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Acidentes põem gigantismo das escolas de samba do Rio na berlinda

Fiscalização não acompanha o tamanho e complexidade das alegorias, afirmam especialistas

Carro da Mocidade Independente de Padre Miguel.
Carro da Mocidade Independente de Padre Miguel. EFE

Nunca tantas ambulâncias abriram caminho entre integrantes de escolas de samba em 33 carnavais do Sambódromo. Uma série de acidentes graves em dois dias seguidos de desfiles do Grupo Especial deixaram cerca de 30 feridos e colocaram  em xeque os parâmetros da festa, o socorro às vítimas e a fiscalização das gigantescas alegorias que todo ano tomam a Sapucaí. A lição, depois de mais um ano de grandioso espetáculo, é clara para os especialistas consultados pelo EL PAÍS: repensar o modelo da maior festa do Rio de Janeiro. Está em questão, sobretudo, o tamanho das alegorias que engrandecem os desfiles em tamanho, mas não necessariamente em beleza e muito menos em segurança.

Na madrugada da terça-feira uma parte do carro alegórico da Unidos da Tijuca desabou no meio do desfile derrubando seus componentes que caíram de mais de seis metros de altura. Houve uma dezena de feridos. No domingo, o último carro da Paraíso do Tuiuti perdeu o controle em uma manobra e acabou atropelando 20 pessoas e ferindo gravemente três delas. O motorista, acostumado a dirigir caminhões, era novo na função, e a perícia concluiu que uma das rodas do veículo estava solta. A União da Ilha e a Mocidade Padre Miguel engrossaram a lista de acidentes evitáveis durante o desfile, embora não tenham tido que lamentar feridos.

Os incidentes reacenderam um debate latente há anos nos bastidores do Carnaval do Rio: a profissionalização e fiscalização das escolas acompanhou sua grandiosidade? O belo deve, necessariamente, ser grande (e caro)? Ou um outro questionamento tão simples como se o Sambódromo, projetado por Oscar Niemeyer, é adequado para receber carros que chegam a 80 metros de cumprimento quando duas décadas atrás atrás não superavam os 20 metros? “A base do Carnaval ainda é muito amadora, apesar de muitas escolas se dizerem profissionais. As alegorias são obras de engenharia muito complexas que requerem uma especialização muito grande na construção. Vemos alegorias com milhares de litros de água, movimentos muito complexos, mas com uma fiscalização pouco profissional. Isso, mais cedo ou mais tarde, ia acabar em acidente”, sentencia Leonardo Bruno, colunista e júri do Estandarte de Ouro, prêmio extraoficial do Carnaval.

Antes mesmo dos desfiles –e dos acidentes–, o carnavalesco da campeã Portela, Paulo Barros, disparava em uma entrevista ao jornal Valor Econômico: "Para você ter uma ideia, os carros alegóricos são ainda transportados em chassis de caminhões e ônibus, os mesmos usados na década de 1970. Tudo é muito bonito, mas o sistema é da idade da pedra". Barros, que levou à vitória a maior vencedora da história do Carnaval carioca depois de 33 anos de jejum, confessou ser partidário de mudar o Carnaval do principio ao fim. Não é o único. “A partir de agora, tudo vai mudar. Foi o fim de uma era. Vivemos a despedida desse tipo de montagem e estrutura”, alerta o carnavalesco, coreógrafo e comentarista de Carnaval, Milton Cunha.

Apesar da própria Liga Independente de Escolas de Samba (Liesa), a organizadora dos desfiles das 12 maiores escolas, reconhecer a gravidade dos acidentes, a festa não parou

Apesar de a própria Liga Independente de Escolas de Samba (Liesa), a organizadora dos desfiles das 12 maiores escolas, reconhecer a gravidade dos acidentes, a festa não parou. Bombeiros e ambulâncias tiveram que se abrir caminho entre as alas das escolas que continuavam a ritmo frenético para não sofrer punição, no caso de superar os 75 minutos estabelecidos para cada desfile. “O show [para o qual a Prefeitura contribuiu com 24 milhões de reais] tem que continuar”, repetiu várias vezes Elmo José dos Santos, diretor da Liesa, que afirmou que o socorro não se viu comprometido.

