Guerra de narrativas: a batalha do impeachment no Facebook

Monitoramento de veículos mostra que a maioria das matérias mais compartilhadas atenderam a estratégias das campanhas

Uma mulher olha a través do muro instalado em Brasília. EFE

Desde que a crise política se instaurou, as discussões políticas no Facebook foram tomadas por uma polarização onde, de maneira organizada ou espontânea, militantes e aderentes dos dois lados reforçam narrativas unitárias que repetindo de maneira variada os mesmos argumentos deixam sem espaço o discurso político independente.

A partir de uma ferramenta que desenvolvemos na Universidade de São Paulo, capturamos todas as matérias dos quatro dias que precederam a votação do impeachment (de quarta a sábado) de mais de 117 veículos compreendendo os principais jornais impressos, as maiores revistas semanais, os portais de notícias e a imprensa alternativa de esquerda e de direita. Reunimos um banco de dados com mais de 8.000 matérias que geraram mais de seis milhões de compartilhamentos.

Partindo desse universo, selecionamos as 100 matérias mais compartilhadas (que geraram um total de dois milhões de compartilhamentos) e constatamos, com surpresa, que 80% dessas matérias ilustravam a narrativa da campanha #ForaDilma! ou a narrativa da campanha #NãoVaiTerGolpe!, o que sugere que seu alto grau de compartilhamento se deve a mobilização das manchetes pelas campanhas. Em outras palavras, de cada dez matérias políticas, entre as mais compartilhadas, oito parecem estar a serviço da guerra de narrativas em torno do processo de impeachment.

Para nossa análise, agrupamos as manchetes das matérias mais compartilhadas nas principais linhas argumentativas das campanhas. Os resultados mostram que não é apenas a informação produzida pelos sites mais engajados da imprensa alternativa que é mobilizada pelas campanhas, mas que também o jornalismo feito pelos grandes meios é mobilizado e subordinado a essas estratégias discursivas por meio do compartilhamento em massa de matérias selecionadas com manchetes favoráveis.

O alto nível de compartilhamento sugere que a produção discursiva das campanhas não é realizada apenas pelos militantes profissionais dos dois grupos, mas que uma ampla parcela dos usuários da rede social está empenhada em difundir o discurso ao qual adere, reproduzindo mecanicamente a dinâmica polarizada do debate. O efeito do medo de um golpe de estado produzido pela campanha #NãoVaiTerGolpe! somado ao efeito da indignação contra a corrupção generalizada produzido pela campanha #ForaDilma! parece ter gerado comportamentos beligerantes permanentes que inundaram a rede social com as mesmas mensagens até o ponto em que quase nada mais consegue ser percebido.

Como se vê a seguir, as narrativas dos dois lados tem poucos argumentos centrais e a sua força persuasiva advém da reprodução sistemática de matérias diferentes que, ilustrando o mesmo ponto, cada vez com uma voz, tenta comprovar a validade dos argumentos. Ao invés de reproduzirem apenas uma mesma matéria, milhões de vezes, os compartilhamentos se dividem entre matérias diferentes que dizem a mesma coisa, gerando a impressão em quem acompanha a timeline de que a mensagem está vindo de várias partes.

Assim, por exemplo, quase meio milhão de compartilhamentos foram utilizados pelos dois lados apenas para transmitir a impressão de que as adesões para as votações eram crescentes. Os destaques vão para a celebração da posição do PDT, contrária ao impeachment, pelos apoiadores do Governo (por exemplo, Brasil 247: "PDT lembra Brizola e fecha contra o impeachment", 15.000 compartilhamentos) e, no outro lado, a comemoração da posição do PP a favor do impeachment (por exemplo, Infomoney: "PP oficializa apoio ao impeachment", 13.000 compartilhamentos). Na oposição, o tom foi de que a votação já estava ganha e que Dilma e Lula tinham jogado a toalha (Infomoney: "Acabou? Oposição afirma: já possui os 342 votos para o impeachment de Dilma Rousseff", 32.000 compartilhamentos e Pensa Brasil: "Globo News anuncia que Dilma poderá renunciar antes do início da votação", 21.000 compartilhamentos). No grupo pró-governo, o tom foi o oposto (por exemplo, Folha de S. Paulo: "Lula articula frente com assinaturas suficientes para barrar impeachment", 26.000 compartilhamentos). Os números divulgados pela imprensa, segundo esse argumento, estavam enviesados ou eram simplesmente falsos, o principal exemplo sendo o PSB, onde a direção dizia uma coisa e os deputados outra (Brasil 247: "Militância se revolta contra apoio do PSB ao golpe", 12.000 compartilhamentos).

Na campanha #NãoVaiTerGolpe!, que mobilizou pouco mais de um milhão de compartilhamentos, duas linhas argumentativas predominam: uma que defende que impeachment sem crime de responsabilidade é golpe de estado, mesmo se referendado pelo STF e outra que argumenta que a oposição, tomada por escândalos de corrupção, não pode condenar o PT.

