Análise
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Sexo e poder nunca estiveram tão juntos nesta eleição

Do uso recreativo do aparelho excretor, até as presidenciáveis que trafegam no labirinto machista da política, nunca antes na história deste país o sexo esteve tão em evidência numa campanha

Felipe Dana (AP)

Tudo tem a ver com sexo, menos sexo. Sexo tem a ver com poder. A cirúrgica frase, citada na série House of Cards, serve de lâmina para a corrida eleitoral no Brasil este ano. A dois dias do pleito mais tumultuado desde a redemocratização, sexo e poder nunca estiveram tão adequados à posição de coito político.

A memória deve me garantir afirmar que nunca na história deste país, como diz aquele outro, tivemos tantas questões ligadas à sexualidade cuspidas e subestimadas pelos principais candidatos à Presidência desta República. Desde quando começa a vida, ou o direito à mulher decidir fazer com o que traz no corpo, até o uso recreativo do aparelho excretor, que há quem defenda que ele só serve para eliminar fezes.

O Brasil é uma nação que historicamente é uma adolescente deslumbrada com elogios dos que vêm do além-mar e falam línguas estrangeiras aos ouvidos, sedentos por seus recursos físicos, desde florestas vorazmente estupradas por madeireiros às mulheres que economizam nas cobertas quando precisam mostrar o valor de seus ataques e retrancas. Ninguém joga às escuras: sexo e poder.

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O dia 5 de outubro de 2014 também marcará a presença de três famintas por ajustar ao corpo a faixa de líder de 202 milhões, talvez a par que correm o risco de perder o equilíbrio entre poder e afeto, duas forças que se confrontam porque duelistas e rivais. Mais que isso, e Dilma Rousseff (PT) sabe muito bem porque já degustou tamanha autoridade, o trono encaixado em ambiente masculino.

O trono outorgado por nós, brasileiros, por obrigação e não por vontade própria, é assento em que a regência exige raciocínio lógico, acatos, renúncias, inclusive de certas ferramentas do feminino. Isso se pensarmos no lado sombrio do poder, mas a mulher que chega a este labirinto perversamente machista pode, sim, manter alguns signos que a forjaram como tal.

Dilma criou uma personagem para lidar com a rudeza de seu ofício: conjunto de blazer com mangas três quartos, todos com cortes idênticos, calça sempre em acordo com o tom da escolha para cobrir o tronco, e sapatos sempre baixos, sem cadarços, e jóias semi-invisíveis. Nada que a transforme em Cristina Kirchner, ao menos no que podemos enxergar.

Dilma usa um uniforme que nubla sua sexualidade. Além disso, tornou-a uma mulher assexuada que, de antemão, avisa em mesas de reunião no Palácio do Planalto ou em plenário da ONU que o gênero nunca estará em questão no seu armamento discursivo. Seria menosprezar seus genes e sua inteligência.

Marina Silva (PSB), ainda sua principal concorrente, opta por outra armadura para o confronto. Sacraliza-se como uma mulher do não, que nega a comunicação do seu corpo. Ao contrário, busca a não-cor, a não-maquiagem, a não-ênfase, a não-agressividade, nada que a feminilizaria ou, intrinsecamente, a fragilizaria. Fragilizar-se é compatível com o cargo que essas senhoras almejam?

Marina, assim, é um ser sem sexo que busca lutar de igual com os que são algo. O que a trai é sua voz que se parte pelas sílabas que ela nem pensa em hifenizar, denuncia insegurança ou subterfúgios para envelopar o ego. Uma fonoaudióloga ou uma antropóloga quebraria esses paradigmas? A ver.

Luciana Genro (PSOL), ao contrário, usa o cabelo com fios se rebelando entre si como arma do feminino, arma-se de português impecável com todos os erres e esses adequados aos pronomes pessoais e oblíquos que deseja atingir, e defende claramente avanços objetivos em relação a aborto e sexualidade. Essa, sim, pequena nas pesquisas, mas com grande empatia entre libertários, não se preocupa sequer em alisar fios ou bons modos.

Três mulheres e seus disfarces nítidos para acinzentar a concorrência com ternos azuis marinhos e gravatas despersonalizadas dos homens, confortáveis no topo da cadeia alimentar. No caso de Aécio Neves (PSDB) sublinhou a juventude e um sorriso matematicamente treinado para aquecer hormônios femininos. Eduardo Jorge (PV), o outro que merece ser citado nessa conversa, vem costurando o perfil de homem sensível, engraçado, irreverente que ele, espertamente, sabe que é a masculinidade em alta para as próximas temporadas. O homem que aceita seu feminino.

Falou-se de quase tudo na campanha deste ano, e pouco pareceu crível, da fala a programas de governo escritos "a lápis". Parece que tudo é nada, um Brasil gasoso para os próximos anos. O que realmente promoveu ebulições nas redes sociais, sejam elas entre computadores ou entre lençóis, foram questões diretamente ligadas a questões privadas, precisamente ao corpo. Músculos e vísceras, além do astro do momento, o aparelho excretor, tendo que ouvir de invasores o que podem ou não fazer. Querem mandar no que não tem ouvidos.

Até quando a mulher vai pedir licença para ter filho, modificar seu corpo, mutilar-se ou por que ainda se discute o que as pessoas querem fazer com as entradas e saídas do organismo? Essa coisa que anda com a gente tem autonomia para se divertir como, quando, com quem e quantas vezes quiser.

Não tem pai, mãe, irmão, vizinho, marido, mulher, chefe, professor, síndico, prefeito, policial, antropólogo, historiador, terapeuta, padre, pastor ou quaisquer dos invisíveis que vão ter a violência necessária para controlar o poder supremo que o corpo tem sobre si mesmo.

Você pode até se camuflar, mas o cheiro que emana dos seus poros um dia vai lhe denunciar. Você, afinal, não se veste para você. E, sim para o outro. Ele passa mais tempo o observando que o contrário. Portanto, é o alheio que é sua presa e, na igual proporção, seu caçador.

Sendo restrito ao poder em si, pense nos desmanches das tramas políticas, aqui ou no mundo. Quase sempre há sexo envolvido. Alguém que guardou fotos comprometedoras, uma amante que não amava, uma ex-mulher traída com segredos com potência de míssil.

O cinema, o teatro e a literatura sempre fizeram muito bom uso disso, com suas mulheres fatais e as quedas de ditadores diante de um par de peitos ou de um pênis avantajado. Quando sair de casa da próxima vez pense que ao fechar sua porta está abrindo um mundo de possibilidades de controle e de prazer.

Para finalizar, cito o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, que morreu há 114 anos, e sua frase lapidar: “Uma vez tomada a decisão de não dar ouvidos mesmo aos melhores contra-argumentos: sinal do caráter forte. Também uma ocasional vontade de ser estúpido”. Poder é decidir se posicionar entre o caráter forte e a estupidez. Pense também em sexo quando for votar neste domingo.

*João Luiz Vieira é jornalista profissional há 25 anos, roteirista de TV, autor de teatro, organizou o e-book Sexo com Todas as Letras, é sócio-proprietário do site Pau Pra Qualquer Obra, e pós-graduado em Políticas Culturais e Educação Sexual. Para falar com ele: vieiraluizjoao@gmail.com

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