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Lambateria: a festa paraense de lambada retrô (e do seu Godofredo)

Casa em Belém reúne jovens 'indies' e idosos para dançar a 'nova' versão de ritmos que fizeram sucesso no país há décadas

Félix Robatto.
Félix Robatto.

Se quiser dançar com seu Godofredo, o melhor mesmo é chegar cedo. O conselho é do cantor paraense Félix Robatto e vem de cima do palco, em forma de música. Ele ainda adverte: "não vacila, pega tua senha e entra na fila". Quando os primeiros acordes da canção começam, um senhorzinho de 63 anos avança pela pista sorrindo orgulhoso e segurando a mão de uma ruiva de cabelos encaracolados armados e vestido preto justo e curto. No caminho, ainda dispensa uma jovem que, desatenta, tentava tirá-lo para dançar. Juntos, ele e a ruiva começam a serpentear pelo salão.

Trajando calças jeans, camisa branca e chapéu panamá, seu Godofredo se destaca do resto do público da Lambateria, uma festa em Belém do Pará onde Robatto, um músico de barba grossa que se estende quase até o umbigo, toca todas as quintas-feiras a guitarrada, uma mistura da lambada que estourou no país nos anos 1980 com acordes fortes de guitarra. Acrescenta ainda uma pitada de música brega (aquela das letras melosas). O lugar reúne jovens, entre eles alguns de bigodes, turbantes ou camisas de manga curta floridas com os botões superiores abertos no estilo canastrão –à venda na entrada por 50 reais. Não fosse a música, poderiam ser confundidos com a audiência de uma banda indie pouco conhecida (e até são), mas naquela pista dançam um som que há poucas décadas –antes dos fenômenos Beto Barbosa e Kaoma– era marginalizado aos inferninhos das periferias do Pará.

O som da guitarra é repetitivo e tão marcante que pode ecoar por dias na cabeça. Os acordes do instrumento obrigam pés e quadril a se moverem num ritmo muito rápido. E a dupla, às vezes, gruda testa com testa, enquanto separa o resto do corpo. Se você tem mais de 30 anos e dominava os passos de Chorando se Foi, não se engane: a desenvoltura da década de 80 não é garantia de que conseguirá acompanhar os entusiastas da guitarrada. Essa repórter, lamentavelmente, é a prova disso.

No meio daquele pessoal moderno, tudo parece de vanguarda. Mas, na verdade, a festa promovida em Belém todas as quintas-feiras poderia ser considerada um tanto retrô. Ela é o resgate de uma música que começou a circular no Pará nos anos 70, inspirada em ritmos caribenhos. Em seu novo disco, Belemgue Banguer, lançado no mês passado, Robatto fez uma pesquisa dos gêneros musicais que originaram a lambada para produzir algo que define como "lambada roots [de raiz]". "Lambada é um apelido dado no Pará a uma música feita no Caribe", conta ele, que explica que os ritmos eram conhecidos dos paraenses porque as rádios dos países vizinhos, na fronteira do Norte do país, sintonizavam na região. "Não se sabia muito o que era. E tinha um locutor de uma rádio local que botava para tocar e dizia: 'chegou a hora da lambada!'. Mas era porque enquanto tocava ele tomava uma dose de cachaça e o termo era usado por aqui para falar de uma coisa forte, quente", explica. "Cumbia, mambo, meregue, tudo isso era chamado de lambada", complementa. Poucos anos depois, surgiu a guitarrada, uma lambada onde a guitarra predomina, explica o músico.

A lambada estourou no país nos anos 80 e depois entrou para o esquecimento nacional, dando espaço ao próximo gênero da moda. Mas, no Pará, uma geração de músicos novos, crianças durante a febre da lambada e de formação musical acadêmica de excelência, seguiu a tradição, fazendo ainda experimentações das mais variadas. É o caso de Lucas Estrela, um jovem no início dos 20 anos, de óculos e com jeito de tímido, que mistura os ritmos latinos dessas músicas com elementos tecnológicos. Neste sábado, ele se apresentou com sua guitarra no festival de música Se Rasgum, em Belém, acompanhado do grupo Orquestra Pau e Cordista de Carimbó, que usa tambores africanos, em um show bastante interessante. Estrela é uma das figurinhas carimbadas do palco da Lambateria, ao lado de Felipe Cordeiro, outro nome da nova safra de músicos inovadores paraenses. No último dia 6 de outubro, a festa de número 17 que reuniu Robatto, Estrela e Cordeiro numa mesma noite levou a casa à sua lotação máxima, de 500 pessoas, com gente esperando na fila para poder entrar no lugar de quem saísse.

"É muito satisfatório ver essa galera mais velha curtindo o show ao lado das pessoas mais novas. Talvez esse hype venha da identificação que eles têm com a gente. Frequentamos as mesmas festas˜, conta Robatto. "Essas músicas eram músicas de lugares clandestinos. Era coisa de puteiro mesmo. E você vai escutar a mesma coisa se passar na frente de um desses inferninhos hoje", diz ele.

Seu Godofredo que o diga. Quando era jovem, o tipo de música que se ouve ali era proibido para um rapaz de classe média, filho de funcionário público e morador de uma cidade do interior paraense. "Ouvia o som de longe, mas era coisa desses lugares, sabe?", conta. "Morria de vontade de dançar, mas não podia ir". Na nova onda da lambada alternativa agora ele é o rei da pista. De tão assíduo na festa, ganhou até sua própria música e é disputado pelas jovens descoladas. E, se alguma delas vacilar, fica sem dançar.

A jornalista viajou para Belém a convite da produção do festival Se Rasgum.

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