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EDITORIAL

May desafia a Europa

O Governo britânico aposta em uma negociação dura e sem concessões

Theresa May, na terça-feira em uma intervenção na Câmara dos Comuns.
Theresa May, na terça-feira em uma intervenção na Câmara dos Comuns. REUTERS

Que a ativação na terça-feira da saída britânica do projeto de integração europeia tenha ocorrido quando ainda soam os ecos da comemoração do 60º aniversário do Tratado de Roma é muito mais que uma cruel ironia da história. É a triste constatação de um fracasso que tornou realidade o que parecia inconcebível há apenas alguns anos.

Não podemos nos enganar. Por mais que nesta terça Theresa May insistisse no Parlamento britânico que quer ter uma “relação profunda e especial” com a União Europeia, a carta de seis páginas assinada por ela mesma e entregue na terça — com uma incompreensível pompa por parte de Bruxelas — ao presidente do Conselho da UE, Donald Tusk, significa de fato a vontade de romper com a relação profunda e especial que Londres já tinha com o resto dos Estados membros da União. Uma relação construida durante os 44 anos transcorridos desde que o Reino Unido ingressou, por vontade própria e com um amplo respaldo popular, na (então) Comunidade Econômica Europeia.

A única coisa segura que resta sobre o Brexit — que acabou de começar — é o ensinamento das nefastas consequências que tem a estratégia demagógica de apelar para a vontade dos eleitores quando somos incapazes de enfrentar as próprias responsabilidades. David Cameron não se atreveu a enfrentar a questão do papel que o Reino Unido devia jogar na construção europeia e convocou um referendo apressado achando que se transformaria em uma vitória que pudesse explorar a curto prazo e um cheque em branco para obter de Bruxelas restrições à imigração com as quais poderia aplacar os populistas do UKIP liderados por Nigel Farage e os eurocéticos de seu próprio partido.

Ainda falta um longo caminho negociador para a saída do Reino Unido da União. A carta de May ativando o processo de retirada oferecia uma boa oportunidade para encaminhar a negociação de forma amistosa. No entanto, as ameaças veladas sobre segurança se não se chegar a um acordo nos termos que Londres pretende e a calculada indefinição sobre os direitos dos cidadãos da UE moradores no Reino Unido, além de serem inaceitáveis, deixam claro que não será um “divórcio de veludo”.

Além disso, o fato de que Londres pretende vincular o processo de desconexão com a negociação de uma nova relação, contra o defendido por Bruxelas que, com toda a lógica, não quer misturar os dois processos, também augura uma importante fonte de tensões. As negociações do Brexit arrancam, assim, sem acordo sobre o que está sendo negociado ou como será negociado e, ao mesmo tempo, com uma espada de Dâmocles pendendo sobre os cidadãos europeus e uma inaceitável vinculação com a cooperação em matéria de segurança.

A imagem de uma Europa burocrática, fria, artificial e distante dos interesses dos cidadãos foi — e é — uma arma terrível nas mãos de políticos populistas seguidores do “quanto pior, melhor”. Por isso, deste lado do Canal da Mancha, os responsáveis da União deveriam observar bem e defender, mais do que nunca, o sentido e a viabilidade do projeto criado por Robert Schumann, Konrad Adenauer e outros.

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