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“Ou almoço ou jantar”, a escolha dos servidores públicos do Rio

Sem ter o salário de novembro, 51% dos funcionários fazem malabarismos financeiros pra sobreviver

Henrique e Talita dependem do salário dele como técnico de enfermagem em um hospital estadual.

Talita Sampaio, de 34 anos, se emociona quando descreve os ajustes que está fazendo em casa para que seu filho, de cinco anos e com alergia alimentar, não perceba que há 65 dias não entra um real na conta. Esposa de Luis Henrique da Silva, servidor público e técnico de enfermagem num hospital estadual do Rio, ela resume em uma frase a situação que hoje vivem na sua casa de aluguel em Irajá, na zona norte da cidade: “Há dias que comemos pipoca para o jantar”.

Em uma crise financeira sem horizonte de resolução, o Governo do Estado do Rio de Janeiro pagou nesta quinta-feira a primeira (de 316 reais) das cinco parcelas nas quais dividiu o salário de novembro de 51% dos servidores públicos. São mais de 200.000 trabalhadores sem ter recebido seus rendimentos de novembro, dezembro e décimo terceiro. Nesta sexta-feira, foi depositada uma segunda parcela de 1.000 reais, no lugar dos apenas mais 342 reais previstos. É uma boa notícia numa dinâmica que funciona a conta gotas e de improviso, a expensas da arrecadação tributária e dos bloqueios judiciais das contas de última hora.

Nas circunstâncias atuais, pensar na remuneração de janeiro é um plano de longo prazo. Apenas os funcionários ativos da educação, os ativos e inativos da segurança pública, os da Procuradoria Geral do Estado e os da Secretaria da Fazenda, de Planejamento e Gestão receberam integralmente seus contracheques de novembro.

Talita e Henrique, que dependem integralmente dos 4.000 reais do salário dele, chegaram até a pedir uma cesta básica em uma campanha que os próprios servidores organizaram para aliviar as situações mais críticas dos colegas. “Nunca nos vimos, nem nos imaginamos numa situação assim. Com esse salário conseguimos tocar nossa vida, mas não sem receber!”, diz Henrique. O drama, às vezes, é pior e invisível: há quem nem solicitou as cestas básicas porque não tem dinheiro para a passagem até o centro da cidade.

No caso do casal, em dois meses perderam suas poupanças, venderam roupas e brinquedos do filho, se endividaram com o banco, atrasaram o aluguel e tiveram que pedir um crédito de 3.000 reais, com 5% de juros por mês. A primeira e minúscula parcela de novembro mal vai sair do banco. Talita, que não trabalha porque a criança precisa de cuidados especiais, cogita começar a procurar emprego. “Será ele que terá que cuidar do menino”, diz.

O Governo de Luiz Fernando Pezão (PMDB), com um rombo esperado no orçamento de 2017 de 19 bilhões de reais, não tem como tranquilizar seus funcionários. Sua fraqueza e falta de apoio político manifestou-se com o fracasso da aprovação de um pacote de 22 medidas anti-crise que cortava subsídios aos mais pobres, subia impostos e aumentava a contribuição previdenciária dos servidores para aumentar a receita em 28 bilhões de reais em 2017 e 2018. Protestos violentos nas ruas e a oposição dos deputados acabaram por frear praticamente todas as propostas, obrigando o governador a aplicar um plano B, que ele reconheceu não ter. A ajuda federal aos Estados em situação de calamidade financeira – Rio, Rio Grande do Sul (PMDB) e Minas Gerais (PT) –, vista por especialistas como parte do remédio, só virá com contrapartidas de ajuste, anunciou o presidente Michel Temer, e o Rio não conseguiu aprová-las.

Creusa Maia dos Santos, servidora aposentada de 56 anos.

Creusa Maia dos Santos, aposentada de 56 anos e mancando discretamente, conta as contrapartidas de não ter um centavo no bolso desde que não recebe sua pensão, o equivalente a um salário mínimo (937 reais). Na semana passada lhe cortaram a luz por falta de pagamento e todos seus remédios para a diabetes estragaram numa geladeira quente. Hoje estão na casa da vizinha a quem atrapalha a horas intempestivas para tomar sua medicação. “Me sinto humilhada. Ligam em casa todo dia para cobrar dívidas. Com meu salário eu conseguia pagar minhas coisinhas, mas hoje tenho que escolher entre almoço ou janta”, lamenta a ex-merendeira de Barra do Piraí, município do sul do Estado. “Eu estou doente, deveria me alimentar a cada três horas, entende? Há dois dias que estou chorando direto.”

Wancy Conceição Amaral, de 64 anos, mostra sua carteira com boletos a serem pagos como único conteúdo.

Na casa de outra pensionista, viúva de um servidor público desde 2011, não houve nem Natal. “Deu 9 da noite e eu fui dormir. Minha irmã me deu rabanadas, a vizinha umas castanhas e a síndica me deu uma cesta básica, mas não tinha nem como fazer ceia”, conta Wancy Conceição Amaral, de 64 anos, mostrando sua carteira com uns boletos a serem pagos como único conteúdo. Com o condomínio, dívidas contraídas pela doença do marido e as faturas vencidas, ela resolveu passear os cachorros das vizinhas do bairro do Catete, na zona sul da cidade. “Ganhei 500 reais com isso, foi minha única fonte de renda nesses dois meses”.

A situação pode chegar ao desespero quando os dois salários da família dependem das contas do Estado. Servidores públicos há mais de três décadas, Francisco Teixeira, de 67 anos, e Tânia Costa, de 51, são técnicos administrativos da Universidade Estadual do Rio e, sem receber desde novembro, se submeteram ao cheque especial. Mas tentar manter seu padrão de vida está saindo muito caro. “Devo 17.000 reais. É um dinheiro emprestado muito caro”, diz Francisco que pretende entrar na Justiça para cobrar do Estado o ressarcimento dos juros que está pagando por se endividar. “São muito altos, você fica agoniado”, lamenta. Para o casal, que vive no Grajaú, na zona norte da cidade, acabou a TV a cabo, o ar acondicionado, a carne, o contrato do celular, os almoços em casa com amigos... e começaram as negociações com o banco e as contas de luz, condomínio, gás e plano de saúde com um mês de atraso. “É estranho descrever o que sentimos, porque você não está desempregado, mas também não recebe. Me sinto péssima, deprimida, mas temos raiva, frustração, tristeza...”, resume Tânia. “Na minha carreira, vi dez governadores e nunca aconteceu algo assim”, complementa o marido. Na casa dos Teixeira, esse ano, também não houve ceia de Natal.

Na casa dos Teixeira, servidores públicos há mais de três décadas, esse ano, não houve ceia de Natal.

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