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“Não acredito que um gestor vai resolver os problemas do Brasil”, diz presidente do Itaú

Em evento em São Paulo, Roberto Setúbal mostra pouco entusiasmo com a ideia de empresários na política

“Não acredito que um gestor vai resolver os problemas do Brasil”, diz presidente do Itaú
Folhapress

O presidente do Itaú, Roberto Setúbal, decidiu dar um pitaco sobre a política brasileira nesta terça, que reverbera na corrida eleitoral para 2018. No palco de um evento promovido pelo banco em um hotel em São Paulo, foi questionado pelo economista-chefe do Itaú, Mario Mesquita, sobre a onda dos empresários na política. Setúbal respondeu que há espaço na política para aqueles que gostam do assunto como uma nova carreira. “Mas no fim do dia, política é para políticos”, disse ele, que ainda completou. “Não dá para imaginar que um gestor competente vai solucionar os problemas do Brasil”, concluiu.

O executivo não nomeou diretamente o prefeito João Doria Jr., mas chamou a atenção por ter usado a expressão “gestor”, que é a marca de Doria desde a campanha. “Não sou político, sou gestor”, repetiu ele seguidamente, num bordão que ajudou a elegê-lo prefeito da capital paulista em primeiro turno. Setúbal afirmou que empresários podem ter um olhar diferente para a política. “Nesse sentido, melhora a gestão pública”. Mas deixou clara a falta de entusiasmo com essa saída.

Setúbal falou sobre empresários na política depois de dizer que vê melhoras no horizonte do Brasil com as eleições de 2018 “se elegermos a pessoa certa”. Ele acabava de elogiar algumas reformas que o Governo Temer vem implementando, como a votação de teto de gastos e o projeto da reforma trabalhista que está no Congresso. Parecia que se referia a Doria quando se referiu à “pessoa certa”. Mas na sequência, falou sobre a necessidade de “bons políticos” mais do que gestores privados.

A colocação do presidente do maior banco privado do Brasil, uma das vozes mais prestigiadas do mercado financeiro, chega num momento em que o nome de Doria cresce na bolsa de apostas para entrar numa disputa pela corrida presidencial do ano que vem. As delações da Odebrecht, que vieram à tona na semana passada, atingiram diretamente grandes tucanos, como Aécio Neves e o padrinho do prefeito, Geraldo Alckmin. Assim, todos os holofotes se voltaram para Doria, visto como o único com credibilidade no partido para ganhar a confiança do eleitorado. Com bom trânsito entre empresários, principalmente depois de criar o Lide, que promove encontros empresariais para estimular negócios, o prefeito derrete os corações dos representantes do setor privado. Sua visão liberal para os negócios soa como música no mundo econômico.

Doria tem negado a possibilidade, muito embora continue em aparente ritmo de campanha eleitoral, com vídeos diários em sua página do Facebook destacando suas ações. Segundo analistas, ele surfa na onda antipolítica, agravada ainda mais depois das delações da Odebrecht.

O publicitário Roberto Justus é outro nome do setor privado que já cogitou se lançar a presidente. Como Doria, Justus também foi apresentador do programa O Aprendiz. Também o apresentador Luciano Huck chegou a ser cogitado depois de uma longa entrevista à Folha de S. Paulo, em que falou de política e afirmou que era a hora “da minha geração ocupar os espaços do poder”.

Fim da recessão e desigualdade

Durante o evento do Itaú, Roberto Setúbal falou sobre os sinais de melhora da economia neste momento e dos prognósticos que o próprio banco que dirige tem feito, prevendo uma alta de até 4% do PIB para o ano que vem, otimismo com o qual ele, pessoalmente, não parecia tão confortável. “Eu vejo uma recuperação lenta, com empresas em dificuldade, e um emprego se recuperando lentamente também”, afirmou. Para ele, a reforma trabalhista é uma das mais esperadas pelo empresariado pelo ganho de produtividade que o fim de algumas amarras da legislação podem garantir.

Ele falou também sobre a desigualdade social, que caiu nos últimos anos, mas que deve subir depois da recessão dos últimos dois anos. “A democracia, para funcionar bem, não pode ter desigualdade”, afirmou.