Reunindo 237.000 compartilhamentos a primeira linha busca mostrar que o impeachment é um processo ilegítimo e que caracteriza um verdadeiro golpe de estado. Essa linha ressaltou o que pensam instituições importantes como a OEA e a CNBB (Brasil 247: "CNBB pede respeito ao estado democrático de direito", 11.000 compartilhamentos e também do Brasil 247: "OEA: o mundo está ao contrário no Brasil", 19.000 compartilhamentos) e principalmente o que pensam veículos de mídia estrangeiros (por exemplo, Pragmatismo político: "Impeachment de Dilma vira piada em TV dos EUA", 13.000 compartilhamentos e Brasil 247: "New York Times: honesta, Dilma pode ser afastada por criminosos", 13.000 compartilhamentos).

A segunda linha discursiva, que reuniu 118.000 compartilhamentos, argumentou que a oposição, ao contrário da presidente Dilma, nunca denunciada, estava tomada por escândalos de corrupção e por isso não tinha condições de conduzir o processo de impeachment ou acusar a presidente. O Pragmatismo Político foi o veículo que mais produziu matérias nesta linha. Ele lembrou dos escândalos do Banestado no governo Fernando Henrique ("124 bilhões de dólares e uma conta chamada “tucano”, 16.000 compartilhamentos), enfatizou que a subida de Temer pode ser o fim da cassação de Eduardo Cunha ("O impeachment de Dilma pode significar a salvação de Eduardo Cunha", 15.000 compartilhamentos) e que, uma vez que a presidente tenha sofrido o impeachment e antes de investigar a oposição, o juiz Sergio Moro quer acabar com a Lava Jato ("Sergio Moro anuncia que quer acabar com a operação Lava Jato", 13.000 compartilhamentos).

Já na campanha #ForaDilma!, que reuniu cerca de 1,2 milhões de compartilhamentos, três linhas argumentativas se destacaram: a corrupção gerada pelo PT é enorme e intolerável, os defensores do governo são desordeiros perigosos e o PT é um partido autoritário que desrespeita as instituições e é ele, afinal, quem está preparando um golpe.

Assim, matérias de veículos de direita como Pensa Brasil e O Implicante foram bastante compartilhadas sugerindo o favorecimento a empresas pelo Governo federal (Pensa Brasil: Polícia Federal quer saber os motivos para Dilma doar 30 bilhões a Friboi, 90.000 compartilhamentos) e desvio dos fundos de pensão (O Implicante: "Relatório da CPI dos fundos de pensão aponta rombo de R$ 113,5 bilhões", 12.000 compartilhamentos).

Na segunda linha argumentativa, que reuniu 198.000 compartilhamentos, as matérias enfatizaram as ameaças dos grupos que acusam o Governo de paralisar o Brasil ou de promover violência caso o impeachment seja aprovado (por exemplo, Diário do Brasil: "Presidente do PDT ordena que militância vá armada no domingo: atirar para matar", 66.000 compartilhamentos e Pensa Brasil: "De dentro do hotel Lula está organizando a maior baderna do Brasil", 11.000 compartilhamentos), inclusive difundindo o boato de que bolivianos estariam vindo protestar contra o impeachment (Veja: "PM de Goiás investiga se Bolívia mandou ônibus para ato pró-Dilma", 22.000 compartilhamentos e Antagonista: "Estamos sendo invadidos", 18.000 compartilhamentos).

Contrapondo-se a estratégia anti-impeachment, os compartilhamentos pró-impeachment tentaram mostrar que o Governo federal é autoritário e é ele quem está promovendo um golpe ao utilizar instituições como o STF e o Senado para barrar as investigações da Lava Jato (Folha Política: "Se não fosse por Teori Zavascki, Lula já estaria preso, afirma Roberto Jefferson", 14.000 compartilhamentos) e o próprio impeachment (O Antagonista: "Renan prepara golpe para tentar evitar impeachment", 14.000 compartilhamentos), podendo chegar ao limite de decretar estado de emergência para se defender (Veja: "Acreditem! Planalto discute hipótese de decretar Estado de Defesa! Chegou a nossa vez de dizer: Não vai ter golpe!", 27.000 compartilhamentos).

No estudo, detectamos que entre as 100 matérias políticas mais compartilhadas, 80% não apenas tematizaram o impeachment, como o fizeram de acordo com as estratégias discursivas das campanhas. Não se tratou apenas do compartilhamento em massa de veículos da imprensa alternativa que estiveram altamente engajados como Brasil 247 e Pragmatismo Político de um lado e Pensa Brasil e O Implicante, de outro. Manchetes da Folha de S. Paulo, Infomoney e G1 foram amplamente mobilizadas para provar os argumentos das campanhas, compondo 10% desses compartilhamentos militantes. Um caso a parte foi a revista Veja que, entre os veículos da chamada grande imprensa, foi o que mais esteve diretamente engajado na campanha pró-impeachment, tendo um padrão de compartilhamento semelhante ao da imprensa alternativa de direita.

Se esse padrão que detectamos entre as 100 matérias mais compartilhadas dos quatro dias que precederam o impeachment se estender as demais matérias, podemos dizer, sem grande risco de errar, que praticamente todos os usuários regulares da rede social no Brasil foram afetados pelas campanhas. E para os usuários mais frequentes, a timeline não foi apenas afetada, como se converteu num grande fluxo de propaganda

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