Incêndio na Cantareira aumenta a preocupação com a crise hídrica

O calor e a baixa umidade podem ampliar os focos, que já atingiram uma área de 50.000 metros quadrados

Incêndio na floresta da Cantareira, zona norte de São Paulo.
Incêndio na floresta da Cantareira, zona norte de São Paulo.GloboNews

O incêndio que desde a tarde de segunda-feira atinge a região de mata da Serra da Cantareira, na zona norte de São Paulo, tende a continuar. Ainda que o fogo esteja isolado em alguns focos, a baixa umidade do ar – cerca de 20% nesta terça-feira, segundo o Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE) e 13% na segunda, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia – e as altas temperaturas – com máximas de 40 graus, de acordo com o Climatempo – favorecem a continuidade e expansão das chamas, que até o momento atingiram uma área florestal equivalente a 50.000 m², cerca de 32 campos de futebol, segundo informou a GloboNews. A seca, que já fez 31 das 645 cidades paulistas adotarem o racionamento de água, se reafirma com este cenário.

A ampliação do incêndio, entretanto, só não será maior pela falta de ventos fortes – e não há previsão de que ocorram nos próximos dias. A grande preocupação é a proximidade do incêndio com a área de abastecimento do Sistema Cantareira, que atende quase metade da região metropolitana de São Paulo, cerca de 10 municípios, e 8,1 milhões de habitantes, segundo a Sabesp. A região atingida inclui parte da zona norte da capital paulista e as cidades de Mairiporã e Guarulhos.

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O Corpo de Bombeiros se deslocou até a área, de difícil acesso, na manhã desta terça-feira, retomando os trabalhos paralisados ontem à noite pela falta de visibilidade. Segundo o jornal Folha de São Paulo, o combate ao fogo contou com o auxílio da Polícia Militar, que liberou um helicóptero com capacidade de lançar 545 litros de água a cada viagem. Os reservatórios da região, porém, se encontram em seu nível mais baixo: 4,5%. Se depender da previsão, continuarão assim pelo menos até o final do mês: as chuvas generalizadas devem chegar entre dia 20 e 23, trazidas por uma frente fria. No entanto, não serão suficientes para aumentar as reservas de água, mas apenas para melhorar um pouco a qualidade do ar e umidificar o solo.

A Coordenadoria Municipal de Defesa Civil colocou a capital paulista em alerta pela baixa umidade do ar e nem mesmo as chuvas previstas para a tarde desta terça feira poderão aliviar as queimadas e a estiagem. De acordo com o meteorologista do CGE, Adilson Nazário, as pancadas previstas devem ocorrer apenas em algumas zonas da cidade e "não serão significativas para reduzir os focos de incêndio da floresta na zona norte nem para abastecer parte do Sistema Cantareira". O especialista explicou que a situação atual da cidade de São Paulo e de boa parte do estado é reflexo da falta de entrada de umidade por brisa marítima, que é a responsável por formar nuvens carregadas e facilitar as precipitações. "As frentes frias não entram, elas são desviadas para o mar antes de chegar em São Paulo, e isso somado ao ar seco, ao calor e à falta de ventos, cria um bloqueio atmosférico que impede que as chuvas ocorram". A reposição hídrica é, portanto, a última consequência desse processo.

Nível crítico

O Sistema Cantareira atingiu a marca recorde de 4,5% da capacidade nesta terça-feira, 14, segundo medição da Companhia de Saneamento Básico do Estado (Sabesp). Desde o dia 26 de setembro não chove nos reservatórios, e a previsão é de que o clima seco continue nos próximos dias, de forma que esse número tende a baixar ainda mais.

E mesmo que chova na área das represas, Nazário afirma que o cenário não vai mudar, "porque o solo está muito seco, rachado e falta umidade". Ele explica que mesmo que as chuvas sejam fortes e tenham um volume expressivo, é necessário primeiro irrigar o solo, que absorve a água "como uma esponja seca". Somente depois de saturar a terra do fundo é que os reservatórios voltarão a acumular água.

Outro depósito que encontra-se em estado crítico é o do Alto do Tietê, responsável pelo abastecimento de 4,5 milhões de pessoas em parte da Grande São Paulo e da zona leste da capital. Nesta terça-feira, a medição apontou que ele está com apenas 10,1% de sua capacidade.

Os baixos índices se refletem na falta de água em vários pontos da cidade, que já enfrenta problemas há vários meses. Há seis dias, a presidente da Sabesp, Dilma Pena, negou que houvesse racionamento em depoimento para a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), que investiga o cumprimento do contrato da empresa de saneamento e da Prefeitura de São Paulo. Ela apenas admitiu que "Existe, sim, falta de água pontual em áreas muito altas, muito longe dos reservatórios setoriais que distribuem água e em residências onde moram muitas pessoas que têm reserva muito pequena. Nessas situações sim, tem falta de água".

Cada dia aumenta o número de paulistanos que reclamam da falta de água em suas residências, que antes atingia principalmente a periferia e hoje afeta também os bairros nobres.