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Um cordão de mulheres fura o bloqueio machista em 2016

Líderes, coletivos e executivas travam batalha para mudar a história da condição feminina no país, denunciando ainda o irmão gêmeo do machismo: o racismo

Mulheres contra o machismo
Manifestação de mulheres em São Paulo no início deste mês. Agência Brasil

O ano de 2016 não parou de chacoalhar o Brasil um minuto sequer com a política que virou o país de ponta cabeça. As notícias diárias desse tsunami político, porém, têm ofuscado um outro terremoto que parece abrir um capítulo novo na história brasileira. Atende por nome de ‘mulher’. Melhor dizer, de mulheres. Um cordão formado por elas, brasileiras, mais aguerridas do que nunca, decididas a começar a quebrar a inércia ancestral do machismo, e seu nefasto irmão gêmeo, o racismo. Basta uma olhada nos números do IBGE para saber que um homem branco ganha mais que uma mulher branca, que por sua vez ganham mais que uma mulher negra. Um efeito cascata avassalador.

É contra esse quadro que líderes, coletivos, executivas e instituições como a Organização das Nações Unidas estão atentas para dar voz à mudança exigida de cima para baixo e de baixo para cima. “O patriarcado tem data para terminar: 2030, que é o prazo que queremos ver todas as mulheres ocupando todos os espaços”, afirma Nadine Gassman, representante da ONU Mulheres no Brasil, que tem chefiado campanhas pelo fim da violência contra as mulheres em toda a América Latina.

A briga ainda mal começou, e já se sabe que esta será uma batalha eterna e necessária por gerações. Mas 2016 já deixou provas de que não se pode mais mexer com essas moças como antes. Alguns exemplos? Mal assumiu o Governo interinamente em maio, o presidente Michel Temer se viu às voltas com a fúria coletiva feminina por não ter nomeado sequer uma mulher para o seu ministério. Nenhum negro também. Foi um escândalo, muito bem retratado e amplificado nas redes sociais e no noticiário. Tão forte que Temer se viu obrigado a correr para chamar mulheres para cargos de poder, que atenuassem o erro de cálculo político. Amenizou um pouco com a indicação de Maria Silva Bastos para a presidência do BNDES e Flavia Piovesan na secretaria de Direitos Humanos. Mas o estrago já tinha sido feito. O rótulo da misoginia e racismo ficou no Governo Temer.

Em outro episódio naquele mesmo mês, no caso do estupro coletivo descoberto no Rio de Janeiro, o caldo do poder feminino engrossou de vez. O delegado que conduzia a investigação insinuou que a vítima seria cúmplice da violência que sofrera quando, dopada, foi estuprada por ao menos seis pessoas. O escândalo que derivou de suas declarações machistas e equivocadas obrigou a polícia do Rio a tirá-lo da investigação e substituí-lo pela delegada Cristiana Bento que em um dia já trazia o bom senso de volta. A jovem de 16 anos foi vítima de um crime cruel e hediondo, inflando as estatísticas de violência contra a mulher.

As brasileiras definitivamente não ficam mais silenciosas com a indiferença que lhes chega e começaram a incomodar até transformar algumas situações escandalosas. “O incômodo é necessário e importante para a mudança. Se a gente não se incomoda as pessoas acham que está tudo bem, quando a realidade é desigual e violenta”, diz Djamila Ribeiro, secretária de Direitos Humanos da cidade de São Paulo.

Em 2015, o coletivo Think Olga já havia colaborado com a primavera feminina e/ou feminista quando incentivou a campanha #primeiroassedio nas redes. Foi uma verdadeira reviravolta. A coragem de umas foi contagiando outras, e uma onda solidária e de reconhecimento mútuo invadiu o coração das brasileiras que expuseram seus casos publicamente. Não volta atrás.

