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Agora cabe a Rajoy

O PP deve tentar tomar posse sem descarregar sua responsabilidade nos outros

Um gesto de Mariano Rajoy durante sua conferência de imprensa do 21 de dezembro.
Um gesto de Mariano Rajoy durante sua conferência de imprensa do 21 de dezembro.SUSANA VERA (REUTERS)

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Sem dúvida é difícil formar Governo depois de uma eleição geral que deixou a principal minoria a uma distância de 53 cadeiras da maioria absoluta. Os obstáculos não são apenas aritméticos, nem sequer políticos, mas de método de trabalho: o Partido Popular tinha se acostumado a tratar o Congresso quase como uma extensão do Executivo, protegido pelo enorme número de deputados (186) à sua disposição na legislatura anterior. E agora é imperativo se adaptar a uma situação em que o Governo vai depender de uma pluralidade de operadores, começando com a posse do primeiro-ministro, que exige um voto positivo de 176 deputados em primeira convocação, e pelo menos mais sim que não na segunda.

Desde a noite da eleição, Mariano Rajoy anunciou que ia tentar formar um Governo. Hoje sabemos que o chefe de governo interino planeja uma oferta dirigida ao PSOE na qual inclui a criação de uma comissão no Congresso encarregada de estudar a reforma constitucional — objeto de pedidos ignorados pelo PP na legislatura anterior. Por outro lado, levanta a reforma do artigo 135 da Constituição (com que José Luis Rodríguez Zapatero e ele mesmo concordaram em 2011), de forma que o gasto social não esteja tão condicionado a um orçamento equilibrado, juntamente com possíveis aumentos de impostos para as classes mais ricas.

Estas declarações estão longe de constituir um projeto político. Não é possível abordar a nova legislatura sem que o novo Governo tenha claro o que vai fazer com o conflito independentista catalão. Também sem definir as linhas da reforma constitucional. Um projeto é mais do que algumas referências a medidas possíveis: é isso o que falta.

Para evitar o risco de instabilidade e falta de governabilidade não é preciso esperar que outros resolvam os problemas do PP. Rajoy só conta de antemão com a abstenção oferecida por Albert Rivera, líder de Ciudadanos, para a votação da posse, insuficiente, por si só, para reeleger o chefe de governo.

A outra abstenção necessária seria a do PSOE, uma tarefa realmente difícil de conseguir depois dos confrontos durante a campanha e a atitude de oposição antecipada por alguns dos seus dirigentes. Por outro lado, permitir a posse de um chefe de Governo em minoria não o protege de outros avatares parlamentares.

É muito fácil chegar a algo que se parece a uma oferta ao PSOE e, em caso de resposta negativa, jogar a culpa nos socialistas de não cooperar na tarefa de governar a Espanha. Se Rajoy e seus colegas estão pensando em algo assim, é melhor nem tentar. Não é papel dos outros dar ao chefe de governo interino a combinação necessária, mas cabe a ele trabalhar duro para consegui-la.

Estamos nos estágios iniciais das negociações sobre soluções de governo. E essa é exatamente a responsabilidade de Rajoy. O chefe de governo em exercício precisa dizer como e com quem quer governar.