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Operação Lava Jato, entre Curitiba e Brasília

A acusação formal de políticos com foro privilegiado iria transferir o caso para o Supremo Tribunal Federal

Prédio da Petrobras no Rio.
Prédio da Petrobras no Rio. AFP

Petrobras”, “empresários” e “ladrões” são termos ouvidos com frequência nos dias de hoje em Curitiba. A cidade, considerada uma das mais bem organizadas na América Latina, vive intensamente o fato de ter se transformado na capital jurídica do país por alguns meses. Seu estrelato, no entanto, poderia morrer com o sucesso: a possível acusação formal de deputados e senadores (e, portanto, com foro privilegiado) na Operação Lava Jato iria transferir o caso para o Supremo Tribunal Federal, com sede em Brasília, e deixaria a jurisdição do famoso juiz Sergio Moro (42 anos), do Tribunal Federal nº 13 de Curitiba, que desde março está à frente, sem vacilações, da investigação do escândalo de corrupção mais importante da história brasileira.

“A Polícia Federal não quer mais erros”, disse a este jornal uma fonte próxima ao caso, referindo-se à imputação anunciada no início desta semana de José Carlos Cosenzo, atual diretor de abastecimento da Petrobras, apontado pelos agentes como um dos eventuais beneficiários de subornos, um “erro material” que a Superintendência Regional do Paraná da própria Polícia Federal foi forçada a reconhecer horas depois através de uma carta oficial. As pressões para levar o caso para Brasília, sede do poder político e judiciário da República, aumentam: sufocados por uma investigação sem precedentes, os “gigantes” da construção nacional, responsáveis pela maioria das grandes obras públicas nas últimas décadas, preferem esta transferência por acreditarem que encontrarão mais compreensão na alta magistratura. Os advogados que visitam os presos protestam diariamente na imprensa por mandados de prisão “sem justificativa” e viram como seus recursos de “habeas corpus” são recusados pelo juiz Moro por causa das revelações feitas pelos delatores premiados, que permitem assegurar a existência de uma rede de subornos, lavagem de dinheiro e financiamento irregular de partidos que pode chegar até a dez bilhões de reais.

A investigação em Curitiba, portanto, agora se concentra nos empresários, no clube de 13 presidentes de grandes empresas de construção e engenharia que dividiram o bolo das obras da petroleira estatal por mais de uma década. Dos vinte e três detidos na sexta-feira passada, onze foram liberados (com proibição de sair do país). Restam, no total, quinze presos: além dos arrependidos Paulo Roberto Costa e Júlio Camargo (que cumprem prisão domiciliar), 12 diretores estão convivendo em cinco celas e o doleiro Alberto Youssef, o pivô do caso, está completamente isolado. Encarcerado desde então, já perdeu quase 20 quilos e nega veementemente as acusações de que extorquia como intermediário, em nome da Petrobras, as empresas de construção que pagavam os subornos (estratégia comum dos advogados de defesa dos diretores presos). Só há um fugitivo no caso: Adarico Negromonte Filho, de 70 anos, irmão do ex-ministro de Cidades, Mário Negromonte (do PP).

Durante a tarde de hoje, aconteceu a esperada declaração de outro empresário, Fernando Soares Baiano, que, de acordo com o testemunho de Youssef, exercia um papel semelhante, como operador da rede de subornos e lavagem de dinheiro, só que especificamente com o PMDB. Depois de três horas de interrogatório, seu advogado, Mario de Oliveira Filho, afirmou que seu cliente “colaborou com tudo que sabia” e negou qualquer relação de Soares com o partido político. A prisão temporária de Baiano termina no sábado à meia-noite, e ainda não se sabe se será prorrogada pelo juiz.

Embora a polícia insista que os presos lavem suas roupas no pátio, esta manhã ocorreu uma cena, no mínimo, paradoxal, quando quatro advogados impecavelmente vestido e de óculos escuros saíram a pé da delegacia com vários sacos de roupa de cama suja, possivelmente para lavar, e depois entraram em um carro de luxo sob o olhar atônito de jornalistas, policiais e cidadãos. Um pai com dois filhos pequenos que observava a cena da calçada em frente gritava: “Aposto que estão levando dinheiro escondido dentro desses sacos! Ladrões! Deveríamos entrar aí e descer a porrada nos seus chefes!”. Os dois policiais que guardam a entrada sorriram. É notável o apoio à Polícia Federal entre a população da capital do estado do Paraná.

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