Memórias de uma diva

Falamos com Anjelica Huston sobre o primeiro volume de suas memórias Ela esmiúça uma época rodeada pelos bosques da Irlanda, e pelos maiores de Hollywood Uma vida marcada pela morte de sua mãe e pela perda de seus dois grandes amores

Anjelica Huston, retratada em 1968.
Anjelica Huston, retratada em 1968.Philippe Halsman

“O livro A Story Lately Told conta quem sou. Alguém que existiu muito antes de ser namorada de Jack Nicholson aos 20 anos. Alguém que começou a ser quem sou nos bosques da Irlanda ocidental onde me criei. Chame minha forma de me defender como pessoa, de definir quem sou, o que para mim é e foi importante. E me encantou ser a namorada de Jack, não me interprete mal. Mas sou muito mais que isso”. Assim nos recebe Anjelica Huston para falar do primeiro volume de suas memórias que foi publicado nos Estados Unidos e que, parafraseando uma canção popular de sua infância, tem o título A Story Lately Told. Ninguém poderia duvidar, basta olhar para ela, que esta mulher de 62 anos, rosto assimétrico, intensas feições e grande presença física –além de uma aura de estrela de outrora, das que já não existem ou são difíceis de encontrar- é muito mais que “a garota de”. Inclusive se esse “de” é Jack Nicholson. Huston também é muito mais que a soma de todos seus personagens, alguém que te faz pensar que a Maerose Prizzi de A Honra do Poderoso Prizzi (1985), a Mortícia Addams de A Família Addams (1991) e a Etheline Tenenbaum de Os Excêntricos Tenenbaums (2001) –algumas de suas criações mais lembradas- eram puros cordeirinhos a seu lado.

Anjelica Huston foi, e continua sendo, uma força da natureza. Seguramente a herdou. Alguém não é filha de John Huston e neta de Walter Huston para ser uma mera mortal. Se trata da terceira geração do mais próximo que Hollywood esteve de contar com sua própria realeza. “Meu pai foi um grande homem. Em todos os sentidos”, ri com gargalhada sonora e honesta esta atriz e modelo, amante e esposa, produtora, diretora e agora escritora, mas sobretudo filha de um homem indômito, o Hemingway do cinema, de grandes apetites. “Não era somente seu caráter, era seu físico, um homem grande, de braços longos, pernas longas, pênis longo... muito bem dotado, já te digo. Alguém com o qual meu irmão e eu tomávamos café todas as manhãs, rodeado de livros e de esboços em uma cama enorme na casa do condado de Galway, na Irlanda, e que enquanto se levantava se dirigia nu ao banheiro, como Deus o trouxe ao mundo, onde se trancava com chave como se não tivéssemos o visto minutos antes, como se não tivéssemos olhado para ele com a mesma fascinação que toda criança olha os atributos de seus pais se perguntando se algum dia os seus serão assim”, diz categoricamente.

A mesma sinceridade que coloca em seu livro, onde detalha uma infância mágica e cheia de privilégios, mas também carente de carinho. Esse é o estilo de Anjelica. Adquirido, diz, de seu pai. Um homem com uma filmografia faraônica de clássicos como O Tesouro de Sierra Madre (1948), Relíquia Macabra (1941), Moby Dick (1956) ou Uma Aventura na África (1951), e uma lista de amantes comparável somente à de Nicholson. Alguém, como diz Anjelica, considerado entre seus companheiros como “o pirata que gostariam ter tido a audácia de ser”. Apesar disso, era tudo menos esnobe. “E o mesmo dizia do avô, alguém pelo qual meu pai sempre sentiu uma grande paixão e que, mesmo que eu não tenha conhecido, me ensinou a tirar coragem da vida e a atacar as coisas que me dão mais medo, a enfrentar meus fantasmas”, resume.

Sentada nos escritórios da Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood, um edifício de madeira talhada, sabor de outrora e poeira onde ficamos para esta entrevista, rodeada de fotografias de Marilyn Monroe e Jack Lemmon, e com um terno de jaqueta de cor berinjela e corte clássico de Donna Karan que cobre com um xale, é impossível conceber o que pode dar medo a essa pessoa aparentemente tão segura de si mesma. Alguém com a compostura suficiente para esmiuçar com toda simplicidade e como que de passagem como se fosse a coisa mais normal do mundo, uma vida pitoresca, onde os nomes de Ava Gardner, Marlon Brando, Peter O’Toole, Robert Capa, Helmut Newton, John Steinbeck ou Scott Fitzgerald salpicam as páginas do livro do mesmo modo que sua conversa, sem dar-lhes maior importância. E isso antes de falar de sua carreira como atriz ou como modelo. Nomes que se entrecruzam com esses momentos que fizeram história, o Maio de 68, a explosão musical londrina ou as baratas do hotel nova-iorquino Chelsea. A jovem Huston não perdeu uma. Também divide descaradamente sua habilidade (desde que tinha 10 anos) para preparar um martini, sua bebida preferida e a de seu pai; seu também cedo gosto por um bom charuto ou os 17 anos nos quais perdeu a virgindade e a sua mãe.

