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ANÁLISE

Trump abre janela de oportunidade para maior integração na América Latina

Um dos principais obstáculos à maior integração regional é a divisão existente há anos na América Latina entre a Aliança do Pacífico e o Mercosul

Mauricio Macri e Michel Temer, no dia 7 de fevereiro.
Mauricio Macri e Michel Temer, no dia 7 de fevereiro. AP

É provável que Donald Trump rompa o consenso articulado 70 anos atrás de que os Estados Unidos devem atuar como âncora do sistema internacional por meio da promoção de normas globais e garantias de segurança a seus aliados. Essa estratégia revisionista de Trump poderá levar à incerteza e à instabilidade na Europa, Ásia e Oriente Médio, onde o recuo dos EUA teria profundas implicações geopolíticas.

No caso da América Latina, as consequências são em grande parte restritas ao âmbito econômico. O México deverá ser o mais afetado pela abordagem "America First" de Trump. O país tem 80% de suas exportações destinadas a seu vizinho do norte (as quais, por sua vez, possuem 40% de conteúdo dos EUA). Mais da metade de seu investimento estrangeiro direto vem dos Estados Unidos, assim como 26 bilhões de dólares em remessas de mexicanos que vivem nos EUA. Diante disso, o presidente Enrique Peña Nieto se verá forçado a articular a mais profunda reorientação estratégica do país desde a adesão ao Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA, na sigla em inglês) em 1994.

O fim do acordo é improvável por enquanto, já que mais de 10 milhões de empregos nos Estados Unidos dependem dele. No entanto, já não se pode mais descartar uma renegociação fundamental do NAFTA — a qual poderia trazer consequências desastrosas para um país cuja economia tem um comércio bidirecional diário de 1,4 bilhões de dólares com os EUA. Em resposta, o México buscará diversificar suas parcerias e, em particular, fortalecer os laços comerciais com a Europa e a Ásia.

Porém, a crise do NAFTA também cria uma janela de oportunidade para o Mercosul se aproximar do México. Além de benefícios econômicos mútuos, laços mais fortes permitiriam aos governos dos países envolvidos coordenarem melhor estratégias para enfrentar os principais desafios regionais, como o tráfico de drogas e armas, a migração, a ascensão da China, a degradação ambiental e a corrupção.

Um dos principais obstáculos à maior integração regional é a divisão existente há anos na América Latina entre a Aliança do Pacífico e o Mercosul. A relação entre México, membro da Aliança do Pacífico, e Brasil, integrante do Mercosul, exemplifica essa divisão. Apesar de serem as duas principais economias latino-americanas e representar mais da metade do PIB e da população da região, suas visões de mundo são extremamente diferentes. Enquanto o México abraçou a globalização econômica liderada pelos Estados Unidos, as elites brasileiras se mantiveram profundamente relutantes ao comércio globalizado, optando por permanecer uma das economias mais fechadas do G20. Quando o México aderiu ao NAFTA e à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), observadores brasileiros concluíram que o México havia se vendido para o Norte e se transformado em um apêndice dos EUA, renunciando à sua identidade latino-americana. O Brasil articulou ambições geopolíticas maiores, desde o desejo de ocupar um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU até a decisão de liderar uma missão de paz das Nações Unidas – passos que os observadores mexicanos consideraram megalomaníacos. Com o então presidente Lula, o Brasil concentrou-se na UNASUL, que exclui o México, e exerceu um papel de liderança independente na América do Sul.

Desde a reeleição de Dilma Rousseff em 2014 e a eleição de Mauricio Macri em 2015, fortaleceu-se no Brasil e na Argentina o grupo daqueles que veem uma maior abertura econômica como condição necessária para iniciar o processo de recuperação. Em 2015, Rousseff e Peña Nieto assinaram acordos visando dobrar os volumes de comércio até 2025, e Macri frequentemente articula seu interesse em uma maior aproximação com a Aliança do Pacífico. Porém, a liberalização do comércio continua sendo altamente seletiva, e as transações comerciais intra-regionais ainda estão entre as mais baixas do mundo. Apesar da retórica pró-comércio adotada por Temer e Macri em reunião recente, os dois presidentes avançaram pouco na eliminação de barreiras que ainda existem dentro do Mercosul devido à busca de proteção para produtos brasileiros e argentinos.

Considerando a situação mexicana, porém, está na hora de articular propostas mais ambiciosas sobre como viabilizar um estreitamento entre o México e o Mercosul. Um elemento-chave será acelerar esforços para assinar um acordo de livre comércio (incluindo a eliminação de barreiras não tarifárias) entre as duas partes – e depois, possivelmente, entre a Aliança do Pacífico e o Mercosul. Reduzir barreiras na região criaria incentivos para melhorar a integração física e o potencial para estabelecer cadeias de valor praticamente inexistentes dentro da Aliança do Pacífico e fracos em toda a América Latina. Ao mesmo tempo, devem-se abordar temas não econômicos, incluindo as questões de segurança já mencionadas.

Uma maior integração latino-americana estaria em sintonia com um fenômeno global mais amplo. Como os Estados Unidos desempenharão um papel muito mais limitado tanto no plano econômico quanto no político, haverá mais espaço e necessidade de se fortalecer a cooperação regional. Por exemplo, com a influência de Washington em declínio na Ásia, os laços entre Nova Deli e Tóquio prosperaram. É provável que, em resposta a Trump, a União Europeia conseguirá se fortalecer. Com eleições legislativas na Argentina neste ano e eleições presidenciais no México e no Brasil em 2018, o tempo para articular qualquer projeto dessa natureza é curto, e a janela de oportunidade tem prazo limitado. Será uma pena se não for aproveitada.

Oliver Stuenkel é Professor Adjunto de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo.

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