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Nos EUA, Dilma diz temer prisão de Lula, enquanto Moro critica caixa 2

Ex-presidenta e juiz que comanda a Lava Jato participaram de conferência em Cambridge

Dilma fala na Brazil Conference.
Dilma fala na Brazil Conference.

Foi apontando o dedo para o passado, mas de olho no futuro, que a ex-presidenta Dilma Rousseff falou neste sábado à audiência do segundo e último dia da Brazil Conference, evento organizado em Cambridge (EUA) para discutir os rumos do país. Na palestra feita na Universidade Harvard, Dilma deu sequência à série de intervenções públicas que tem feito para defender que seu processo de impeachment foi um "golpe" e se disse preocupada com que "prendam o Lula, porque ele tem 38% dos votos", em referência a pesquisas de intenção de voto. “Ele pode até perder as eleições. Não há vergonha alguma em disputar e perder uma eleição para quem tem valores democráticos. O que não pode é impedir que ele concorra”, discursou. Horas depois da fala de Dilma, o juiz Sérgio Moro, aquele que pode ser o responsável por mandar prender o ex-presidente petista, daria a sua própria palestra no evento.

Dilma Rousseff e Sérgio Moro, o juiz que comanda a Operação Lava Jato, não foram colocados frente a frente, mas, a partir de seus discursos, fica claro por que compartilharam o mesmo dia de uma conferência intitulada "Diálogos que Conectam". Enquanto a ex-presidenta dirigiu suas baterias contra as reformas do Governo Michel Temer e criticou o "uso político e ideológico" da Lava Jato, o juiz titular da 13ª Vara de Curitiba defendeu a "criminalização mais adequada do crime de caixa dois" e o projeto de 10 Medidas contra a Corrupção, apresentado ao Congresso Nacional pelo Ministério Público Federal.

Dilma abriu sua participação no evento organizado por estudantes brasileiros de Harvard com uma longa defesa de seu Governo e do PT. Afirmou ter sofrido "dois golpes na vida": a ditadura militar (1964-1985) e o processo de impeachment. A ex-presidenta utilizou trechos da Constituição norte-americana para embasar sua defesa jurídica, mas, em pouco tempo, a defesa deu lugar ao discurso político-eleitoral com vistas a 2018. Segundo a petista, o Brasil tem um encontro marcado com a democracia em 2018.  "Nenhuma das medidas adotadas pelo atual Governo foi aprovada nas urnas", criticou.

Quando falou na Lava Jato, a ex-presidenta evitou mencionar diretamente os responsáveis pela investigação, mas disse que "não é admissível juiz falar fora de processo". "O juiz não pode ser amigo do julgado, não é possível qualquer foco de violação do direito de defesa”, completou. “Não concordo com nenhum uso de law fare [usar a lei com intenções políticas], porque compromete o direito de defesa. Não podemos, em nome das vantagens desse combate, que é reduzir a distorção do gasto público brasileiro destinado à corrupção, comprometer o sistema democrático no Brasil”, discursou a ex-presidenta.

Sérgio Moro

Ao contrário de Dilma, que falou sozinha ao microfone diante da plateia que contava com personalidades como o cantor e ex-ministro da Cultura Gilberto Gil e o vereador Eduardo Suplicy (PT), o juiz Sérgio Moro foi entrevistado por um par, o juiz federal Erik Navarro. Esquivando-se do debate político-partidário, Moro — um dos mais tietados nos corredores da Harvard Business School —disse que o país tem de se orgulhar do combate à corrupção, e não se envergonhar por suas lideranças estarem envolvidos em ilícitos. O juiz criticou especialmente o caixa 2, que, para ele, é "pior que o enriquecimento ilícito", por ter o efeito danoso de influir no resultado de uma eleição.

Questionado por Navarro, o juiz defendeu o fim do foro privilegiado, inclusive para membros do Judiciário, e deu sua opinião sobre temas como liberação de drogas e os problemas do sistema carcerário brasileiro. O juiz admitiu que se prende muito no Brasil e que é preciso investir mais no sistema carcerário, mas ponderou que a quantidade de crimes também é muito alta no país. Sobre alternativas no combate às drogas, ele disse que a liberação é questionável, "porque não se sabe o resultado exato da descriminalização".

As intervenções de Dilma e Moro foram o destaque do último dia de uma conferência que reuniu dezenas de personalidades brasileiras, entre políticos, empresários e artistas. O evento contou com palestra da ex-senadora Marina Silva e com a participação de políticos como o prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM) e empresários como Abílio Diniz. O ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes e o ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo também deram suas opiniões sobre o conturbado momento político do país. Estiveram presentes ainda artistas como o ator Wagner Moura e o apresentador Luciano Hulk.

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