Esse é um de seus fantasmas, a lembrança de uma mãe que desapareceu muito cedo do lado de uma menina dominada pelos grandes homens de sua vida. “Por isso enchi as páginas de detalhes pessoais sobre sua vida”, salienta ao falar dela. A bailarina nova-iorquina de origem italiana Enrica Ricki Soma foi a quarta esposa do então já famoso diretor, com o qual se casou em uma boda relâmpago no México. Ela tinha 18 anos e estava grávida do primogênito, Tony, e o diretor rondava os 40. Anjelica chegaria pouco mais de um ano mais tarde. “Para mim era vital fazer um exame profundo de quem foi minha mãe, alguém muito importante na minha vida, na vida de meu pai, na de meus irmãos, e que sempre fica escondida na sombra desse grande homem que foi John Huston. Alguém que me foi roubada em um acidente de trânsito”, acrescenta. Não é necessário um psicanalista para ver a grande marca que deixou nela uma mãe que descreve como uma beleza “translúcida e rara”, uma mulher na qual se sentiu muito unida “em conspirações e alianças”, mas com a qual nunca teve laços de ternura. Dela aprendeu a amar homens mais velhos, a aceitar infidelidades, e inclusive competiu com ela por amantes. Mas sempre esteve ao seu lado desde um parto que foi realizado em Los Angeles enquanto John Huston recebia a notícia no coração do que foi o Congo belga, agora Zaire, mediante um telegrama entregado a pé por um nativo descalço que levou durante a filmagem de Uma Aventura na África.

O também ator e diretor Danny Huston, fruto da relação de John Huston com Zoe Sallis, é meio-irmão de Anjelica. Assim lembra de sua vida familiar: “Está claro que as nossas infâncias não foram de Hollywood, mas o tempo que passamos com nosso pai, seja em um set ou na mansão familiar de St. Clerans, foi fascinante. Natais irlandeses nos quais nos reuníamos todos os filhos e todas as mulheres... e o drama que era montado. Meu pai gostava porque mesmo com o número de esposas que tivera, sempre foi um cavalheiro. E para mim, como menino, eram os melhores Natais que podia imaginar.”

A atriz, vestida com uma capa, em uma fotografia tirada em 1972.
A atriz, vestida com uma capa, em uma fotografia tirada em 1972.Terry O'Neill (GETTY)

Anjelica reconhece fazer sentido ter todo tipo de emoções por Zoe Sallis. Do desespero para uma madrasta que pouco antes havia considerado sua melhor amiga sem pensar que também era a amante de seu pai, até um profundo amor por um bebê do qual se sentiu cúmplice: “Como explico no livro, me criei com Tony, meu irmão, por necessidade, porque não havia mais crianças. Mas nunca me senti tão unida a ele como me aconteceu anos mais tarde com Danny”. A atriz lembra que Tony herdou o espírito caçador de seu pai, “sempre misturado com a morte de animais”, enquanto ela é conhecida pelo seu trabalho na proteção dos grandes símios. “E aqui temos um conflito muito básico, mas que diz muito”, acrescenta ironicamente. Conta com outra irmã, Allegra, filha de sua mãe com outro homem que nunca lhe deu seus sobrenomes e que John Huston decidiu adotar depois da morte de Ricki. Anjelica viu Allegra nascer, mas conheceu Danny quando ele tinha dois anos. “E não achei graça, mas logo nos tornamos melhores amigos. Somos uma família muito diversa, mas que se mantém muito unida. Não posso te expressar o quanto sou orgulhosa de meu sobrinho Jack, o filho de Tony, e do trabalho que está fazendo em Boardwalk Empire: O Império do Contrabando. Ou com minha sobrinha Stella, a garota mais bonita de Danny, que até este ano viveu comigo. Vou sentir muito a falta dela”, reflete uma mulher que há anos decidiu não ter filhos.

A solidão também foi outro dos motores que propiciaram estas memórias. Outro de seus medos pelo qual nunca se deixou ser conquistada. “O livro não foi somente terapia. Teve uma oferta, uma boa oferta, talvez não tão boa quanto queria, mas que picou a minha curiosidade”, agrega com rapidez e com os pés na terra. Certo que não é um livro que escreveu por amor à arte, mas Huston assume que a morte de seu esposo, o escultor mexicano Robert Graham, em 2008 e depois de 16 anos de casamento, foi o motivo para se colocar a escrever. “Até certo ponto todos estamos sozinhos ainda que vivamos nessa fantasia de que não estamos. E o reconhecimento da minha solidão é o que me fez triunfar como a mulher que sou. Algo que não é fácil para ninguém e tampouco para mim. Me ajudou quando minha mãe morreu, logo meu pai e agora meu marido”, admite. Foi nesse momento de encruzilhada na sua vida, quando os trabalhos como atriz foram mais escassos e o eco do êxito –ganhou o Oscar de melhor atriz coadjuvante em 1986 por A Honra do Poderoso Prizzi e foi candidata por Inimigos, Uma História de Amor (1989) e Os Imorais (1990)- mais e mais longe, quando se voltou para suas memórias.

