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Sem fluência em idiomas, a PF depende de voluntários para atender refugiados

Os 53 funcionários terceirizados da sede de São Paulo são incapazes de se comunicar com os estrangeiros

Tradutoras de Cáritas são as responsáveis por mediar as 50 solicitações diárias

Imigrantes aguardam na porta da Superintendência da PF de São Paulo.

"Spanglish?". Um nigeriano desconcertado e há apenas um mês no Brasil se aproxima do balcão de atendimento do terceiro andar da Superintendência da Polícia Federal de São Paulo procurando ajuda. A resposta é "Não. Vai lá esperar". A tradutora voluntária de Cáritas, entidade ligada à Igreja Católica, que devia chegar nessa manhã, não tinha aparecido ainda. E não há ninguém que consiga mediar um diálogo entre os funcionários e os estrangeiros que vão solicitar a condição de refugiados. A espera por uma resposta se prolonga por mais de quatro horas.

Com o agravamento dos conflitos no Oriente Médio e alguns países da África, os pedidos de asilo no Brasil chegaram a 5.256 no ano passado, ante os 566 de 2010, segundo o Comitê Nacional de Refugiados (Conare), do Ministério da Justiça. Mas, apesar de a procura ter se multiplicado exponencialmente nos últimos anos – e de São Paulo ainda ser a cidade que concentra o maior número de pedidos – , os recursos da Polícia Federal para prestar esse atendimento continuam sendo precários. “Há anos que a PF procura a Cáritas rotineiramente para suprir a falta de intérpretes”, explica Larissa Leite, advogada e responsável pelo setor de Relações Externas da Cáritas Arquidiocesana de São Paulo.

A estrutura da Superintendência de São Paulo, na zona oeste da cidade, inclui apenas nove servidores públicos e preenche 53 vagas com uma empresa de emprego temporário para atender 10.000 estrangeiros por mês, entre eles, os refugiados. Nenhum dos subcontratados fala uma outra língua além do português, segundo a assessoria de imprensa da PF. Isto não significa que o próprio pessoal da PF tenha algum conhecimento de outros idiomas, como constatou a reportagem.

O incremento de solicitantes e a falta de recursos para atendê-los congestionou a fila tanto que a espera começou a atingir prazos de até sete meses apenas para obter a documentação básica –identificação e carteira de trabalho - à qual eles têm direito. “Nós conseguimos mais ou menos abordar o problema dos intérpretes, mas o que é incontornável é que, ainda assim, haja uma espera de sete meses para um pedido de asilo, quando se trata de casos tão delicados. A lei prevê que a acolhida seja imediata. Uma espera razoável para conseguir a documentação mínima pode ser de 15 dias, mas não de sete meses”, explica Leite na sede da instituição, uma parada, há três décadas, quase obrigatória dos refugiados ao chegarem no Brasil.

A situação de caos levou à PF e a Cáritas a organizarem um mutirão de um mês –o primeiro já foi feito no ano passado - para descongestionar os pedidos de asilo. Para o mutirão foram trazidos funcionários de Brasília –que ali não atendem ao público e também não são bilíngues- e até quatro intérpretes de Cáritas que se dividem por turnos. Com este reforço podem ser atendidos até 50 solicitações por dia, segundo os funcionários do local. Sem essa equipe extra a capacidade é de quatro atendimentos ao dia.

Mesmo com o mutirão, fica difícil caminhar pelo terceiro andar do prédio da PF pela quantidade de pessoas que se amontoam nos corredores e nas cadeiras. A reportagem esteve lá em um dia em que os funcionários consideraram “tranquilo”. Após o horário do almoço, quando o número de atendentes se reduz de 29 para três, apareceu a voluntária de cerca de 30 anos, loira, sorridente e amável, que todos aguardavam.

Ela começa o trabalho se sentando no meio de um libanês e um nigeriano que aguardavam em silêncio diante dos funcionários que deviam entrevistá-los para formalizar a petição de asilo. “Vou ficar aqui porque vou ‘traduzir’ vocês ao mesmo tempo”, lhes explica em inglês tentando agilizar a tarefa. Não foi possível, pois a comunicação entre o funcionário e o imigrante não se reduz a preencher um simples questionário. A história que o nigeriano tinha para justificar sua fuga do país era tão brutal que era difícil não ficar cravado assistindo como ele interpretava alguém portando uma balestra (arma de arco e flecha) para explicar como sua mulher e sua filha, com quem vivia em Lagos, foram assassinadas. A entrevista se prolongou por quase uma hora, enquanto a tradutora e o nigeriano choravam juntos.

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