Seleccione Edição
Entra no EL PAÍS
Login Não está cadastrado? Crie sua conta Assine

Ícone carioca, o Hotel Nacional de Niemeyer ressuscita após 22 anos

Empreendimento reabre sus portas no bairro nobre de São Conrado, após uma laboriosa restauração, e pretende disputar o mercado hoteleiro de luxo ampliado com a Olimpíada

O Hotel Nacional reabre suas portas no Rio.
O Hotel Nacional reabre suas portas no Rio.

Passaram-se 22 anos do seu último suspiro até o Hotel Nacional, projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, ressuscitar no Rio de Janeiro. O prédio, um dos raros grandes hotéis ideados pelo arquiteto que muito investiu no desenho de edifícios públicos, ficou tanto tempo aberto como fechado. Abandonado durante duas décadas, pixado pelo cantor Justin Bieber em uma agitada visita à cidade, e com obras de arte furtadas, pouco restava do brilho dessa joia arquitetônica carioca encravada no bairro nobre de São Conrado, entre a favela e o mar.

Fechado em 1995 e comprado novamente em 2009 por um grupo de investidores que pagou por ele 85 milhões de reais, o hotel acaba de reabrir suas portas sob a bandeira mais luxuosa do grupo espanhol Meliá. Nele, ainda não se hospedam estrelas do porte de Liza Minneli, Chet Baker, James Brown ou Tom Jobim, que tornaram o antigo Hotel Nacional um ícone, mas o objetivo é concorrer em luxo e clientela com os mais refinados hotéis do Rio, o Copacabana Palace e o Hotel Fasano. Por enquanto, Gisele Bündchen, sob a lente do fotógrafo Mario Testino, já prestigiou o local.

Com 413 quartos distribuídos em um gigantesco cilindro de 34 andares e uma única fachada de vidro, o hotel reabre com um desafio: recuperar o glamour perdido em um Brasil em recessão e em um mercado hoteleiro local que chegou à Olimpíada com mais de 50.000 vagas. A competência é voraz, badaladas redes hoteleiras recém instaladas na Barra de Tijuca, cenário principal dos Jogos, oferecem quartos a preços relativamente baixos e o mercado brasileiro está atropelando as expectativas dos empresários do setor. “No Réveillon a demanda nos hotéis do Rio foi menor da esperada, mas a gente tenta ver essa concorrência de uma maneira positiva. Rio está mais apto agora para receber um turismo de qualidade o que deve incentivar a cidade como destino. Os Jogos passaram uma imagem muito boa e isso ajuda em várias frentes no mercado internacional”, avalia o diretor do hotel, o italiano Cristian Bernardi. Abrindo aos poucos e com promoção especial, dormir uma noite no Grand Meliá Hotel Nacional custa 700 reais.

Das janelas do edifício é possível vislumbrar os vários Rios que convivem – às vezes harmonicamente, às vezes nem tanto – na cidade. Dependendo da orientação do quarto vê-se a praia de São Conrado e seus surfistas, a maré de esgoto cinza que nos dias de chuva toma o mar e suas correntes, a gigantesca favela da Rocinha, onde moram 30% dos funcionários do hotel, a Pedra da Gávea e a Pedra Bonita, cartões turísticos do Rio, e a Mata Atlântica que cresce selvagem por onde ainda permite o concreto das casas e prédios da vizinhança. Com chuva ou calor, o hotel garante, sempre haverá alguém limpando essas janelas, prezado tesouro de um hotel de planta circular.

A restauração seguiu ao máximo os preceitos de Oscar Niemeyer, que sempre privilegiou as curvas e os espaços diáfanos nas suas obras. O lobby é uma sala de 3.000 metros quadrados sem uma coluna e onde, tirando livros e umas lâmpadas retangulares de chão, não se encontra uma singela linha reta. “Por ser um projeto tombado foi solicitado que fosse mantida a visão que Niemeyer teria tido. Por isso há uma preocupação muito grande para não obstruir a vista, pela liberdade de visão e pelas curvas”, explica a arquiteta responsável pela recuperação do interior do hotel, Debora Aguiar.

