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Autoridades dizem que é seguro comer carne, apesar de não saberem extensão de esquema

Secretário-executivo do Ministério da Agricultura disse que população pode "ficar tranquila"

Pasta promete informar apenas na segunda-feira lotes de produtos sob suspeita

Horas após a Polícia Federal revelar um esquema de fraudes e venda de carnes adulteradas de tamanho ainda não detalhado envolvendo as principais marcas do país, o secretário-executivo do Ministério da Agricultura, Eumar Novacki, minimizou os riscos e afirmou nesta sexta-feira que “a população brasileira pode estar absolutamente tranquila” em consumir carne. De acordo com delegados da Operação Carne Fraca, que investiga o tema, fiscais da pasta recebiam propina para fazer vista grossa a diversas irregularidades cometidas por empresas ligadas a grandes grupos do setor, por vezes com produtos injetados para ocultar o estado de putrefação. Novacki disse se tratar de “casos isolados”, que “não colocam em risco a saúde pública da população brasileira” e se mostrou preocupado com possíveis reflexos do escândalo para as exportações brasileiras. Até o momento, 33 funcionários do ministério foram afastados e três estabelecimentos tiveram suas atividades suspensas entre os 21 investigados. Não se sabe quais lotes de carne podem ter sido afetados.

Mulher compra carne no Rio. EFE

As três unidades que foram interditadas até o momento são: uma da BRF, dona das marcas Sadia e Perdigão, em Mineiros, Goiás, e duas do frigorífico Peccin em Jaguará do Sul, Santa Catarina, e Curitiba, Paraná.

Novacki não desaconselhou o consumo de nenhuma das marcas envolvidas no esquema. "Vou comprar churrasco nesse fim de semana", encorajou. Ele afirmou que ainda não é possível saber quais lotes de alimentos estão contaminados ou irregulares e que estes dados seriam colocados no site do ministério na segunda-feira. O secretário anunciou que uma força-tarefa será montada no início da próxima semana para investigar as empresas e unidades de produção citadas pela Carne Fraca. “Não deixamos nada debaixo do tapete”, afirmou. “Eu não posso atestar que essa ou aquela carne está com problema ou não”, afirmou, e conclui dizendo que o objetivo das ações da pasta é o de “evitar ao máximo que haja um desconforto geral”.

Na visão de Novacki, o consumidor tem, juntamente com o ministério, o papel de fiscalizar a qualidade dos alimentos. “Quando você pega uma carne na prateleira do supermercado e ela apresenta um aspecto que não está de acordo, seja tipo, aparência ou cheiro, acione o sistema de vigilância que o Ministério da Agricultura tomará todas as providências”, afirmou. Ele não soube responder, no entanto, como o consumidor pode detectar irregularidades nos produtos sendo que parte das fraudes tinha justamente como objetivo disfarçar odores de alimentos podres.

Ele afirmou que é preciso evitar o pânico (“nosso sistema de vigilância sanitária funciona") e ressaltou que é preciso que os laudos atestem as irregularidades. “Me preocupam afirmações de que a carne tem isso ou tem aquilo, sem os laudos para provar”, disse. Ele também manifestou cautela com as acusações contra as empresas envolvidas no esquema: “Temos que ter cuidado, quando acusamos colocamos uma marca na berlinda, e o consumidor pode bani-la do mercado”.

Preocupação com a exportação

Durante a entrevista que durou quase uma hora, o secretário demonstrou preocupação com a imagem do país no exterior e os possíveis impactos para a venda dos produtos. O Brasil é o maior exportador de carne bovina e frango do mundo. “Somos grandes players no mercado internacional. Nossos produtos chegam com qualidade e bom preço a mais de 150 países”, afirmou, dizendo ainda que os países que importam a carne brasileira “têm seus próprios controles sanitários”, o que minimizaria riscos aos exportadores.

Segundo a investigação da Polícia Federal, um lote de carne da BRF, com origem no frigorífico de Mineiros, agora interditado, foi barrado na Itália por suspeita de contaminação por salmonela, bactéria que causa vômito e diarreia. Há casos ainda de adulteração de carnes, uso de carnes proibidas e reembalagem de produtos vencidos. O tamanho do esquema e o volume de mercadoria potencialmente afetada ainda é incerto. A BRF e a JBS, dona das marcas Friboi, Seara e Big Frango, negam irregularidades, dizem que vão colaborar com as investigações e reiteram a qualidade de seus produtos.

Segundo informações do delegado da PF Maurício Moscardi Grillo, responsável pela operação, parte do dinheiro pago pelas empresas frigoríficas abastecia políticos do PMDB e do PP – partido do ministro da Agricultura, Blairo Maggi, e uma das legendas mais atingidas pela Operação Lava Jato. O titular da pasta integra a bancada ruralista, que costuma defender os interesses das empresas frigoríficas. Maggi passou o dia em Cuiabá, mas deve retornar para Brasília na semana que vem para tentar debelar a crise.

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