Catalães, ao voto

A voz das urnas tem que ser ouvida com força para abrir um novo tempo

Cédulas em um colégio eleitoral de Terrassa (Barcelona) nas eleições catalãs de 25 de novembro.
Cédulas em um colégio eleitoral de Terrassa (Barcelona) nas eleições catalãs de 25 de novembro.Joan Sánchez

Este jornal não é partidário da independência da Catalunha, como já deixou claro em diferentes ocasiões. Convém reiterar isso no dia em que, depois da espuma de torpezas e exageros que salpicaram a campanha para as eleições ao Parlamento catalão, todos estamos à espera de um voto mais transcendente que o das autonômicas anteriores. Os resultados da noite deste domingo o serão para os habitantes da comunidade convocada, que são os principais interessados na disputa, mas também para o restante dos espanhóis, de modo nenhum alheios ao que está em questão nesta data.

Por mais extremas e polarizadas que tenham sido as posições anteriores, ninguém deve pensar que ir votar transfira à candidatura vencedora a legitimidade suficiente para dar passos irreversíveis. Nem em direção à separação da Catalunha do resto da Espanha, como advogam alguns, e não também para considerar descartada a necessidade de negociação, o que poderia ser tentador para outros. Sem precisar voltar a séculos passados, basta avaliar o que fizemos juntos durante o recente período democrático para perceber que ninguém tem a responsabilidade total pela tarefa do futuro, e sim que depende um pouco de todos.

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Embora valha a pena preservar a união, também pensamos que é absurdo o imobilismo político e que é preciso mudar. A Espanha representa a crença de que povos com identidades diferentes podem viver juntos e que sua diversidade faz que sua cultura, sua economia e seu porvir estejam mais garantidos que atuando cada um por seu lado. Não é possível renunciar sem mais nem menos aos laços articuladores, tanto culturais quanto emocionais, criados por uma longa convivência. Também não se deve menosprezar o fator de incerteza que seria trazido pela eventual separação das economias espanhola e catalã, por seus efeitos no desemprego, nas aposentadorias, na dívida, no investimento estrangeiro, na desigualdade social e outros temas que afetam muito diretamente a vida dos cidadãos.

Por isso a eleição deste domingo não deve ser considerada a estação final, e sim uma plataforma a partir da qual seja possível enxergar fórmulas e propostas que superem os duros desencontros do último decênio e restabeleçam a confiança. Não é desejável separar o caminho do futuro nem há nada que impeça resolver as diferenças demonstradas durante os anos recentes pela aplicação de métodos estritamente emanados da legalidade democrática, com um novo status que reconheça a identidade nacional dos cidadãos da Catalunha e a consolidação de suas competências de autogoverno. Assim reivindicam amplos grupos de pessoas contrárias à manutenção do status quo, segundo as previsões das pesquisas.

Também no restante da Espanha não se deve tratar com ligeireza a ideia da indiferença em relação à disputa proposta. Um projeto espanhol é muito mais incerto sem a Catalunha, e por isso é preciso superar os desencontros políticos e restabelecer os princípios de uma democracia saudável, esclarecida e pluralista.

As possibilidades de escolha são reais na Catalunha, e o leque de opções se ampliou até cobrir todo o espectro possível. Quem se deixar tentar pela abstenção ou por pensar que no fim nada sério vai acontecer corre o risco de que seu futuro seja decidido ou moldado por outro, como já sustentou este jornal em dias anteriores. A decisão cabe aos cidadãos da Catalunha chamados para votar, e é desejável que haja sua determinação de encher as urnas, conscientes de que se abre um novo tempo.

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