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Mobilização no Rio frustra organizadores e termina com repressão policial

Grande aposta dos sindicalistas, ato na Cinelândia foi dispersado por bombas efeito moral

Ônibus foram incendiados em confronto entre manifestantes e policiais.
Ônibus foram incendiados em confronto entre manifestantes e policiais. REUTERS

O Rio aguardava com expectativa a jornada de greve geral convocada contra as reformas do Governo Temer, mas muitas das mobilizações se frustraram. Esperava-se que os ônibus municipais, intermunicipais, assim como as barcas, não saíssem dos terminais, mas a adesão acabou sendo parcial, metrô e trens funcionaram, e a cidade não parou. A jornada terminou, ainda, com a Polícia Militar perseguindo e atirando bombas de gás contra manifestantes e vândalos deixando um rastro de destruição e ônibus incendiados.


No início da manhã, o Rio de Janeiro entrou em estágio de atenção por conta de bloqueios e piquetes nas principais estradas da cidade. Houve longas retenções na ponte Rio-Niteroi, na avenida Brasil e na Linha Amarela e Vermelha assim como concentrações de manifestantes na Rodoviária Novo Rio que, apesar de tudo, funcionou com normalidade. No aeroporto Santos Dumont, chegou a haver uma forte briga de sindicalistas com taxistas e o acesso ao terminal foi impedido, mas por volta das 10 horas da manhã o saguão recebia seu fluxo de passageiros habitual. "Tenho 21 anos, ainda estou na faculdade, e essa reforma trabalhista, ampliando a terceirização, vai mudar nosso plano de carreira. Vamos ser todos terceirizados", lamentava Samya Bentes, do sindicato do Instituto Fiocruz, enquanto bloqueava a rua de acesso à Rodoviária.

A segunda expectativa dos grevistas residia no grande ato convocado na frente da Assembleia Legislativa do Rio que devia reunir todas as categorias. Mas esse plano também se frustrou pela repressão da polícia e pelos inúmeros atos de vandalismo que semearam o caos no centro da cidade durante horas obrigando, dessa vez sim, os comércios, bares e demais estabelecimentos a fecharem as portas.

O ato congregou várias centenas de pessoas e começava a caminhar em direção à praça da Cinelândia, também na região central, quando a Polícia Militar jogou a primeira bomba. Os carros de som esforçavam-se em manter o ritmo da caminhada enquanto dezenas de manifestantes com os rostos cobertos erguiam e queimavam barricadas ao seu passo e quebravam as vitrines de todos os bancos. Minutos antes da confusão, a professora Neide Martins, que trabalha num colégio particular que aderiu à greve, lamentava os impactos da reforma trabalhista e da Previdência promovidas pelo Governo. "Um bando de safados está querendo nos tirar todos os direitos que conquistamos anos atrás. O que é isso de parcelar as férias, de acabar com o décimo terceiro? Isso não é existe! Estamos revoltadas!", exclamava a professora, um pouco decepcionada pela greve no Rio não ter tido o impacto que teve em outras cidades: "Muitas pessoas furaram. O pessoal está com medo de perder deus empregos. É isso que esse Governo está fazendo"


A manifestação, apesar dos esforços, acabou se dispersando e vários grupos espalhados caminhavam sem rumo enquanto, no destino final, Cinelândia, onde estavam previstos os discursos de encerramento do ato, manifestantes fugiam da polícia e das nuvens de gás lacrimogêneo. "Estávamos aguardando o pessoal se reunir de novo para recuperar o ato, mas passou o caveirão jogando bomba para todo lado e tivemos que sair", reclamavam os manifestantes que desistiram do protesto. O presidente da CUT no Rio, Marcelo Rodrigues, qualificou o ato de "vitorioso", embora tenha tido sua marcha interrompida. O sindicalista afirmou que cobrará explicações à PM pela sua atuação, mas condenou também a depredação.

A Ordem de Advogados do Brasil também condenou a ação da polícia. "Nada justificativa a investida com bombas e cassetetes, contra uma multidão que protestava de modo pacífico", disse seu presidente Felipe Santa Cruz. "Se houve excessos por parte de alguns ativistas, a PM deveria tratar de contê-los na forma da lei".

Por volta das seis da tarde, a poucos metros dali, enquanto alguns manifestantes voltavam para casa e outros ainda confiavam em um encerramento que agrupasse a multidão, vândalos ateavam fogo em pelo menos sete ônibus instalando o caos na região da Lapa, a zona mais turística e boemia do centro do Rio. Acabava assim um protesto que sequer conseguiu percorrer uma centena de metros sem ter que correr para se proteger das bombas de gás da Polícia Militar.

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