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De magnata a presidiário comum, o sonho quebrado de Eike Batista

A vida de sucesso e queda do empresário é um presente para qualquer biógrafo

O empresário Eike Batista, de cabelo raspado, deixa o presídio Ary Franco, no Rio de Janeiro
O empresário Eike Batista, de cabelo raspado, deixa o presídio Ary Franco, no Rio de Janeiro

Poucas pessoas encarnam a rápida ascensão e queda do Brasil tão bem quanto Eike Batista, preso nesta segunda-feira, acusado de alimentar um suposto esquema corrupto, liderado pelo ex-governador do Rio de Janeiro, Sergio Cabral. Quando o país ia de vento em popa, ele adquiria e desperdiçava milhões, conquistava acionistas do mundo todo com a promessa de lucro futuro de seus negócios que englobavam petróleo, construção naval e minas de ouro. Fez fortuna a um ritmo vertiginoso e finalmente ganhou poder e influência. Dono de 34 bilhões de dólares (107 bilhões de reais), o empresário foi eleito pela Forbes o sétimo homem mais rico do mundo em 2012. Um ano mais tarde, como presságio do que chegaria para a economia brasileira, a ambição e o otimismo o arrastaram para uma bancarrota multimilionária: havia prometido três vezes mais petróleo do que era capaz de produzir.

Nos últimos meses, Eike tentava renascer como empreendedor de sucesso num país que atravessa a pior recessão em 30 anos e que enfrenta pela primeira vez a corrupção institucional. Durante uma época, porém, parecia que Eike podia vender tudo. Até a si mesmo: vendia-se com sabedoria como um empresário que triunfara com o próprio suor, alguém que havia feito sua primeira fortuna extraindo ouro na Amazônia aos 22 anos. Não dizia que seu pai, ex-ministro de Minas e Energia e ex-presidente da segunda maior empresa mineradora do mundo, a antes pública Vale do Rio Doce, talvez tivesse alguma coisa a ver com a sua sorte. "Me considero um criador de riqueza, como um compositor compõe a música. As minhas notas, por acaso, são dinheiro", dizia em 2012 em entrevista ao Fantástico.

Eike tinha esse tipo de personalidade que seduz os biógrafos. E assim, o personagem foi ganhando da pessoa real. Os políticos o disputavam, e eram comuns suas fotos com os ex-presidentes Lula e Dilma. Todos eles queriam seus milhões, e Eike precisava da chancela institucional e dos contratos públicos. Ele foi generoso com todos, sem importar a ideologia. Foi precisamente essa proximidade que o levou para trás das grades. Mecenas da carreira política de Sergio Cabral, é suspeito de simular a venda de uma mina de ouro para repassar ao ex-governador 16,5 milhões de dólares (cerca de 52 milhões de reais) em propinas. Àquela altura, no entanto, havia sido transformado num fenômeno, um exemplo a ser seguido. Amado por Wall Street, mimado por ministros, aplaudido pela imprensa local, parado nas ruas por fãs que lhe pediam autógrafos.

Discreto nos seus inícios, começou a ser reconhecido por sua vida sentimental, no anos 90. Mais concretamente por romper a promessa de casamento com Patricia Leal, uma rica herdeira do Rio, e se casar com Luma de Oliveira – atriz coadjuvante da Globo, que tinha ficado famosa por desfilar de topless num carnaval no final dos anos oitenta.

Eike cancelou a boda com Patricia em setembro de 1990. Casou-se quatro meses depois com Luma, justamente no dia do aniversário da antiga noiva. Luma estava grávida do primeiro filho. Especulou-se muito sobre os ciúmes que o torturavam, quando ele mesmo aceitava ficar em segundo plano e se descrevia como "o marido de Luma". Mas a exuberante atriz parecia parte do seu patrimônio. Na festa de lançamento de uma edição da Playboy em que Luma posou nua, a roupa interior dela tinha costuradas as iniciais do empresário. No carnaval de 1998, ela voltou a desfilar, desta vez com uma coleira no pescoço com o nome Eike escrito com diamantes. No final, foi uma infidelidade que terminou com o casamento. Naquela época, o empresário já parecia ter esquecido o que era discrição. Usava constantemente o Twitter para se promover e decorava a sala de sua casa com uma Lamborghini e um Mercedes.

Outro episódio que rodou o Brasil teve como protagonista o filho mais velho de Eike, Thor Batista, que, em março de 2012, atropelou e matou um ciclista no Rio. O jovem, que circulava a cerca de 110 quilômetros por hora, foi finalmente absolvido em 2015, mas o pai tinha certeza da inocência do filho muito antes. "A imprudência do ciclista causou, infelizmente, a sua morte. Mas podia ter levado três pessoas [Thor e o amigo que estava com ele no carro]", disse à Folha depois do acidente.

Eike, aliado dos políticos

Eike era protagonista habitual de fotos oficiais com a cúpula política do Brasil, mas sua influência ia além dos flashes. Amante do Rio, ele se envolveu em importantes projetos que deram impulso à carreira de seus padrinhos no poder. Patrocinou com mais de 20 milhões de reais a candidatura dos Jogos Olímpicos de 2016, assim como os projetos de pacificação das favelas cariocas, hoje também em decadência. Quando seu império tremeu, multiplicaram-se as mensagens de otimismo de autoridades apostando em sua recuperação. Seus antigos aliados temem agora que Eike cumpra com sua ameaça feita horas antes de ser detido: “Vou contar como são as coisas. É hora de ajudar a passar as coisas a limpo ”.

Hoje, Eike, que calculava que em 2016 seria o homem mais rico do mundo, teve seu caro e artificial cabelo raspado ao entrar na prisão. E ali, careca como outro detento qualquer, assiste ao que se perfila como o último episódio de uma vida de sucesso que muitos brasileiros quiseram ter.