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COLUNA

Essa tal ditadura ‘gayzista’

Enquanto os EUA dão um passo enorme rumo à igualdade de direitos, nossos deputados querem falar de 'cura gay'. O que será que se passa na cabeça deles?

Casal celebra decisão da Suprema Corte dos EUA.
Casal celebra decisão da Suprema Corte dos EUA. REUTERS

A Suprema Corte dos Estados Unidos legalizou o casamento gay e, de repente, um raio LGBTizador se espalhou pelas redes sociais. Que coisa mais linda ver aquela timeline toda colorida! Enquanto isso, dias antes debaixo da linha do equador, o deputado Marco Feliciano (PSC) convocou um grupo de "ex-gays" para um debate na Câmara. Eu, que tenho um quê de Pollyanna e me esforço para acreditar na sinceridade das pessoas, não ouso julgar quem acredita e se intitula ser "ex-gay". Afinal, não deve ser fácil assumir-se homossexual no Brasil, um país onde “ninguém tem preconceito, maaas…”. Não consigo deixar de julgar, porém, os nobres deputados que organizaram esse encontro. Faço então um esforço para tentar entendê-los e, como John Cusack em Quero ser John Malkovich, imagino-me entrando no cérebro de um desses parlamentares para ver como eles veem o Brasil.

Não sei qual cabeça consegui hackear, mas as imagens não deixam dúvidas do complô em andamento: pessoas fardadas de cor-de-rosa impõem a troca do Hino Nacional para Poker Face, de Lady Gaga - embora um projeto de lei no Congresso peça a alteração Holiday, da Madonna, muito mais diva e atemporal. O verde-amarelo-azul-branco da bandeira brasileira ganha tonalidades furta-cor e, nas escolas, crianças assistem Peppa Pig sem parar. Indignados, milhares de pessoas do bem vão às ruas protestar, mas são duramente repreendidas por bombas de gás do O Boticário e jatos de purpurina. O Brasil está virando uma ditadura gayzista!

Não, senhores. Fiquem tranquilos. Não estamos caminhando para uma ditadura gay. Mas cuidado, meus amigos, porque não faltam partidários pró-ditadura da estupidez. Abram o olho!

OK. Você não é gay. Não está nem aí para as bandeiras LGBT. Nem gosta dos gays. Ou, para você, simplesmente tanto faz. Por que, então, deveria te incomodar um grupo de deputados usar uma sessão parlamentar para tentar tirar do armário (mesmo que não de maneira assumida) a tal da proposta da "cura gay" (sic)? Vamos lá: cada deputado custa, em média, 147 mil reais aos cofres públicos por mês - ou 1,9 milhão por ano, segundo levantamento do Congresso em Foco de janeiro. A Câmara tem milhares de projetos parados aguardando análise. Imagino que, pelo menos um desses poderiam sim te afetar.

Na minha opinião, apenas um grupo poderia se interessar pela "cura gay": nós, mulheres solteiras heterossexuais. O mercado está hostil, a concorrência é desleal, e a proporção de mulheres para cada homem, dizem, chega a 7 a 1 (alô, seleção!). Com tanto cara interessante jogando pro time adversário, não é de se estranhar se você aí, toda trabalhada nos clichês e estereótipos, um dia pensar: “Fulano é lindo, inteligente, se veste bem, curte Beyoncé, gosta de comédias românticas, me diz com sinceridade se estou gorda… Ai se ele fosse hétero!”. Amiga, te entendo. Não está fácil mesmo. #tamojunto. Mas gata, isso não existe. Se nem a Jennifer Aniston (ex do Brad Pitt, hein?) conseguiu, no fofo A Razão do Meu Afeto, converter o melhor amigo gay, a nossa chance é zero. E, verdade seja dita, não precisamos disso: ainda tem muito amor pra todo mundo por aí, como provou essa sexta-feira colorida.

A 'onda' colorida no Facebook gerou memes.
A 'onda' colorida no Facebook gerou memes.

Marina Novaes é jornalista no EL PAÍS Brasil. Não tem nenhum livro publicado, mas é gente fina.

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