Crise na GréciaEditoriais
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Um acordo necessário

A Grécia precisa cumprir sua parte; a zona do euro não pode se arriscar por pouco

Alexis Tsipras em São Petesburgo.
Alexis Tsipras em São Petesburgo.ANATOLY MALTSEV / EFE

O Banco Central Europeu precisou intervir novamente nesta sexta-feira para ampliar a ajuda emergencial aos bancos gregos e evitar que um corralito – a restrição temporária de liquidez – seja decretado após este fim de semana, o que causaria um desordenado efeito dominó na Grécia. Com isso, a instituição de Frankfurt se reafirma como o melhor paladino da estabilidade da zona do euro. Mas ninguém deveria abusar desse recurso extremo: por enquanto, são maioria os conselheiros partidários de não desligar os aparelhos para Atenas, pois isso significaria se sobrepor a instâncias políticas. Mas tal posição não chega a ser unânime.

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De modo que o drama pode se manter pelo menos até segunda-feira, quando os chefes de Governo da zona do euro realizarão uma reunião extraordinária. Essa cúpula simboliza o único triunfo até agora da áspera estratégia negociadora do Governo de Alexis Tsipras: elevar o nível político das decisões, que passa dos ministros de Finanças para os primeiros ministros. Mas é uma conquista rodeada por fracassos. O pior deles é de conteúdo: o prolongamento da negociação, a falta de concretização das medidas, a paralisia temporária e a contínua provocação constituem um conjunto de técnicas eficazes para deixar o tempo transcorrer – sob o preço, no entanto, de provocar enormes reveses para a economia grega, que interrompeu a linha de ligeira recuperação que registrava desde 2014.

Atenas fracassou também em sua cruzada por romper as políticas da União Europeia (que já haviam começado a ser revertidas); em sua tentativa de se apoiar nos Governos progressistas para isolar os conservadores; em sua tentativa de fazer prevalecer a democracia grega sobre as dos demais sócios; em seus irresponsáveis acenos a Moscou; em sua tática de dividir os integrantes da antiga troika; e na de separar o ministro alemão de Finanças da sua própria chanceler. Os recentes insultos a sócios e credores não fazem senão certificar o estrepitoso fiasco dessa estratégia. Se ao final do processo fosse preciso contabilizar baixas, os cidadãos gregos deveriam olhar em primeiro lugar para sua nova liderança.

Claro que não só para ela, pois as rupturas sempre exigem duas partes, mesmo que em diferentes graus. O catastrofismo de alguns europeus é escandaloso e irresponsável. O presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, tem autoridade sobre toda a zona do euro, inclusive a Grécia, e deve velar por sua estabilidade. Declarações suas, como a de que “se os gregos estão retirando seus depósitos é porque não confiam no futuro do país”, são incendiárias. Aconselham uma rápida aposentadoria antecipada para o chefe dessa instituição que reúne ministros de Finanças e outras autoridades da zona do euro.

A negociação parou há alguns dias, sem que a Grécia oferecesse medidas alternativas e com resultados semelhantes às que estavam sendo propostas. Entende-se que, apesar das concessões mútuas, nenhum queira dar o braço a torcer quanto aos princípios. Mas o que ninguém compreenderia é que, por uma diferença quantitativa mínima nessa negociação (estimada em dois a quatro bilhões de euros, ou sete a quatorze bilhões de reais), a zona do euro pudesse entrar em perigo. O contágio nunca é totalmente descartável. E um resultado dessa queda de braço (a eventual saída da Grécia) que colocasse em xeque a irreversibilidade do euro poderia gerar turbulências especulativas contra os sócios considerados menos fortes. Quase ninguém ficaria a salvo das suspeitas.

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