Uma vez apagadas as luzes do Sambódromo e com ainda quatro vítimas no hospital, não há culpados. A Liesa, cuja assessoria não atendeu as ligações da reportagem, afirmou à imprensa local que espera o resultado das perícias para se reunir com todas as agremiações e “realizar ajustes", mas também tomou uma polêmica decisão que incendiou as redes sociais: com o apoio de todas as agremiações (menos a Mocidade), nenhuma escola seria rebaixada do Grupo Especial ao Grupo de Acesso da Série A. Salvava assim as escolas envolvidas nos acidentes de uma possível punição. "Todas as escolas foram a favor. O que aconteceu foi uma fatalidade, uma coincidência", disse à Folha o presidente da Portela, Luís Carlos Magalhães. Outras escolas, inclusive as que apresentaram problemas, qualificaram os acidentes de “fatalidade”.

Equipe médica socorre um dos feridos no desabamento de parte da estrutura de um carro da escola Unidos da Tijuca.
Equipe médica socorre um dos feridos no desabamento de parte da estrutura de um carro da escola Unidos da Tijuca. EFE

A determinação não caiu bem entre os cronistas habituais do Carnaval carioca. No seu Facebook, o historiador e especialista em Carnaval, Luiz Antônio Simas, lançava uma provocação que teve eco entre comentaristas e integrantes dos desfiles: “A pergunta que ficará no ar é a seguinte: os envolvidos com o Carnaval estarão dispostos a encarar, denunciar e agir diante do colapso do modelo de gestão da festa em 2017? Minha aposta: não. O simples fato da Liesa ter recebido apoio de praticamente todas as escolas (salvo a Mocidade) para promover essa acintosa blindagem no rebaixamento demonstra a conivência ativa das direções das agremiações com a explosiva mistura entre incompetência, descaso e picaretagem que assistimos na avenida.”

Simas, assim como outros especialistas na festa, é partidário de repensar o gigantismo adotado pelas escolas desde a década dos 90. “Nunca fui admirador do Carnaval dos grandes carros. O Carnaval começou a ser vertical, com vista aos camarotes, a arquibancada e a televisão. Acontece que o que era uma das essências do Carnaval, como os passistas, começa a ficar em segundo plano. Quem assiste o Carnaval do nível do chão não vê nada”, lamenta o jornalista Alvaro Costa e Silva, que cobre a folia há 20 anos. “Após esses acidentes, vamos ter que redesenhar uma outra maneira de ver o Carnaval. O gigantismo está trazendo problemas. As escolas vão ter que ter um compromisso com a qualidade da ferragem dos carros e eu gostaria de ver mais engenheiros participando do processo de criação do desfile e não somente assinando o alvará para que as escolas entrem na avenida”, complementa o carnavalesco da Estácio (terceira colocada no Grupo de Acesso), Chico Spinosa.

A evolução não parece fácil. “O que a gente viu é que o julgamento das escolas de samba premia as que trazem alegorias grandes, embora não sejam tão bonitas. Esse ano houve um exemplo muito claro disso: o resultado da São Clemente”, relata o colunista Leonardo Bruno. “A carnavalesca Rosa Magalhães, responsável pela festa de encerramento da Olimpíada, está no Carnaval há mais de 45 anos e ela tem um estilo que privilegia alegorias menores. O trabalho era lindo aos olhos de todo o mundo, mas era pequeno. Ela não levou um dez”, lamenta Bruno. “As pequenas joias, como a São Clemente, receberam poucos pontos”, concorda o carnavalesco Spinosa. “Parece que os jurados só dão nota 10 para o gigantismo. Então quando passa uma coisa média, bonita, bem acabada tira 9,7. Parece, sim, que se está dando pontuação ao tamanho e não à qualidade. O júri gosta de coisas agigantadas”, frisa Milton Cunha.

“Parece que os jurados só dão nota 10 para o gigantismo. Então quando passa uma coisa média, bonita, bem acabada tira 9,7. Parece, sim, que está se dando pontuação ao tamanho e não à qualidade. O júri gosta de coisas agigantadas”, frisa Milton Cunha.

O debate desses dias lembra de uma morte trágica no Sambódromo dois anos atrás. Foi quando a Liesa resolveu demolir uma torre em forma de L destinada a fotógrafos e cinegrafistas que atravessava a avenida. Aquela estrutura cinza de dez metros altura era, até então, o único limite físico à ostentação e altura das agremiações. Pode parecer fútil, mas aquilo simbolizou mais ofensa para os nostálgicos do Carnaval que valorizava os passistas, a velha guarda e a cadência da bateria. Leonardo Bruno chegou a escrever um obituário sobre a morte daquela torre de TV no jornal Extra. Dizia: “Mas, verdade seja dita, a Torre de TV nunca moveu um centímetro de seu concreto contra escola alguma. Seu papel, e muitos simpatizantes reconheciam isso, sempre foi colocar limites a um gigantismo desmedido por parte das escolas […] O samba sempre passou ali embaixo. Sempre coube em seu tamanho”.

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