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Por trás da folia do Rio, muita tecnologia, meteorologistas e um frenético WhatsApp

Enquanto São Paulo enfrentou falhas de organização no pré-carvanal de rua, Rio de Janeiro engraxa uma engrenagem que contempla de meteorologistas a técnicos da luz

Foliões do bloco Céu na Terra, no sábado, no Rio. AP

O grupo de WhatsApp "Blocos de Rua" está fervendo há um par de semanas. Nele não há foliões decidindo qual dos mais de 400 blocos de rua acompanhar, mas sim 77 pessoas responsáveis por evitar – ou resolver – qualquer incidente no Carnaval do Rio. Enquanto as orquestras tocam e o glitter voa, o coordenador da companhia municipal da luz, o responsável pelos garis, pelo metrô, pelo trânsito, pela fiscalização, pela Guarda Municipal, pela rede de saúde, e até uma meteorologista, teclam freneticamente. Foi por meio desse canal de comunicação – complemento de sofisticados softwares que monitoram em tempo real cada um dos blocos – que foram resolvidas em tempo recorde as mini-crises que se instalaram no último  final de semana, enquanto um milhão de pessoas dançavam e seguiam os blocos nas ruas.

Apesar de os cariocas monitorarem as redes sociais, além das informações dos próprios organizadores, para avaliarem a expectativa de público de cada bloco, um deles saiu dos moldes programados e ameaçou colocar Copacabana pernas para cima. Com uma estimativa de público de 100.000 pessoas, o bloco Chora Me Liga, que começou às 7h30 da manhã do último domingo com música sertaneja, duplicou a expectativa. As ruas adjacentes, artérias principais do bairro, começaram a colapsar, os moradores, cujas lideranças também têm linha direta com a organização municipal, reclamavam sem cessar, o metrô sobrecarregou...

"Tivemos que nos mobilizar rapidamente. Eram ruas importantes e havia dificuldades para chegar e sair da praia. Enviamos em seguida mais de 30 agentes de trânsito, eu mesmo fui, e conseguimos resolver em menos de uma hora", explica Mario Filippo, coordenador de carnaval da Riotur, o diretor de orquestra do evento desde 2009. “Sempre contamos com que algo assim pode acontecer. No caso, a música sertaneja, que está em voga, tinha muitas chances de lotar demais. Antes, isso nos acontecia com os blocos de música baiana”, completa.

A cada bloco bem sucedido, a equipe exclama "Esse foi para o saco!" em tom de comemoração. Outros problemas precisam ser resolvidos antes, como as duas caçambas cheias de entulho, pedras e paus estacionadas em pleno trajeto do bloco de Preta Gil, que levou mais de meio milhão de pessoas à rua Primeiro de Março, no centro da cidade. O Rio tem uma equipe responsável por percorrer a rota de cada bloco, por pequeno que seja, um par de horas antes. Caçambas, fios elétricos, buracos, lixo, carros estacionados são fotografados, enviados ao grupo de WhatsApp, e imediatamente removidos.

Confortados pelo ar acondicionado, no Centro de Controle de Operações da Prefeitura, uma outra parte da equipe enxerga uma tela com as informações e as imagens de cada cortejo. Uma máscara situa o bloco no mapa, uma linha amarela o trajeto, com uma cor seu grau de criticidade – há vários vermelhos – e um monte de desenhos de câmaras te levam num único click à esquina que quiser monitorar. O software contempla o histórico festivo dos blocos. Alguns, como o Bola Preta, começaram a desfilar em 1919, e sabe-se até quais são os que têm maior número de vendedores ambulantes, que acabam paralisando um pouco o fluxo, para avaliar a operação. "Não há uma única norma escrita para o Carnaval dar certo, tem que ter uma interação de órgãos e também uma cumplicidade entre eles muito grande", reforça Filippo.

Bloco de pré-carnaval no centro do Rio de Janeiro, neste dia 23 de fevereiro. Getty Images

O Rio, que virou anfitrião dos mais importantes eventos ao ar livre do país, diz não deixar espaço para a improvisação na maior festa do ano. Cerca de 30 dias depois do final do Carnaval, já está se discutindo o próximo: o que funcionou, o que não e o que vai mudar, como é o caso do Chora me Liga, e seu impacto sertanejo, se deve continuar na praia de Copacabana. Houve novidades implementadas neste ano, como a funcionalidade do aplicativo do Metrô, que oferece ao usuário a lista completa dos blocos e como e em quanto tempo chegar até eles. E outras que virão nas próximas edições mas que já estão em marcha, como um programa para monitorar o rumo da massa através dos sinais de celular. "É legal também pensar no futuro. O Carnaval do Rio, por mais grandioso que seja, está longe do seu ápice. Há um movimento muito grande de blocos fora do circuito oficial", disse Filippo.

Os cariocas não querem dar lições a São Paulo, que teve falhas de organização reconhecidas no pré-carnaval, "pois todos são suscetíveis de enfrentar problemas", mas aqui, no Centro de Operações da Prefeitura, onde tudo se coordena, e onde o prefeito João Dória já veio para conhecer, brilham de orgulho e já pensam no churrasco da vitória. A parceria que a cidade tem com os aplicativos de navegação, Waze e Google Maps, também é motivo de auto-elogios: graças à troca de informações, as plataformas conseguem informar os motoristas do fluxo desviado pelos blocos em tempo real. No metrô, que funcionará 24 horas de sexta a terça-feira, contemplam até os adereços das fantasias dos passageiros e desligam as escadas rolantes para evitar acidentes. "Vibramos muito com a ideia de que ninguém note que pouco tempo atrás um bloco enorme acabou de passar", orgulha-se o coordenador da Riotur.

Mas não sempre esteve tudo tão engrenado. Lembra-se hoje com amargo alívio da greve de garis que semeou o caos no Carnaval de 2014 ou as dificuldades para pôr ordem a uma massa eufórica e embalada por álcool que continua resistindo a abandonar os blocos. "Onde mais evoluímos foi na gestão da informação. Antigamente havia muitas dificuldades para liberar as ruas, a limpeza era mais reativa, os moradores reclamavam muito por conta do lixo. Hoje os garis são a última ala do bloco. Passa o bloco, chegam eles", brinca Filippo.

Na equipe de coordenação gostam da ideia de que o Carnaval equivale a uma miniolímpiada, com muitos eventos acontecendo simultaneamente. Asseguram também, com bom humor, que o jeitinho e malandragem carioca não têm como funcionar numa festa como esta. O chefe-executivo do Centro de Controle, Alexandre Cardeman, resume assim: "Problemas sempre podem acontecer. O segredo aqui é sempre estar incomodado".

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