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ANÁLISE

No país das delações da Odebrecht, a propinocracia tem muitos reis

Depoimento de executivo da empreiteira faz rever algumas verdades que se sustentam no inconsciente coletivo brasileiro

Os senadores do PMDB Renan Calheiros e Romero Jucá EFE

Na noite quente do último sábado, um piloto de avião comentava numa mesa de bar que não havia conseguido tirar os olhos do Jornal Nacional naquele dia. Emudeceu diante do noticiário sobre o conteúdo da delação de Claudio Melo Filho, ex-diretor de assuntos institucionais da Odebrecht. Não está sozinho em seu desalento. O piloto e boa parte do Brasil que tomou ciência dos detalhes da delação neste final de semana digerem a verdade dos fatos, bem às vésperas do Natal. Caiu a ficha, e para muitos, uma chuva de moedas, tal qual as máquinas de azar dos cassinos. No escapismo do humor, repete-se que o Brasil entrou numa viagem de ácido e nunca mais voltou.

Foi só a exposição de um dos 77 executivos que estão abrindo o bico sobre os negócios escusos da Odebrecht. Mas com nitroglicerina suficiente para revisar algumas verdades que se sustentaram no inconsciente coletivo brasileiro até este final de semana. (leia aqui a delação completa)

A narrativa popular sobre a corrupção sistêmica, que seria liderada nos últimos anos pelo Partido dos Trabalhadores, se mostra incompleta. A parte mais conhecida até o momento é que o PT se fartou por 13 anos de um jogo sujo dentro da Petrobras que garantiu recursos de caixa 2 para abastecer os cofres das campanhas eleitorais petistas, tendo praticamente como coadjuvantes o PMDB e do PP. E como expôs em setembro o procurador Deltan Dallagnol no famoso powerpoint, Lula era o chefe dessa propinocracia. Uma pesquisa feita pelo instituto Ipsos, divulgada no último dia 2, revela que para 72% dos entrevistados, o PT é mais corrupto que os demais partidos.

Na verdade, o que se conhece mais até agora são as informações relativas ao PT, enquanto o esquema da Petrobras era dissecado em praça pública pela Lava Jato. Nas minuciosas explicações de Melo Filho em sua delação fica implícito e explícito que a terra da propinocracia vai muito além da Petrobras, e é dividida em vários reinados. A petroleira era apenas um deles. O Congresso parece território do PMDB. Com maioria na Câmara e no Senado, os peemedebistas são totalmente necessários para mover as engrenagens das votações. Criou-se, assim, um dissimulado balcão de negócios que trocava eficiência no trato de projetos caros à Odebrecht pela generosidade da empresa com as campanhas eleitorais de seu partido ou aliados, conforme a delação. As informações de Melo Filho, aliás, foram confirmadas por Marcelo Odebrecht, segundo a Folha de S. Paulo.

Algumas barganhas descritas pelo ex-diretor institucional são tão ostensivas que conhecer seus detalhes gera o mesmo efeito de um soco no estômago em nossa ingênua fé. Geddel Vieira Lima, então ministro da Integração Nacional de Lula em 2008, por exemplo, teria cobrado 3% da Odebrecht para liberar verbas para a obra de irrigação Tabuleiros Litorâneos, no Estado do Piauí. “Apesar dos pagamentos frequentes, Geddel sempre me disse que poderíamos ser mais generosos com ele. Ele insistentemente alegava que nunca efetivamente demos a ele o que ele acreditava representar. Geddel sempre me dizia que se considerava um ‘amigo da empresa’ e que isso precisava ser mais bem refletido financeiramente”, diz Melo Filho em determinado trecho da delação, que pode ser encontrado na página 21 das 82 páginas de seu depoimento.

Geddel, aquele que exigiu que o Iphan revisse a decisão de embargar uma obra em Salvador, na qual ele tinha um apartamento. Geddel, aquele que o presidente Michel Temer tentou segurar na Secretaria do Governo, dizendo ao seu ex-ministro da Cultura Marcelo Calero que “política tem dessas coisas, esse tipo de pressão”, e que ele deveria construir uma saída.

