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Testes de DNA a 120 dólares no Silicon Valley para saber como sou

Tornou-se moda na região fazer um teste genético para detectar possíveis doenças

Correspondente do EL PAÍS faz seu teste de DNA.

Os Estados Unidos são um país de imigrantes. Eles só têm um sobrenome e a maioria das mulheres o muda ao se casar. Isto significa que é fácil perder a pista de quem são parentes e, ao mesmo tempo, existe uma esperança de encontrar parentes mais ou menos próximos e estabelecer um relacionamento.

No Silicon Valley, a saúde é uma das obsessões coletivas. A couve-de-folhas, ou couve crespa, é considerado um superalimento, mas isso é apenas história. A interseção entre tecnologia e saúde começa a ser um dos campos que desperta mais interesse nos investidores de capital de risco e grandes filantropos da área.

A última moda na capital tecnológica é fazer um teste de DNA para se conhecer melhor, saber sobre potenciais doenças e, talvez, encontrar algum primo em terceiro grau perdido ou um meio irmão desconhecido.

23andMe consegue unir as duas preocupações, e faz isso com facilidade de uso e um preço aceitável. Entre 149 e 129 dólares, dependendo se compramos um ou dois pacotes para fazer com um familiar, amigo, dar de presente... A primeira experiência começa quando a caixa chega. As instruções explicam que é preciso se registrar para criar um perfil na web, pegar um tubo e enchê-lo com saliva, mas não serve qualquer saliva. É preciso não ter comido nada meia hora antes de recolher a amostra. Em seguida, é preciso quebrar um tubo com um líquido conservante, selar e colocar em qualquer caixa de correio. A caixinha já vem com a postagem paga. Sim, você envia um tubo com sua saliva pelo correio!

Entre quatro e seis semanas depois um e-mail avisa sobre a chegada dos resultados e então começa a parte divertida e curiosa ao mesmo tempo.

Herança genética no tipo de músculo.

Para começar, dizem coisas que você já sabe, mas que serve para ganhar sua confiança em relação ao resto dos dados. No meu caso, sei que consigo dobrar a língua, que tenho os olhos entre verde e castanho ou que aparecem covinhas quando sorrio. Descobri algo surpreendente sobre meus músculos: são de contração rápida. Isso é delatado pela proteína alfa-actinina-3, aparentemente comum em atletas de elite. Mas que, por infelicidade ou falta de dedicação, não explorei por enquanto. Embora nem tudo seja potencial...

Basta um tubo de saliva para conhecer a herança genética.

Durante toda minha infância briguei com meus pais por causa do chocolate matinal. Enquanto eu insistia que sentia o gosto dele até a hora do recreio e não queria beber, eles achavam que era uma das minhas esquisitices. Até poder começar a tomar café, sofri com o leite viajando em refluxo pelo meu esôfago. Bem, de acordo com o teste tenho alta probabilidade de ser intolerante à lactose. O que explicaria essa situação. Tolero bem o álcool e as gorduras não me afetam muito, mas é melhor não abusar das saturadas, recomendam. Ao mesmo tempo, dizem algo que eu já sabia: tenho uma tendência a comer coisas salgadas, mas não doces. E o amargo também me atrai.

Segundo o meu padrão genético, preciso de 18 miligramas diários de cafeína a menos que a média das pessoas para ficar desperta.

Não tenho predisposição genética para ter nenhuma das doenças que no momento são capazes de detectar. Um alívio!

O mais divertido chega na parte dos antepassados. Sou 99,1% europeia, 80,4% ibérica, 2% sarda, 4% francesa e 1% britânica. Para completar, tenho 0,2% de judia ashkenazi. Podemos traçar uma linha do tempo e ver como a mistura de nacionalidades acontece entre 1740 e 1830. Faz bastante sentido, se consideramos a invasão napoleônica e os diferentes confrontos da Inglaterra.

Destrinchando a origem das gerações.

Todo o tempo, eles aclaram que tudo o que descobrem é a título de orientação, e que podemos obter mais informações com eles ou com os médicos que recomendam. Por trás do 23andMe está Anne Wojcicki, ex-mulher de Sergey Brin (cofundador do Google) e irmã de Susan, a diretora-executiva do YouTube. Não é uma recém-chegada. Estudou biologia em Yale e trabalhou com fundos especializados em saúde. Fundou a empresa em 2006, mas o grande foco de atenção e o dinheiro dos investidores vieram em 2010, quando Brin contou que a mãe tinha Parkinson e que, após fazer o teste, descobriu que tinha predisposição genética para a doença. Ele, que tinha tentado botar ordem nas informações da internet com o Google, empreendia uma cruzada para investigar sobre a cura do Parkinson.

Para começar, dizem coisas que você já sabe... No meu caso, sei que consigo dobrar a língua, que tenho os olhos entre verde e castanho ou que aparecem covinhas quando sorrio

A apresentação dos resultados é lúdica. A mecânica de uso também tem ares de entretenimento. Mas, no fundo, pretende-se conhecer melhor as fraquezas da humanidade. A ambição dessa empresa é ter a base de dados mais ampla possível para poder estudar melhor os padrões usando inteligência artificial. Esquadrinhar de que forma, a partir das origens e da herança genética de cada um, podemos viver mais e melhor.

No final do teste, aparece uma opção em que você dá consentimento para encontrar parentes. Não tenho nenhum, mas isso condiz com a parte dos antepassados. Sou a primeira da minha estirpe a colocar um pé na América.

Se conseguir que meus pais ou minha avó também façam o teste, poderei saber ainda mais sobre meus ancestrais e possíveis fraquezas.

Se estivesse na Espanha, seria estranho encontrar com um amigo para comentar os resultados. Aqui é exatamente o contrário: “O quê? Você já fez? E o resultado?” Pois é: nunca alguns mililitros de saliva renderam tanto assunto.

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