“O Brasil é o quinto país mais violento do mundo, mas vejo um aumento da solidariedade para os casos de violência contra a mulher”, diz Gabriela Manssur, promotora de Justiça, comprometida com campanhas de esclarecimento contra a violência de gênero. Manssur é uma das que integram o cordão de mulheres que tomaram como sua a briga pelo respeito e a justiça da ONU Mulheres no Brasil, é outra, e a secretária de Direitos Humanos de São Paulo, Djamila Ribeiro, também. As três participaram do evento “Brasileiras: como elas estão mudando o país”, idealizado pelo EL PAÍS, em parceria com a agência Locomotiva, realizado no último dia 2, que reuniu uma parte delas para dizer o óbvio. As mulheres mudaram, e é preciso reescrever a relação com elas.

E nas empresas e na propaganda também

O caminho, porém, é longo, e demanda um olhar severo e minucioso por todos os setores. Nas empresas que pagam menos para funcionárias mulheres – e menos ainda para negras – ou que não contam com uma política de ascensão a cargos estratégicos para elas. Na Justiça que fecha os olhos e culpa as mulheres em casos de estupro. E na política, onde a presença feminina é minúscula.

“Sou um homem branco, de 39 anos, paulistano e com curso superior, e só por ser quem sou, ganho 69% a mais do que uma mulher branca, paulistana e com superior completo”, ironiza Renato Meirelles, presidente da agência Locomotiva, que desenvolveu diversas pesquisas mostrando as distorções sociais que as mulheres vivem no Brasil de hoje.

O start pela mudança já começou em algumas companhias. “As mulheres entenderam que elas podem, mas o caminho é longo, pois ainda temos muito o que fazer”, diz Vanessa Lobato, vice-presidente de recursos humanos do Banco Santander. O banco tem um programa de fortalecimento de lideranças femininas, tomando como exemplo a presidenta atual do Santander no mundo, Ana Patricia Botín.

A naturalização do machismo se vê retratado e legitimado em todos os campos, incluindo a publicidade, e o marketing que chega às nossas casas diariamente, apesar de 40% dos lares no Brasil serem chefiados por mulheres. Mas elas já não ficam mais quietinhas. Ao contrário, dezenas de empresas encararam verdadeiras crises de imagem ao continuar trabalhando como antes, quando uma massa de mulheres já deu o seu basta definitivo.

Bem antes de Temer e do caso do estupro coletivo no Rio, diversas empresas já sentiam na pele o que é ser massacrado nas redes sociais pelo público feminino, que se sentiu ofendido, ou não se viu representado em algum de seus comerciais ou ações de marketing. Em fevereiro deste ano, a empresa canadense DryWorld teve noção do tamanho desse movimento no Brasil – espontâneo, diga-se de passagem —, quando uma camiseta da sua marca trazia na sua etiqueta a mensagem “Give it to your wife” (Dê para sua mulher) sobre aquele minúsculo símbolo das instruções de lavagem que toda roupa carrega. A ironia dessa história: a etiqueta estava costurada na camiseta do time Atlético Mineiro, ou seja, um reduto masculino, num dos Estados mais machistas do país. A DryWorld integra o time de fornecedores do Galo. As redes sociais pegaram fogo e execraram o time e a sua camiseta.

A reação feminina foi tão grande que obrigou o Atlético e a própria empresa fornecedora a pedir desculpas publicamente às mulheres brasileiras, mostrando que até nesse mundo aparentemente fechado do futebol o bloqueio começa a ser furado. Muitas outras empresas tiveram de pedir “sinceras desculpas” em 2016. Também a grife de roupas Maria Filó, que se viu no olho do furacão quando permitiu a venda de uma camiseta da sua marca com a estampa de um estereótipo maldito, o de mulheres negras escravas, trabalhando para mulheres brancas.

As ‘bofetadas virtuais’, seja contra o Governo, ou contra empresas, têm vindo cada vez mais rápido, promovendo minúsculas mudanças, num mundo distorcido, como mostrou a pesquisa da agência Locomotiva. Milhões de transformações ainda são necessárias para transformar a realidade com a profundidade necessária, mas uma coisa é certa: a onda feminina já quebrou, e agora não volta atrás. (colaborou Regiane de Oliveira)

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