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As crianças e adolescentes órfãos da Chapecoense

Depois de paralisação de dois dias, escolas retomam atividades com atividades de apoio psicológico

Torcedores no estádio da Chapecoense, em Chapecó.
Torcedores no estádio da Chapecoense, em Chapecó. REUTERS

Muitos alunos de Chapecó já estavam na sala de aula quando a notícia da queda do avião da Chapecoense se espalhou na terça-feira de manhã. Na Escola Estadual Marechal Bormann era impossível seguir qualquer rotina e, diante do desespero dos estudantes, a orientadora pedagógica Carmen Belotti pediu para que os professores fizessem exercícios de relaxamento e respiração para acalmá-los. “Explicamos que os jogadores eram muito humildes e que deveríamos aprender com eles. Mas é muito difícil. O desespero era tão grande que tivemos que ligar para muitos pais e pedir para que buscassem seus filhos. No turno da tarde, liberamos todo mundo”, explica.

As aulas só foram retomadas no município na quinta-feira, dois dias depois da tragédia que matou os ídolos da cidade, mas deixar o luto de lado e retomar a normalidade é praticamente impossível. Tendo isso em mente, Edevilson Sacon, diretor da Marechal Bormann, convocou às quatro horas da tarde todos os alunos para uma conversa no pátio interno. Vestidos com a camisa verde e branca da Chapecoense, muitos chegaram abraçados e com os olhos vermelhos de choro. O professor Gilberto Oliari, de ensino religioso, foi o primeiro em discursar: “Verde é a cor da esperança. Precisamos pensar positivo e nos ajudar para sairmos juntos dessa. Essa é a hora de conversar, chorar e de rezar, cada um em sua religiosidade. É importante que passemos por este momento juntos”.

Além de conversas constantes com os alunos, os professores da Marechal Bormann estão estimulando que expressem seus sentimentos através de mensagens e desenhos em um grande mural da escola – cuja entrada já está decorada com as cores da Chape.

O acidente de avião, que causou uma grande comoção nacional, foi um baque ainda maior para toda uma nova geração de torcedores que acompanharam o crescimento da Chapecoense dos últimos anos e aprenderam a amar o time. Nos últimos dias de vigília constante na Arena Condá, é perceptível que os mais jovens – muitos acompanhados de parentes – são os mais presentes. E também os que mais choram, mais rezam e mais mensagens deixam. Para eles, não existe algo que é muito comum nas cidades menores e também entre os mais velhos de Chapecó: torcer por um time grande das capitais e depois por um time menor local. Só existe um time do coração para eles. A Chape.

Alunas na Escola Marechal Bormann, em Chapecó.
Alunas na Escola Marechal Bormann, em Chapecó.

Mauricio Eduardo Mosque, aluno de 14 anos da escola Marechal Bormann, resume este sentimento após a fala do professor Gilberto: “Eles eram nossos ídolos, mas se foram e agora são mais que isso... São nossos heróis”, diz. Seu colega João Gabriel Capra, de 15, acrescenta entre lágrimas: “Esta camisa aqui foi um dos jogadores que me deu. Eles eram muito humildes, muito acessíveis. É duro pensar que na quarta-feira passada eu estava com rojão verde dentro do bolso para assistir à semifinal da Sul-Americana, e ontem estava com velas dentro bolso”. Letícia Brito, de 15, completa aos prantos: “E depois desse jogo, o técnico Caio Júnior voltou para casa andando pela rua, cumprimentando as pessoas. Não tinha esquema de segurança nem nada. A gente encontrava com eles na rua, nos restaurantes... Tiaguinho, Danilo, Bruno Rangel, Cléber Santana... Eram todos muito humildes. Conhecíamos suas famílias e muitos somos amigos de seus filhos. É muito duro”.

O mais velho do grupo, Igor Eduardo Detofol, de 17 anos, está mais contido. Escuta com atenção a fala de seus colegas e, quando todos se afastam, desabafa: “Tenho estado mais tranquilo porque quero amparar os mais novinhos”, explica o adolescente. “Joguei na base e conhecia o Cléber Santana. Ele que me estimulou a correr atrás do meu sonho. Não tenho pai, então durante três anos ele foi meu pai. Graças a ele vou fazer um teste para um grande time”.

As crianças e adolescentes órfãos da Chapecoense

Reações diferentes

A professora de geografia Lucimar Laurer, que dá aulas para o oitavo ano em outra escola estadual, a Pedro Maciel, explica que a forma de lidar com o tema varia de acordo com a idade. Ela usa como exemplo seus dois filhos, um de 15 anos e outro de cinco, para contar o que tem visto na escola. “O mais velho se fechou. Não quer falar, não quer ouvir, não quer ver. Não quer aceitar”, explica. “Já o mais novo ainda não entende direito. Fomos à vigília que fizeram no estádio e ele ficou me perguntando quando iriam entrar para jogar. Então tenho que explicar com jeito que eles se acidentaram e já não estavam mais aqui”.

Os professores de sua escola também estão tendo o mesmo trabalho de amparar e fazer com que seus alunos lidem melhor com o desastre. A Pedro Maciel tem uma relação ainda mais estreita com a Chapecoense, já que fica em frente à Arena Condá. Cerca de 80 de seus alunos jogam nos times da base – entre eles o filho de Sandro Pallaoro, presidente do clube que morreu na tragédia. Muitos deles são naturais de outras cidades e vivem entre o colégio e o estádio. Mais que um vício ou uma diversão, a Chape é a casa deles.

“Acordamos no alojamento para o treino, ligamos a TV... Não pudemos acreditar. Meus pais me ligaram para saber se estava tudo bem... Mas estávamos todos muito abalados, sem acreditar”, lembra Vitor Suarez Teixeira, um dos alunos da escola, de 16 anos. Em voz pausada e baixa, o adolescente acrescenta que o time foi liberado dos treinos e que agora espera voltar para sua casa, no Rio Grande do Sul. Diz já ter interiorizado o que aconteceu. “Mas até ontem estava mais contido, até que entrei no gramado para a vigília... Aí desabei”.

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