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TRIBUNA

Na revolução contra a corrupção, os romenos lutam pela chance que o Brasil perdeu

A sociedade romena que finalmente tem consciência do seu progresso moral pede uma classe política à altura dos seus novos valores

Mais um domingo de protestos em Bucareste.
Mais um domingo de protestos em Bucareste. EFE

Meu país costuma ser um daqueles lugares sobre os quais as pessoas costumam sorrir ironicamente, às vezes disfarçando bem, outras vezes menos bem, quando ouvem que sou de lá. “Ah, você é da Romênia. O país do Drácula, né? Ah, e tem também aquela ginasta, não é? Nadia o que mesmo?” Bom, penso eu quando ouço, pelo menos não estou do Cazaquistão. Iam pensar que o Borat é meu primo. Mas, como todos os romenos, já estou acostumado. Se for entrar na Itália, o sorriso amistoso do oficial da fronteira acaba ao ver meu passaporte. Segue uma busca nervosa e prolongada no sistema para os meus possíveis antecedentes criminais. Nos Estados Unidos, quando um político americano fala “pelo menos não somos a Romênia,” nem fico muito chateado por conta disso. É um tipo de common sense knowledge, uma verdade tão bem enraizada que não faz quase nenhum sentido protestar. Não vai surtir efeito.

O trecho exato durante o qual John McCain referiu-se sobre a Romênia durante a eleição americana foi este: “Acredito que ainda temos as instituições que poderão cercear alguém que fosse exceder suas atribuições constitucionais. Temos um Congresso. Temos a Corte Suprema. Não somos a Romênia.”  McCain estava se referindo à possível eleição de Donald Trump, tentando explicar por que, apesar de se opor a sua candidatura, ninguém deveria estar tão preocupado se ele vencesse. Desde então, as coisas parecem ter mudado um pouco. Trump controla o Congresso, onde tem conseguido confirmar até suas escolhas mais extremas. Com a confirmação de Neil Gorsuch na Suprema Corte, Trump terá também uma maioria republicana na Suprema Corte. E, então McCain? Com seu “pelo menos não somos a Romênia”. É chocante ver um dos senadores mais experientes dos EUA usar esse tipo de linguagem sobre um país aliado. Ainda mais sobre aquele país aliado que hospedará a defesa antibalística da Otan no contexto de uma Rússia cada vez mais beligerante nas suas portas...

Estamos vivendo tempos estranhos. Os países historicamente guardiões da democracia e dos valores progressistas – Estados Unidos, Inglaterra, e França – estão sendo transfigurados pela ascensão da extrema direita que, precisamos reconhecer, esta acontecendo como resultado de uma crise prolongada do mainstream político e principalmente da esquerda, que nunca conseguiu se adaptar bem e responder aos desafios de um mundo globalizado. Quando a maioria de um país vota para colocar no poder um governo contrário aos valores democráticos mais fundamentais, é preciso de um otimismo desbordante e uma ignorância completa do passado histórico para acreditar que tudo está ok, porque as instituições continuam sólidas.

Estamos vivendo tempos estranhos. Os países historicamente guardiões da democracia e dos valores progressistas estão sendo transfigurados pela ascensão da extrema direita

Paradoxalmente, o que os romenos conseguiram nas ruas durante os últimos dez dias é exatamente o oposto da degradação democrática a que estamos assistindo nas chamadas democracias sólidas. Depois da revolução sangrenta que acabou com a ditadura comunista, a Romênia buscou construir as instituições que poderiam permitir sua integração na União Europeia. Para boa parte dos políticos responsáveis por esse esforço, a legislação e as instituições que estavam criando para o combate da corrupção eram, como costumam dizer os brasileiros, “pra inglês ver”. Mas a expectativa da impunidade começou a ser confrontada quando os jovens procuradores se mostraram implacáveis na aplicação da lei. Um primeiro ministro, os maiores magnatas de mídia, inúmeros deputados, senadores, e prefeitos acabaram presos. E, apesar do empenho da mídia subserviente a um partido político ou outro de denegrir essa luta, os romenos apoiaram este esforço de passar o país a limpo. Nos últimos anos, talvez porque passo a maior parte do tempo fora do país e por conta disso consigo perceber melhor as mudanças que acontecem à volta, a cultura popular parece ter evoluído. Costumava ser absolutamente natural oferecer propina a um policial por uma infração de trânsito – a expectativa era de que o policial aceitasse a propina antes que você continuava tranquilamente o seu dia. Não é mais assim. Se você for policial e solicitar propina, tem boas chances do cidadão que você parou se recusar a pagar ou até te denunciar. Se você for o autor do erro de trânsito, oferecer uma propina pode acabar complicando sua situação bem mais. A cultura cívica dos romenos evoluiu. Mas os seus líderes políticos parecem não ter reparado essa mudança ainda. E essa desconexão gerou as condições ideais para a maior explosão de protesto social já vista contra um Governo romeno eleito democraticamente.

O partido que governa hoje a Romênia, o PSD, tem muito em comum com o PMDB que hoje governa o Brasil (muito além da aparência de vampiro dos seus respectivos líderes). Como o PMDB, o PSD romeno se reivindica como um partido de origem centro-esquerdista e contra a ditadura, mas defende, de fato, valores sociais conservadores e políticas econômicas contrárias aos interesses dos mais pobres. Como o PMDB, o seu poder reside numa máquina clientelista extremamente bem estruturada pelo interior do país, com raízes no ordenamento político da antiga ditadura. Como o PMDB, o PSD não possui líderes de grande carisma. Mas nem precisa deles, pois tem seus Sarneys, Renans e Eunícios. E como o PMDB, essa máquina eleitoral do PSD tem resultados especialmente favoráveis quando as lideranças dos outros partidos mais sólidos de ponto de vista ideológico desapontam, como aconteceu na última eleição romena.

