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Sindicato do Crime RN, a dissidência do PCC que hoje é seu inimigo mortal

Facção local foi responsável em 2015 pela morte de Alexandre Teodósio, líder do PCC, dentro de presídio em Natal

Presos do Sindicato do Crime RN. REUTERS
São Paulo / Natal

Alexandre Teodósio, vulgo Pelelê, de 30 anos, havia acabado de sair da cela no pavilhão 5 do presídio Rogério Coutinho Madruga, na Região Metropolitana de Natal, no dia 10 de junho de 2015. Vestindo apenas a bermuda azul, destinada aos detentos, e chinelo, se dirigia ao pátio para o banho de sol matinal. Integrante prestigiado da facção criminosa paulista Primeiro Comando da Capital (PCC), era conhecido como o “matador” do grupo no Estado, condenado a mais de 20 anos por diversos homicídios e tráfico de droga. Teodósio exibia com orgulho na barriga a tatuagem do símbolo chinês yin-yang, adotado pelos integrantes da facção criminosa de origem paulista. Minutos após deixar a cela ele foi esfaqueado e morto. O assassinato havia sido encomendado pela facção rival, o Sindicato do Crime RN, e marcou o racha definitivo entre as organizações criminosas. Esta rivalidade explodiu no último sábado, quando presos do PCC assassinaram 26 membros da facção local, desatando uma rebelião, ainda em curso, no presídio de Natal – a terceira no Brasil só em 2017, o que agravou ainda mais a crise penitenciária que vive o país.

Segundo um relatório do Ministério Público do Rio Grande do Norte, o grupo potiguar é uma dissidência do PCC fundado em março de 2013. Foi criado por detentos revoltados com “as decisões dos líderes locais" da facção paulista, "principalmente com a forma que eles levavam os problemas para os superiores em São Paulo”. Aliados do Comando Vermelho, que está em guerra com o PCC desde o final do ano passado, o Sindicato é mais um grupo local – assim como a Família do Norte, no Amazonas – a entrar em rota de colisão com os criminosos de São Paulo na disputa pela supremacia dentro e fora das cadeias.

No mais recente episódio de violência entre os grupos, ocorrido no sábado, presos ligados ao PCC que estavam confinados no pavilhão 5 do presídio invadiram o pavilhão 4, destinado aos detentos do Sindicato, e mataram 26 rivais. As cabeças decapitadas foram jogadas na fossa da penitenciária. Este foi o terceiro massacre ocorrido nos presídios brasileiros este ano. No total 134 presos foram assassinados no sistema carcerário brasileiro em 2017 - mais de um terço do total registrado no ano passado. Na segunda-feira, os presos do Sindicato picharam nos muros do presídio as letras FDN, em referência à facção amazonense, em uma aparente demonstração de solidariedade com o grupo.

O Sindicato ganhou notoriedade ao, em agosto de 2016, praticar uma onda de atentados no Estado, onde controla 24 de 32 penitenciárias. Em três dias, 65 ataques foram registrados por todo o Rio Grande do Norte. Ônibus foram incendiados e prédios privados e públicos foram alvejados. À época as autoridades acusaram lideranças do Sindicato de estarem por trás dos crimes, e anunciaram a prisão de 60 pessoas. De acordo com o Governo, a instalação de bloqueadores de celular em alguns presídios do Estado teria provocado a crise.

O RN entrou na mira do PCC por ser um dos Estados brasileiros mais próximos da Europa, destino final de parte das drogas contrabandeadas pelos paulistas e uma das mais lucrativas rotas do tráfico internacional. A política expansionista da facção de São Paulo busca controlar as atividades criminosas em Estados que fazem fronteira com países produtores de cocaína ou que possibilitam sua exportação pela via portuária.

"O Estado é nosso"

“Muitos membros do PCC abandonaram a facção e passaram a integrar o Sindicato”

Dias após a morte de Teodósio, em conversas grampeadas pela polícia, Bruno Pierre Araújo Falcão da Silva, vulgo Wolverine, uma das lideranças do Sindicato, deixa claro a posição do grupo: “Não é que tomamos o Estado, pois o Estado é nosso, não é de PCC, de Marcola [Marcos Willians Herbas Camacho, liderança da facção paulista] e de ninguém de fora”. “Em nosso Estado o que funciona é o nosso crime, não é ideologia do PCC”, completa o traficante, que atualmente está detido no presídio federal de Porto Velho.

O documento do Ministério Público dá mais detalhes sobre os motivos do racha com os paulistas: muitos criminosos criticavam “o preço alto da mensalidade [taxa paga pelos integrantes para custear despesas da facção], expulsões (...) e seguir cegamente as ordens vindas de São Paulo”. Com isso “muitos membros do PCC abandonaram a facção e passaram a integrar o Sindicato”. Apesar de novo, o grupo conseguiu se impor no sistema carcerário do Estado, onde domina a maioria das unidades, e também controla a venda de drogas em várias favelas da região. As autoridades identificaram mais de cem contas bancárias movimentadas pela facção, usadas para lavar o dinheiro fruto de suas atividades criminosas. O próprio estatuto do grupo imita o do PCC, pregando a “luta contra a opressão no sistema carcerário”, e proibindo que seus integrantes usem “crack ou Rivotril [remédio calmante]”

Assim como ocorre com outras facções, os integrantes do grupo precisam pagar uma caixinha para financiar o grupo dar amparo aos familiares dos presos. O valor é de 100 reais para os detentos, e 200 para quem está solto. O estatuto prevê uma tolerância de “20 dias mais 10” para que o débito seja quitado, caso contrário o caso é levado para a linha final, a cúpula da facção.

Em outra gravação feita pela polícia, o chefe do Sindicato Bruno Pierre Araújo Falcão da Silva confirma que a facção estava por trás da morte do integrante do PCC em 2015. “Pelelê [Teodósio] estava querendo matar as pessoas, aí levaram o caso ao conselho e à linha final, que mandaram matar Pelelê”, afirmou Silva. O grupo também cometeu ao menos uma chacina em uma favela controlada majoritariamente pelo PCC, conhecida como África, na capital do Estado. Três pessoas foram mortas com mais de 50 disparos em setembro de 2015. No muro em frente ao local do crime os assassinos escreveram a sigla CRN, um outro apelido do Sindicato.

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