A obra de papel machê de Pedro Corrêa de Araújo.
A obra de papel machê de Pedro Corrêa de Araújo.

Numa de suas paredes curva do lobby repousa impecável um painel de 168 peças de concreto do artista argentino-baiano Carybé, que havia sido leiloado irregularmente em 2007 a preço de banana, 1.200 reais. A obra, de valor incalculável, segundo a assessoria de imprensa do hotel, foi recuperada pelos investidores entre a poeira de uma tecelagem em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. “Estava praticamente destruída”, lembra Aguiar. Teve melhor sorte a escultura da sereia de bronze de Alfredo Ceschiatti, mesmo autor da escultura A Justiça na fachada do prédio do STF, desenhado por Niemeyer. A peça também foi leiloada irregularmente por 25.000 reais e foi parar, bem conservada, numa casa em Botafogo. Recuperada por ordem judicial, hoje preside a piscina de braços em alto e olhando para o mar. Já a lâmpada de papel machê de Pedro Corrêa de Araújo, que imita caudas de cerejas entrelaçadas, nunca saiu do teto do hall, mas o tempo tinha feito estragos no material. "Foi um absurdo manter abandonado um patrimônio desses durante tanto tempo", lamenta a arquiteta.

A estrutura sem pilares do lobby sustenta ainda o jardim de mais de 2.000 metros quadrados desenhado na época pelo renomado paisagista Burle Max, idealizador também do Parque do Flamengo. Com forma de cauda de sereia e ainda em recuperação, o jardim conta com 30 espécies autóctones e um espelho de água obscuro que remete ao mangue. “A recuperação do Hotel Nacional é um grande marco da vitalidade da hotelaria carioca assim como uma das maiores obras de restauração da arquitetura moderna no mundo”, relata Washington Fajardo, ex -presidente do Instituto Rio Patrimônio que acompanhou a obra de perto pois o prédio é um bem tombado desde 1998.

O hotel, inaugurado em 1972, era um orgulho nacional. Seu antigo centro de convenções, hoje também em reconstrução e com planos de sustentar uma nova torre contemplada no projeto de Neimeyer, acolhia eventos de prestígio, de seminários de doutores a engenheiros. Seus quartos hospedavam políticos como o então presidente Fernando Collor de Mello, e seu teatro era cenário do Festival de Cinema do Rio e do Free Jazz Festival, que levaram aos seus vestíbulos figurões como Ray Charles ou Pedro Almodóvar.

Imagem antiga da construção do Hotel Nacional.
Imagem antiga da construção do Hotel Nacional.

Apenas seis anos depois da sua inauguração, o dono do hotel e fundador do Grupo Horsa morreu deixando um império órfão. O argentino José Tjurs, que tinha começado sua carreira no Rio como taxista na praça Mauá e era elogiado por seu talento empresarial, delegou seus empreendimentos no seu único filho, Leo Henrique Tjurs, de quem sempre apontaram-se suas carências como bom gestor. Já nos anos 90, o próprio empreendimento alertava no Jornal do Commercio das dificuldades. Um anuncio aos investidores elencava a “inflação elevada” no cenário nacional e “a divulgação pela imprensa do nível de poluição das águas do Rio e o baixo nível de segurança” como as causas de ter se reduzido “bastante” a taxa de ocupação no primeiro trimestre de 1990. Após uma longa agonia, o Grupo Horsa acabou falindo em 1993.

Duas décadas de esquecimento depois, os quartos voltaram a cheirar a novo e os funcionários, de eletricistas a garçons, cumprimentam os primeiros hóspedes com a mão no peito, à altura coração. O gesto, característico dos melhores hotéis da rede espanhola, enjoa alguns mas, assim como o velho hotel, tem um objetivo: ser difícil de esquecer.