El acento
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Espelho do tempo

As máquinas aprendem a calcular a idade de uma pessoa pelo rosto. Mau negócio

SOLEDAD CALÉS

Enganar as máquinas é importante. Talvez não para o dia-a-dia, mas sim para nosso orgulho como espécie. Existe, de fato, um teste para determinar se as máquinas pensam, criado pelo agora célebre matemático britânico Alan Turing, que se baseia precisamente na capacidade de engano, embora neste caso das máquinas sobre os humanos. Um computador será inteligente, diz o teste de Turing, quando conseguir se passar por um ser humano em uma troca de mensagens de correio eletrônico. A mentira as libertará, diz Turing às máquinas. Inversamente, podemos acrescentar: nós, humanos, permaneceremos livres enquanto pudermos enganar as máquinas. Depois já não poderemos passar no “teste de anti-Turing”, e teremos demonstrado que somos menos inteligentes que elas. Por isso é irritante um novo algoritmo desenvolvido por cientistas de Xangai, que nos roubou para sempre a possibilidade de mentir sobre uma questão essencial: nossa idade. Sem acesso à nossa cédula de identidade nem aos registros paroquiais de nascimento, e sem que se sintam na obrigação de ter um comportamento minimamente diplomático, as máquinas, a partir de agora, serão capazes de calcular nossa idade com pouca margem de erro, simplesmente dando uma olhada em nosso rosto.

Pouco importam a academia e a dieta de acelga, o ar puro e a sauna, o lifting e o silicone. A idade está escrita no hardware do nosso rosto, em seus parâmetros estruturais mais difíceis de disfarçar, e as câmeras de segurança que abarrotam nossas ruas já sabem, ou logo saberão. Não há ninguém que possa driblar esse algoritmo.

A coisa é pior ainda. Isso porque a margem de erro no cálculo da idade, que é de uns seis anos a mais ou a menos, não é realmente um erro. Quando a máquina dá ao indivíduo seis anos a mais, é porque ele os tem, não em seu documento de identidade, mas sim em seu fígado e seu pâncreas, em seu colesterol e seu ácido úrico, em sua saúde precária e sua memória fraca.

A “idade facial” calculada pela máquina mente menos que um exame de sangue: talvez não diga exatamente quantos anos você já viveu, mas diz quantos lhe restam. Espelho da alma? Não: espelho do tempo.

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