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O Governo propõe maior integração entre polícias para repetir o sucesso da Copa

O ministro da Justiça diz que estruturas que integraram as polícias no Mundial serão mantidas

Cardozo, na apresentação do balanço da Copa, em 25 de julho.
Cardozo, na apresentação do balanço da Copa, em 25 de julho. Agência Brasil

O Brasil que o turista viu na Copa do Mundo deste ano não é exatamente o que os cidadãos locais veem no seu dia a dia. Tentando aproveitar a boa impressão no quesito segurança pública deixada no Mundial, o Governo Dilma Rousseff já estuda ampliar a integração entre as polícias para efetivar ações na segurança pública e reduzir os índices criminais brasileiros.

Uma pesquisa do instituto Datafolha mostrou que 60% dos estrangeiros que vieram ao Brasil para Copa afirmaram que a segurança no país foi melhor do que o esperado e 34% disseram que ela ficou dentro de suas expectativas. “Uma aprovação superior a 90% mostra que a nossa segurança funcionou”, afirmou o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, durante uma palestra no encontro anual do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em São Paulo.

Durante o evento, Cardozo aproveitou para anunciar a intenção do governo de manter essa integração entre as polícias Federal, Rodoviária Federal, Militar, Civil e Força Nacional para os próximos anos. Para isso, manterá ativos os centros integrados de segurança instalados nas 12 cidades-sede do torneio, onde as forças policiais colaboraram entre si na investigação dos crimes e na elaboração de estratégias de segurança preventiva. Atualmente, essas entidades conversam pouco: a PM, por exemplo, é responsável pelo policiamento ostensivo, e a Civil, apenas pela investigação dos crimes. A ideia é usar as capitais de Estados que fazem fronteira terrestre com outros países (Cuiabá, Manaus, Curitiba e Porto Alegre), como parâmetros para avaliar se a integração está ou não funcionando adequadamente.

“A Copa rompeu paradigmas do isolacionismo na segurança pública e precisamos aproveitar esse momento para usar essa segurança também no policiamento ordinário”, afirmou Cardozo.

A Copa rompeu paradigmas do isolacionismo na segurança pública e precisamos aproveitar esse momento

A proposta já foi apresentada aos secretários de Segurança Pública dos 12 Estados em um encontro ocorrido neste mês em Salvador e, conforme o ministro, todos concordaram com a manutenção do esquema de segurança para “construir raízes definitivas na política de segurança”.

Essa tal integração é uma pauta recorrente nos debates sobre segurança no Brasil. É comum, porém, ouvir reclamações de todos os lados – policiais, militantes, estudiosos. Cada um defende um modelo. Uma pesquisa divulgada nesta quarta-feira mostrou que aos poucos as partes começam a chegar a um consenso, já que a maioria dos policiais já defende a desmilitarização da polícia.

Sistema carcerário

Durante pouco mais de uma hora de palestra, Cardozo, que é bacharel em direito e professor universitário, traçou um panorama da segurança pública e voltou a tecer críticas ao sistema carcerário, que ele já havia chamado de medieval.

Nosso sistema prisional fornece mão de obra ao crime organizado

“Temos uma cultura de aprisionamento que permite a formação de organizações criminosas. Que junta presos de alta periculosidade com pessoas que nem deviam estar presas. Ou seja, nosso sistema prisional fornece mão de obra ao crime organizado”, disse Cardozo.

Antes mesmo de ser questionado se esse não deveria ser o discurso de um militante ao invés do de uma autoridade pública, o ministro disse: “Escamotear realidades que precisam ser mudadas é o primeiro passo para que a mudança não aconteça. Não posso mudar o que eu penso agora que sou ministro”.

Hoje, há 548.000 presos espremidos em 383.000 vagas em todo o Brasil. Para tentar mudar esse cenário, na visão de Cardozo, é necessário alterar a cultura do aprisionamento, oferecendo mais penas alternativas e inaugurar novos presídios. Cerca de 20.000 novas vagas estão em construção pelo país.