, contiveram a agressão e a continuidade da invasão do imóvel". A empresa diz que não tem qualquer pendência para a construção da cerca na propriedade de Jorge e afirma que a cerca já foi quebrada cinco vezes pelo fazendeiro e pessoas ligadas a ele. A Prosegur afirmou também que sua equipe agiu em legítima defesa e disse que "todos os seus colaboradores passam por treinamentos e capacitação específicos de acordo com a operação a ser executada".

Em dezembro, o EL PAÍS revelou que agricultores começaram a montar acampamentos em áreas da mineradora na região, pois afirmam que as terras foram compradas ilegalmente de trabalhadores assentados sem a necessária indenização ao Governo federal, dono efetivo dessas propriedades. Na época, Jorge foi entrevistado pela reportagem e reclamou da ausência de cercas que deveriam ter sido construídas pela mineradora. No grupo agredido nesta segunda também estava um sem-terra conhecido como Miudinho, que coordena um dos acampamentos em área da Vale, que fica perto da fazenda de Jorge.

A Vale diz que não cometeu irregularidades na compra das terras em Canaã dos Carajás, mas há indícios de que ao menos parte dessas terras pertence à União e não poderia ter sido comprada. Em 2010, a empresa já havia sido obrigada a indenizar o órgão em quase 6 milhões de reais pela compra sem autorização de 80 lotes de assentamento em outra área do Pará. Com os acampamentos, os agricultores afirmam que querem forçar a Vale a dar explicações e indenizar o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) para a construção de novos assentamentos para os sem-terra da região. Eles pedem que o instituto federal informe quais áreas de assentamentos foram adquiridas pela Vale. O INCRA afirma que não tem como fazer o levantamento até que sejam feitas denúncias específicas. No início do mês passado, os agricultores ocuparam a sede do Incra no município para reivindicar uma posição do órgão.

Imagem fornecida pela Vale do funcionário que ela afirma ter sido agredido.
Imagem fornecida pela Vale do funcionário que ela afirma ter sido agredido.

Enquanto o impasse não se resolve, o clima de tensão permanece. Agricultores acampados afirmam que são perseguidos pela mineradora e vigiados até por drones e helicópteros. "São muitos os relatos de trabalhadores(as) que já foram impiedosamente humilhados e molestados por estes seguranças. A prática corriqueira é: ameaçar, tomar os pertences, humilhar, colocá-los no veículo e levá-los para a delegacia de polícia", afirmam os sem-terra de quatro acampamentos em área da Vale, que divulgaram uma nota após o ocorrido, assinada em conjunto com o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Canaã dos Carajás, o Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular e o Movimento em Defesa de Territórios Livres de Mineração.

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