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O 5G já está quase aqui: tudo o que você poderá fazer com a nova tecnologia

Especialistas analisam tecnologias que vão surgir e que terão impacto comparável à revolução industrial

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Mãe e filho testam um jogo de realidade virtual criado pela Vive.

O mundo, assim como o conhecemos atualmente, vai desaparecer. E não demorará muito para isso. Esses são dois dos pontos em que concordam os especialistas e os empresários que participam da versão asiática do Mobile World Congress, que acontece sábado, 1 de julho, em Xangai. A chave é o lançamento das novas redes de telefonia 5G, que permitirão milhares de milhões de conexões a Internet a uma velocidade nunca vista antes. “Estamos na aurora de uma nova era em que uma multidão de novos acrônimos vão mudar nossas vidas tanto como o fizeram a eletricidade e a Internet”, afirmou Steve Brumer, sócio-diretor da consultoria 151 Advisors. “A inteligência artificial (IA), a Internet das coisas (IdC) e o big data, a realidade virtual (RV) e a realidade aumentada (RA) são equiparáveis à revolução industrial.”

Pode parecer exagero, mas ninguém contesta. De fato, Edward Tian, presidente da Asiainfo, adverte que muita gente ainda não está preparada para o que se avizinha. “É necessária uma rápida mudança de mentalidade para ter sucesso nessa nova fase, que vai mudar a forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos”, apontou. “Para as empresas, além disso, entender o funcionamento do big data —os dados recolhidos dos usuários de aparelhos e serviços conectados à Internet— e analisá-los corretamente será vital para desenhar e oferecer produtos úteis e relevantes.”

Segundo Steve Mellenkopf, CEO da Qualcomm, o maior fabricante mundial de processadores, atualmente há 7,6 bilhões de conexões à internet. Mas o desenvolvimento das redes 5G fará com que pareçam ínfimos. “Em dois anos estarão prontas e terão um grande impacto econômico que estimamos em cerca de 12 trilhões de dólares —sim, tri. O 5G também vai propiciar a criação de 12 milhões de empregos daqui a 2035 apenas no leste da Ásia”, vaticinou. “E serão criadas indústrias que atualmente não somos capazes nem de imaginar.”

“Estamos na aurora de uma nova era em que uma multidão de novos acrônimos vão mudar nossas vidas tanto quanto fizeram a eletricidade e a Internet”, afirma Brumer

Vinte operadores de telefonia móvel já estão lançando no mundo a tecnologia Gigabyte LTE, que é o embrião do 5G, e fabricantes como Qualcomm já avançaram muito nos processadores que serão incluídos em todo tipo de aparelhos: desde telefones móveis até veículos. “A indústria automobilística será uma das que mais vai mudar no futuro próximo. De fato, hoje mesmo apresentamos juntos o primeiro chip que a Qualcommm fabricou em colaboração com a chinesa Geely —que há alguns anos adquiriu a Volvo— para o futuro veículo hiperconectado, que estará em comunicação tanto com outros automóveis como com a infraestrutura viária”, anunciou Mellenkopf.

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Um funcionário da China Mobile faz uma demonstração do 'big data' da empresa.

A Huawei, por sua vez, também prevê que os celulares continuem ganhando peso no estilo de vida que está vindo por aí. “Vão mudar inclusive os bancos, o que já estão fazendo, e seu impacto será especialmente evidente nos países em vias de desenvolvimento”, anunciou Guo Ping, presidente executivo atual —é um posto rotativo— da tecnologia chinesa. E sustentou suas afirmações com as propostas da Huawei no Quênia, onde o dinheiro eletrônico administrado pelo smartphone pode representar uma revolução para milhões de pessoas que sequer possuem —nem necessitam— uma conta bancária.

“A inteligência artificial será outro dos grandes motores da mudança nos próximos quatro anos”, acrescenta Aleix Valls, diretor da Fundação Mobile World Capital e responsável pela plataforma 4YFN, que tenta mostrar no MWC como será o futuro em 2021 por meio das startups que o estão projetando. “Será difícil entender os produtos e os consumidores sem dispor dessa inteligência artificial que ajude a posicionar o conhecimento do consumidor no centro”, comenta em entrevista ao EL PAÍS.

No entanto, Andrew Penn, presidente executivo da Telstra, operadora de telecomunicações líder da Austrália, retomou a ideia lançada por Tian para advertir que a tecnologia não deve ser excludente. “É preciso criá-la de forma que seja acessível e fácil de utilizar. Passamos tempo demais falando sobre tecnologia e desenvolvendo-a, mas muito pouco tempo pensando em como adaptá-la a todos os usuários para que a experiência de uso seja gratificante”, sentenciou.

É preciso criar a tecnologia de forma que seja acessível e fácil de utilizar

Os gigantescos pavilhões ocupados pelo Mobile World Congress demonstram que os mais jovens não têm muitos problemas para se adaptar aos novos avanços. As crianças se divertem com os últimos jogos em realidade virtual e se movem como peixes na água com todo tipo de gadgets eletrônicos que seus pais têm dificuldade de entender. No entanto, apesar de os nativos digitais contarem com uma clara vantagem sobre os demais, os especialistas alertam para a necessidade de aumentar a formação em ‘software’ e programação desde cedo.

Eduardo Alarcón, fundador da TokyLabs, é um dos que deu um passo à frente nesse sentido. Colocou em andamento vários projetos em Yo-Mo, a área infantil da MWC, para ensinar a programar e a criar protótipos aos pequenos. E, a julgar pela idade de quem abarrota as mesas, também aos não tão pequenos. Em poucos minutos, e seguindo as instruções dos monitores, os jovens montam chips e sensores para criar um relógio inteligente que logo exibem orgulhosos ou um robô que se guia pela luz e com o qual jogam uma curiosa partida de futebol. “Conhecer o idioma da programação é tão importante quanto conhecer uma língua. É, além disso, uma habilidade deste século que é fundamental para ter sucesso no mundo. No entanto, demora-se muitos anos para ensinar programação nas escolas. Temos de nos agilizar porque não é uma revolução que vem, já está aqui”, adverte.

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Menino se diverte com o robô guiado por luz que montou no TokyLabs.

Valls tem a mesma opinião. “O algoritmo, saber como se estrutura a tecnologia e como funciona, serão no futuro tão fundamentais para o desenvolvimento profissional como é o inglês agora”. Mas, isso quer dizer que a inteligência artificial acabará destruindo o trabalho humano? “Ainda está longe de poder substituir a maioria da mão de obra. Mas é um complemento que nos ajuda a ser mais eficientes e produtivos, e isso sim pode deixar certos trabalhos obsoletos. Mas também gerará outros. Vamos ver primeiro uma camada de destruição de emprego à qual seguirá outra de criação de novos perfis.”

Claro que há quem tema que esses novos postos de trabalho sejam excessivamente qualificados para que se tornem acessíveis a qualquer um. “Não serão todos empregos muito qualificados”, tranquiliza Valls. “Tem o engenheiro com três pós-graduações que realmente desenvolve os novos algoritmos e novas inteligências artificiais, mas também o operador dessa inteligência, que é o piloto dessa nova solução que continua precisando de um humano no comando. Caso o apocalipse tecnológico baseado em que todo trabalho seja feito por máquinas se materialize em algum momento, levará muito tempo.”

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