A sociedade romena que finalmente tem consciência do seu progresso moral pede uma classe política à altura dos seus novos valores

Em inúmeros aspectos, então, o atual Governo romeno é uma miniatura do brasileiro. Depois de ganhar uma ampla maioria no parlamento nas eleições de outubro passado, o PSD sentiu-se suficientemente forte para acertar algumas contas pendentes com o Judiciário. Numa versão piorada da anistia do caixa dois do Brasil, o Governo que tinha acabado de ser instalado passou um decreto de emergência que alterava a definição de vários crimes de corrupção e dificultava a investigação dos delitos. Seguindo as novas normas, por exemplo, qualquer fraude denunciada depois de mais de seis meses de haver sido cometida não poderia mais nem sequer ser investigada. O decreto foi assinado durante a noite, às três horas da manhã. Não muito diferente do que se tentou no Congresso brasileiro pouco tempo atrás.

Quando amanheceu, o Governo acordou com o povo inteiro batendo à sua porta. Com toda sua maioria confortável no Congresso e mesmo controlando as duas redes de TV mais importantes do país, o PSD conseguiu levantar contra si, e de forma quase unânime, a sociedade toda. Centenas de milhares de pessoas saíram nas ruas não somente em Bucareste, mas em cidades grandes e pequenas pelo país inteiro. Em vez de jogar pedras nos policiais, os manifestantes ofereceram chá e louvaram o seu trabalho. “Estou com pena desses meninos que estão aqui no frio para defender uns bandidos sem vergonha”, contou uma avó para um repórter independente transmitindo ao vivo pelo Facebook. Novata na arte do protesto, a multidão romena inventa seu próprio repertório. Cada um tem seu cartaz. A maioria são bem divertidos. “Isso que acontece quando a gente vota sem ler os termos de uso”, está escrito em um. De repente, surge a ideia de iluminar o prédio do Governo com os flash dos celulares. Vamos jogar luz no que vocês estão fazendo, os manifestantes parecem dizer. Vamos mostrar para todo mundo a sua podridão e não poderão fugir. A rebelião ganha um nome. A revolução da luz. E todo mundo está surpreendido consigo mesmo. Como é que um ato tão miserável de um Governo corrupto pude resultar no final das contas numa experiência tão enaltecedora? Os romenos se sentem mais determinados, mais unidos e mais fortes do que nunca antes.

O Governo romeno acabou cedendo e retirou a lei infame. Os protestos cresceram mais ainda depois que isso aconteceu, mas aquela noite foi mais uma celebração coletiva para humilhar o Governo do que a tentativa derrubá-lo. A grande maioria das pessoas entendem que o partido que acabou de ganhar as eleições deveria ter mais uma chance para governar o país, desta vez fazendo o que prometeu em vez de atacar a luta contra a corrupção. Essa atitude moderada se deve em grande parte ao desapontamento com os outros partidos e líderes políticos. Para a maioria, não existe nenhuma garantia de que uma outra coligação partidária será muito mais confiável. A ideia predominante é a de que é preciso pressionar e fiscalizar todos os partidos. Uma sociedade que finalmente tem consciência do seu progresso moral pede uma classe política à altura dos seus novos valores. Ao “pelo menos não somos a Romênia” do McCain, os romenos agora podem responder exatamente o contrário. Sim, McCain, pelo menos somos romenos! Podemos não ter as melhores leis, instituições, Corte Suprema. Podemos ainda não termos nos livrado dos políticos corruptos que infernizam nossas vidas a cada dia que lemos jornais, mas temos uns aos outros e os nossos ideais de verdade, tolerância e justiça como fundamento do nosso futuro como nação. E isso é muito mais importante.

Como o PMDB, o PSD não possui líderes de grande carisma. Mas nem precisa deles, pois tem seus Sarneys, Renans e Eunícios

A revolução da luz ainda não venceu. Em momentos como esses, os manifestantes se sentem invencíveis e não se dão conta de que qualquer vitória de natureza coletiva é vulnerável ao desaparecimento da força que os uniu. Se conhecessem o Brasil, os romenos se dariam conta de que uma revolução da luz também parecia ter sido vencedora em sua versão tropical em junho de 2013. Os brasileiros também se sentiam unidos, orgulhosos, imparáveis. Acreditavam que poderiam parar a corrupção e ganhar finalmente o direito de serem governados de uma forma digna e transparente. Acabou sendo bem mais complicado. A parcialidade do Judiciário de um lado político ou do outro, a crescente polarização política e a constante manipulação pelos extremos que acontece nas bolhas das redes sociais acabou destruindo aquele precioso sentimento de união nacional, tão essencial para que a sociedade possa continuar mobilizada na defesa dos seus ideais. Alexandre de Moraes vai virar ministro do Supremo Tribunal Federal e ninguém está nas ruas. No Brasil, a revolução da luz parece ter sido uma alucinação numa noite de Carnaval.

Andrei Roman é romeno, doutorando em Ciência Política pela Universidade de Harvard e criador da plataforma Atlas Político e do aplicativo Catalyst News.

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