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Novo disco dos Rolling Stones? Blues antigo tocado com entusiasmo

Mick Jagger protagoniza, como vocalista e na gaita, um álbum dedicado integralmente ao blues

Os Rolling Stones durante apresentação no festival Desert Trip em outubro de 2016. REUTERS

Duas opções em relação a Blue & Lonesome, o álbum que os Rolling Stones lançam nesta sexta-feira. A primeira, lamentar que este lançamento retarde uma vez mais a hora da verdade: a materialização de um disco com canções novas — o último foi A Bigger Bang, em 2005 — que demonstre que são um ente criativo e não essa máquina pensada para arrecadar enormes quantidades de dinheiro que sai nos telejornais.

A segunda opção consiste simplesmente em desfrutar do que nos chega: uma coleção de blues elétricos, 12 temas antigos tocados com ruidoso entusiasmo. O produtor, Don Was, conservou a camaradagem ambiental. É um disco, atenção, protagonizado por Mick Jagger, como vocalista e gaitista; de fato, dominam as faixas de bluesmen que alternavam canto e gaita, como Little Walter, Jimmy Reed e Howlin’ Wolf. Sabemos, porém, que Jagger mostra uma curiosa ambivalência quanto ao ofício de cantor de blues.

Já em 1968, se perguntava qual sentido havia em escutar seu I’m a King Bee quando se podia ter acesso ao original de Slim Harpo. Nos seus primórdios, os Stones assumiam o papel de proselitistas do blues, música então fora do mainstream. Hoje explicam isso como um acaso, o resultado de buscar uma nova proposta, mas conseguiram proezas extraordinárias. Por exemplo, colocar o sugestivo Little Red Rooster, puro blues de Chicago, no número um da Grã-Bretanha, no final de 1964.

Sempre demonstraram respeito pela forma e seus criadores: nada de se apropriar de composições alheias, ao estilo de Led Zepellin. Esforçaram-se por ajudar seus mestres, gravando discos conjuntos e levando-os em turnês. Em mais de uma ocasião pagaram discretamente tratamentos médicos ou o custo de um enterro.

Voltemos ao ceticismo de Jagger. A resposta é óbvia: suas versões tendiam a ser cruas, insolentes, libidinosas. Verdade que o valor simbólico do gesto diminuiu: agora atuam cem mil músicos de blues (brancos, na maioria) que recriam o repertório dos clássicos, em alguns casos com exuberância instrumental e, em outros, com esforçado primitivismo. Consciente dessa ubiquidade, Jagger foi mais fundo em sua discoteca, selecionando temas menos batidos, às vezes interpretados por artistas hoje esquecidos, como Lightnin’ Slim ou Magic Sam. Como em seu início, procura apresentar uma proposta fresca para o grande público.

Na realidade, Jagger já testou exatamente esta mesma jogada: em 1992 se enfurnou em um estúdio de Los Angeles com uma banda local, The Red Devils, e gravou material suficiente para um álbum. Não chegou a publicá-lo, com exceção de uma faixa resgatada para seu The Very Best of Mick Jagger (2007). Aqui se nota a inteligência de Jagger, o businessman: depois de seus fracassos como solista de som moderno, um disco seu fazendo blues não teria incendiado as paradas; no entanto, firmado por The Rolling Stones, é recebido como um grande acontecimento.

Jagger repetiu o método de 1992: algo rápido e indolor. Em dezembro do ano passado se juntaram com seus músicos de apresentações ao vivo em British Grove, estúdios londrinos – propriedade de Mark Knopfler– que combinam tecnologia analógica e digital. Iam trabalhar nas novas canções, mas isso se tornou muito pesado. Como resultado, embarcaram no que foi batizado como Blue & Lonesome. Em três dias liquidaram o disco: para Jagger, Keith Richards e o baterista Charlie Watts, foi algo simples recuperar o espírito de seu início. É verdade que Richards anda um tanto enferrujado, mas para isso contam com os serviços de Ronnie Wood.

De visita ao estúdio também apareceu Eric Clapton. Que interpreta seu papel de deus da guitarra em um par de faixas lentas, que aparecem –quando o LP sair– no final de cada lado. O resultado é pirotecnia vistosa, embora se distancie do tom geral: uma banda eficaz, a serviço de seu vocalista.

Nos piores momentos de sua carreira, Jagger costumava exagerar os maneirismos de artistas norte-americanos. Ao contrário, aqui está certeiro em seu papel. Não aspira a soar mais negro que os originais: é um connoisseur do blues que reinterpreta sucessos alheios com inteligência, filtrados a partir de suas vivências. Tampouco vem ao caso se essa é a música que lhe corresponde, por raça ou por status econômico. À sua maneira, vive imerso nos blues há mais de meio século e aqui demonstra que sabe comunicar seus sentimentos universais.

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