O processo levou mais de três anos e meio, escrevendo a mão suas lembranças em um manuscrito que acabou escrevendo ela mesmo porque não lhe agradou o escritor sombra que lhe indicaram e para fugir da carniça que buscavam alguns de seus editores. De sua parte não houve censura, apenas lembranças que tomaram vida própria. “Havia coisas nas quais tampouco me sentia orgulhosa na hora de escrever, mas foram necessárias para completar o quebra-cabeça”, reconhece pensando, entre outros instantes de sua vida, nessa tentativa de suicídio no qual cavou durante sua primeira relação de casal estável junto ao fotógrafo Bob Richardson quando ainda era adolescente.

John Huston e sua filha Anjelica, na sua casa na Irlanda, em 1968.
John Huston e sua filha Anjelica, na sua casa na Irlanda, em 1968. (Magnum)

A Danny Huston ficou gravada para toda a vida a presença de Ava Gardner na casa familiar, seu primeiro amor platônico. Anjelica menciona a atriz como a primeira grande estrela que conheceu, mas admite que somente Peter O’Toole a deixou, literalmente, sem fala: teve que suspender seu primeiro trabalho como atriz –em uma obra infantil na sua casa- porque ao se cruzar com seus olhos azuis esqueceu de seu texto. Também lembra um encontro com Marlon Brando, que a convidou para sua ilha no Taiti quando ela era ainda muito jovem. Nunca conheceu Marilyn Monroe, mas escutou histórias suficientes da boca de seu pai que poderia escrever outro livro. “A mais forte e às vezes a mais vulnerável das mulheres americanas”, resume.

Anjelica atribui sua boa memória a seu trabalho como atriz. Uma memória não somente vivida, mas olfativa, falando de uma Londres que fedia a “tabaco, vinagre, patchouli, peixe e fritas, fruta passada, bacon e humanidade”, enquanto os homens cheiravam a “Vetiver, Brut e Old Spice”, e as mulheres a “lavanda e sândalo”, no final dos anos sessenta. Talvez por isso a atriz não cheira a nada, e os que a rodeiam, como Wes Anderson, dizem que sua musa é “uma grande presença”. “Alguém espetacular”, como acrescenta Jeff Goldblum. Há os mais atrevidos, como Danny Glover, para quem Anjelica é “extraordinária” tanto na tela como na vida real. “Há algo na sua maturidade, na sua beleza fora do normal, na sua alma, que a fez desde sempre minha maior fantasia erótica. E olha que acabei me casando com ela em Os Excêntricos Tenenbaums”, recorda o ator com humor.

Huston, junto a seu primeiro grande amor, o ator Jack Nicholson, na cerimônia do Oscar em 1976.
Huston, junto a seu primeiro grande amor, o ator Jack Nicholson, na cerimônia do Oscar em 1976. (GETTY)

Para Jack Nicholson, Huston foi e sempre será sua deusa, essa que teve e deixou ir embora depois de 16 anos de amor e infidelidades que concluíram com o anúncio de que o grande Jack esperava um filho de outra mulher. Segundo confessou recentemente, o ator se sentiu “emocionalmente aniquilado” depois da ida de Huston. Uma relação que, apesar dos anos, continua existindo, ao menos na forma de amizade. “Não seria feliz se não contasse com ele”, disse Huston em outras ocasiões. De fato, a ele a à sua relação sera dedicado o Segundo volume de memórias. O primeiro livro termina quando a atriz chega à Califórnia depois de uma infância idílica na Irlanda, uma adolescência tumultuada em Londres e uma primeira relação fracassada em Nova Iorque.

“No segundo volume falarei de Jack, de minhas tentativas de recuperar minha carreira como atriz depois desse primeiro filme com meu pai, de sua doença...”. Por um momento, Anjelica deixa que o silêncio fale por ela, recuperando a fala para enfrentar o fantasma que leva sentado a seu lado durante toda a conversa. “Meu pai sempre foi uma grande influência na minha vida, nos meus homens, sempre maiores que o comum, pouco mais velhos, fortes, e assim foi até meu casamento”. No seu discurso não há lugar para o arrependimento. Talvez relações fracassadas, admite. Ou momentos nos quais se sentiu como idiota, sim. Mas tudo faz parte dessa aventura que é sua vida, essa que transcorreu rodeada de tesouros procedentes dos cantos mais remotos do planeta nos quais seu pai esteve rodando e que decoraram uma infância que, nas palavras de Ajelica Huston, soa como um paradisíaco Downtown Abbey irlandês a ponto de sucumbir na revolução cultural e sexual dos anos sessenta e setenta. “É difícil para mim voltar à Irlanda. O mesmo com o México. Cometi o erro de voltar há pouco a um desses lugares onde ia com meu pai e agora está cheio de turistas... Mas o melhor conselho que me deu meu pai é que sempre se pode levantar e ir. Coloque as mãos nos bolsos e vá. Às vezes é difícil, mas não impossível”, resume fazendo o gesto, mesmo que seu terno não tenha bolsos.

Arquivado Em: