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Assim será a doce morte de ‘Rosetta’

A primeira sonda a orbitar um cometa se suicida nesta sexta durante uma manobra histórica

Nesta sexta-feira, dia 30 de setembro, a sonda Rosetta terá nos deixado para sempre. Esta nave um pouco maior do que uma geladeira fez história, ao lado de sua irmã Philae – são as primeiras a acompanhar um cometa em sua viagem para o Sol e aterrissar sobre ele. Agora, os engenheiros da Agência Espacial Europeia (ESA) preparam um último ato, “mais difícil ainda”: pousar Rosetta ao lado de uma fenda do cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko, onde poderia estar a chave para decifrar a origem da vida no Sistema Solar, emocionando todo mundo que a vir ao vivo.

“Será como atirar um dardo. Assim que a Rosetta ligar seus propulsores para pousar, não teremos nenhum controle sobre a nave”, diz Mark McCaughrean, assessor científico da Divisão de Ciência da ESA.

Esta noite, a nave executará a “manobra de colisão” para abandonar sua órbita e descer até as ameaçadoras escarpas do cometa. Será um caminho de 19 quilômetros nos quais avançará cerca de 80 centímetros por segundo, a velocidade de uma pessoa caminhando. É a forma de aproveitar ao máximo suas últimas horas de vida para coletar dados científicos, mas também para que não se perca para sempre. Devido à ínfima gravidade do 67P, “basta saltar quatro centímetros” para sair disparada na imensidão do espaço a partir da superfície, comenta McCaughrean, que recentemente visitou Madri para dar uma palestra na Fundação BBVA.

A nave deve pousar em um lugar chamado de Deir-el-Medina, um poço de 150 metros de diâmetro, mas sem cair nele. “Há bastante incerteza, por hora o que sabemos é que aterrissaremos dentro de uma área de cerca de 700 metros por 500”, detalha o cientista da ESA. No dia da colisão se saberá o lugar de aterrissagem com uma margem de poucos metros e também a hora quase exata em que Rosetta viverá seu instante final.

“Ontem à noite [anteontem] fizemos um último teste de toda a sequência e tudo parece estar bem”, explica Raymond Hoofs, assessor de operações científicas da ESA e um dos encarregados de criar a programação que guia a nave até sua morte. Esses comandos são logo enviados ao centro de controle em Darmstadt, Alemanha, de onde são enviados à Rosetta. Hoofs diz que há muitas probabilidades de sucesso, mas não tantas quanto alguns acreditam. “Na última vez fomos tão precisos com a aterrissagem da Philae [a sonda que viajava com Rosetta] que todo mundo está muito confiante, mas desta vez é mais difícil.” Tudo depende, diz, de que a manobra com o propulsor esta noite seja perfeita.

UMA ADORÁVEL CAIXA DE CABOS

“É incrível os sentimentos que uma caixa cheia de equipamentos eletrônicos perdida em um cometa pode gerar”, diz Mark McCaughrean. A missão Rosetta representou um antes e um depois para a ESA não só pela ciência, mas pela imensa popularidade que obteve na mídia e nas redes sociais. Deve-se à grande campanha de comunicação que foi narrando os detalhes da missão com desenhos animados, mas contando “os fatos tal como são, porque não somos a Disney”, ressalta o cientista, que comandou a equipe encarregada da campanha. A chave, diz, foi humanizar as sondas robóticas. “Tivemos sucesso porque construímos uma história em volta, as duas irmãs que falam e de repente uma delas se desliga e morre, o que causou enorme reação de pessoas tristes no Twitter”, relembra.

Nenhuma nave jamais esteve tão perto de um cometa e conseguiu retardar sua queda com tanta precisão. “Até agora o mais próximo que chegamos do 67P são uns 2 quilômetros, mas, quando se está a 50 metros, há muito mais gás e pó e, se houver algo estranho ou diferente nesse material, possivelmente o veremos”, afirma McCaughrean. Ele se refere a moléculas orgânicas como aminoácidos, que são a base das proteínas, e outros compostos básicos do DNA, a molécula fundamental para todas as formas de vida conhecida.

Os cometas são como um fondant explosivo, recobertos de pó e cheios de gelo e outros compostos. Quando se aproximam do Sol, a água gelada evapora e sai violentamente para a superfície, deixando uma cola característica. O pó da superfície colapsa e deixa a descoberto parte do recheio do cometa. Os responsáveis pela missão viram que o interior da fossa Deir-el-Medina está coberto de elevações feitas de um material que “permaneceu mais ou menos intacto desde as origens do Sistema Solar”, há 4,5 bilhões de anos. Na Terra, por exemplo, a superfície mudou muito com o movimento tectônico das placas e os vulcões. Quando o planeta ainda era muito jovem, o calor da formação era tão forte que a superfície era só lava e não havia matéria orgânica nem água. Como apareceram então?

O Sistema Solar mudou radicalmente cerca de 500 milhões de anos depois de nascer. Já existiam os planetas que conhecemos, mas se movimentaram bruscamente porque suas respectivas forças gravitacionais se repeliam. Quando Urano e Netuno migraram para o exterior, originaram um enorme caos. Os corpos celestes menores, como cometas e asteroides, se descontrolaram e começaram a se chocar com tudo. “Nessa época a Terra já estava mais fria, então a água e as moléculas orgânicas que chegaram em uma colisão podiam sobreviver na superfície”, comenta McCaughrean. A teoria mais aceita, diz, é a de que provavelmente a água da Terra tenha chegado graças a impactos de asteroides. E os compostos orgânicos originais, a bordo de cometas como o 67P. Amanhã, “pode ser que a Rosetta aterrisse junto à própria fonte da origem da vida”, ressalta.

“Será como atirar um dardo. Assim que a Rosetta ligar seus propulsores para pousar não teremos nenhum controle sobre a nave

Amanhã, por volta das 5 horas da manhã no Brasil, os engenheiros da ESA enviarão suas últimas ordens para Rosetta. Trata-se de um software que a obriga a desligar-se para sempre quando seus sensores notarem que aterrissou. “Não gosto de chamar de missão suicida, apesar de eu mesmo ter armado a confusão porque falei assim para algum jornalista”, confessa McCaughrean. “Melhor dizendo, será uma morte tranquila”, brinca.

Não era possível deixar a nave em hibernação sobre o 67P porque as normativas de comunicação espacial o proíbem para evitar interferências na estreita banda de frequências compartilhadas por todas as missões espaciais. E se a nave fosse abandonada orbitando em volta do 67P poderia se perder para sempre sem energia em seus painéis solares. A opção escolhida é, portanto, a única que permite “fazer ciência” até o último momento. Na verdade, diz McCaughrean, obcecado por escolher as palavras adequadas para o grande final, “não a estamos matando, só escolhemos fazer algo assustador antes de seu final”.

A sonda enviará imagens durante toda a sua descida, até três por minuto, que permitirão retratar como nunca a região de fendas ativas de um cometa. Durante as três últimas horas todos os dados serão recebidos com a antena de espaço profundo da NASA no município madrilenho de Robledo de Chavela, ressalta Hoofs.

“As melhores fotos serão de cerca de 100 a 50 metros de altura”, explica. “A última talvez seja só a superfície borrada do cometa rodeada de escuridão; não será a melhor, mas a mais simbólica”, afirma.

Devido ao atraso dos sinais, o fim da missão será confirmado 40 minutos depois que o impacto tenha ocorrido, em torno das 8h20, horário de Brasília. Espera-se que as últimas imagens da Rosetta sejam transmitidas cerca de 15 minutos depois.

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