Temer sabe das coisas da política e suas pressões, segundo a delação da Odebrecht, que o cita mais de 40 vezes, e coloca seu dream team particular, que incluía Geddel até novembro, em lençóis subterrâneos. Eliseu Padilha, Moreira Franco, seus atuais ministros, e Romero Jucá, seu líder de Governo no Senado, também brilham na delação como malabaristas a favor da Odebrecht, sentindo-se autorizados na sequência a propor doações a seu partido. Sobre Jucá, interessante menção na página 12 do depoimento de 82 páginas. “O relevo da sua figura pode ser medido por dois fatos objetivos: (i) a intensidade da sua devoção aos pleitos que eram do nosso interesse e (ii) o elevado valor dos pagamentos financeiros que foram feitos ao Senador ao longo dos anos.”

Pediu dinheiro não só para ele, diz em outro trecho. Em 2012, foram entregues mais ou menos 4 milhões de reais num escritório da avenida Faria Lima aos cuidados de Jucá, segundo o delator,  em contrapartida ao decisivo apoio dado pelo senador durante o trâmite do PRS 72/2010, que garantia vantagens tributárias para empresas, que seriam destinados também a Renan Calheiros.

Segundo a Folha, Marcelo Odebrecht confirmou também que Temer pediu 10 milhões de reais para campanhas. Eis o dream team no comando do Governo e no Congresso que aprovou a PEC do Teto de gastos nesta terça. Fica a desconfiança... a qual pressão corporativa cedeu-se desta vez? Ou tudo nos leva a crer que o time de ouro do PMDB foi às últimas consequências para preservar o melhor para o país na PEC 55? O mesmo vale para a reforma da Previdência. Quais favores privados estaremos pagando por ela?

Não se sabe ao certo se será possível encontrar as provas finais de todas essas conexões duvidosas. Mas, se há algo bom em tomar ciência de tanta miséria humana é conhecer todos os lados desse caleidoscópio de Brasília. O PMDB esteve perto do Executivo desde a redemocratização. Desde Collor e Fernando Henrique, o time de ouro se reveza em ministérios, ou como líderes dos partidos no poder no Congresso. E se Lula era chefe da propinocracia desde 2003, alguém ocupou esse cargo antes dele? Ou o balcão peemedebista só passou a funcionar com o PT?

Com o quebra-cabeça mais completo, fica difícil acreditar que a corrupção sistêmica é obra de poucos. Os mesmos procuradores da Lava Jato têm martelado isso nas coletivas de imprensa, muito embora o mundo político utilize as informações ao sabor de seus interesses. Até Dilma Rousseff pode perder a imagem de imaculada, com uma tal mesada de 50.000 reais ao seu ex-assessor direto Anderson Dornelles. A cópia de um email de Marcelo Odebrecht mostra a liberação de recursos para ele, que atendia pelo apelido de Las Vegas. Uma planilha anexada ao depoimento de Melo Filho mostra pagamentos feitos entre 2014 e 2015 a Dornelles, com a Lava Jato a todo vapor. Ele nega. Como todos os investigados até aqui.

Agora todos são suspeitos até que se prove o contrário. Não sobra ninguém, nem os tucanos, que estão mais sossegados agora porque as principais investigações focam na administração federal. Mas já ficou claro que a mesma lógica de pedir dinheiro para caixa 2 foi utilizada em governos estaduais e municipais. Recai, ainda, em outras instituições, incluindo Tribunais de Contas estaduais, responsáveis por fiscalizar o dinheiro público. Está aí a investigação do presidente do TCE do Rio, Jonas Lopes de Carvalho, que cobraria 1% da Carioca Engenharia para aprovar obras de interesse da construtora.

As máscaras estão caindo aos borbotões no Brasil e enoja ver fotos passadas de políticos implicados nas delações, desfilando de verde amarelo em marchas contra a corrupção. Fazem valer o surrado e pouco elegante ditado popular: não há virgens no puteiro. Tudo bem, a realidade não se preocupa em ser elegante mesmo.

Mas por mais dolorosa que seja, não se pode temer a verdade. Hoje, os brasileiros estão atônitos, foram pegos de calça curta neste final de ano com um terremoto maior do que se esperava. Mas é a mesma população que já se mostrou incansável para reclamar nas ruas quando a ficha cai.  Neste momento, a sociedade está dividida e nocauteada. Mas basta apenas uma fagulha para brigar de novo. Pode demorar meses para reagir, mas reage. Do jeito que está, decididamente, não pode ficar.