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Sonda ‘Rosetta’ terá sete horas de queda livre até atingir solo de cometa

A descida do módulo europeu ‘Philae’ é uma manobra de alto risco que nunca foi testada

Ilustração compara o tamanho do cometa com a cidade de Los Angeles.
Ilustração compara o tamanho do cometa com a cidade de Los Angeles.

Às 4h35, no horário de Brasília, do dia 12 de novembro, começará uma nova e arriscada aventura da história da exploração espacial: o módulo Philae se separará nesse momento da sonda Rosetta, que está dando voltas ao redor do cometa 67PChuryumov-Gerasimenko, e iniciará uma descida em queda livre de sete horas até chegar ao solo do núcleo do cometa.

Uma manobra desse porte nunca foi tentada e as experiências de descidas de robôs adquiridas em Marte, e até mesmo na lua Titã de Saturno, não servem como exemplo. Isso porque, o pequeno núcleo do cometa, diferentemente desses objetos do Sistema Solar visitados ‘in situ’ por artefatos terrestres, quase não tem gravidade, dizem os especialistas da Agência Europeia do Espaço (ESA), que calcularam a operação milimetricamente. E será feita a 450 milhões de quilômetros da Terra, em um objeto do Sistema Solar que está agora entre as órbitas de Júpiter e Marte.

Começamos as operações científicas da Rosetta em 7 de maio, quando a sonda começou a se aproximar do cometa [chegou em 6 de agosto]”, disse Matt Taylor, responsável científico da missão. O núcleo do cometa tem um volume de 25 quilômetros cúbicos e está “predominantemente” coberto de poeira. “A temperatura média ali é de 70 graus centígrados abaixo de zero, com picos de até 40 graus abaixo de zero, e verte 200 mililitros de água por segundo”, comentou o cientista.

A cauda -- a formação de gás e poeira que ocorre quando o objeto se aproxima do Sol --, já mede 19.000 quilômetros de comprimento. Quanto à composição, “o odor do cometa é de enxofre, amoníaco, metano e álcool”, resume Taylor. Os instrumentos científicos da Rosetta continuarão recolhendo dados à medida que o 67P/ Churyumov-Gerasimenko continuar viajando na direção da estrela (sua aproximação máxima será no próximo verão) e a missão, a princípio, terminará em dezembro de 2015.

A 'Philae' pesava cem quilos na Terra, que não serão mais do que 10 grãos no cometa, devido à escassa atração gravitacional

A nave Rosetta, com 11 instrumentos científicos a bordo, mais o módulo de descida, partiu da Terra em março de 2004 e percorreu 6,4 bilhões de quilômetros (parte deles em hibernação) até seu encontro com o cometa. Da missão, com um custo de 1,3 bilhões de euros (4,1 bilhões de reais), participam várias equipes científicas espanholas e cinco empresas do setor.

“O Philae se separará da Rosetta com uma velocidade de 18 centímetros por segundo, que será de 95 centímetros por segundo no momento do contato com a superfície do cometa”, explicou na manhã de quinta-feira Laurence O'Rourke, coordenador de operações científicas da missão no ESAC, o centro da ESA em Madri. O Philae se comunicará com a Rosetta e essa enviará toda a informação para a Terra. Os sinais, viajando à velocidade da luz, demorarão 28 minutos e 20 segundos para chegar nas antenas de recepção, explicou o especialista.

Dessa forma, o horário dos acontecimentos em 12 de novembro terá os picos de emoção no centro de controle por volta das 5h03, horário de Brasília, quando deverá chegar o sinal indicando a separação correta do módulo meia hora antes, e às 12h, horário de Brasília, quanto chegará o primeiro dado do contato com o solo. Enquanto isso, irão chegando dados sobre como executar a sequência de descida e as informações – com fotos – que os vários instrumentos forem recolhendo sobre gravidade, campo magnético, poeira e plasma.

“O lugar escolhido para a aterrissagem, nomeado J, está na cabeça do cometa e o reserva, C, no corpo”, disse O'Rourke. O surpreendente formato do 67P/ Churyumov-Gerasimenko, desconhecido até a chegada da sonda espacial europeia, lembra aos cientistas um pato de borracha com dois lóbulos juntos, um batizado de corpo e outro de cabeça. O núcleo do cometa mede por volta de quatro quilômetros de diâmetro máximo. A Rosetta dará um leve impulso para a sonda de descida (ao desenroscar uma espécie de parafuso e, se esse método não funcionar, com uma mola que se soltará por meio de dispositivos pirotécnicos) quando estiver a 22,5 quilômetros da superfície do cometa.

O ponto J tem boa iluminação, é uma superfície mais ou menos plana e tem características interessantes para os cientistas. Mas ainda que seja o melhor lugar, não está isento de riscos: podem existir rochas (blocos de gelo ou poeira), ou uma excessiva inclinação em algum ponto, mostra O'Rourke. Como o 67P/ Churyumov-Gerasimenko tem tão pouca gravidade, os engenheiros tiveram de colocar no Philae dispositivos para agarrar o solo do cometa, já que caso contrário, ricochetearia e sairia novamente, sem controle, para o espaço: garras nos pés abertos da sonda devem garantir o agarre imediato, ajudadas por um propulsor na parte superior do módulo, que o empurrará contra o solo.

A Philae se separará da Rosetta com uma velocidade de 18 centímetros por segundo

O Philae mede 0,85x0,85 metros de largura, 1,3 metros de altura e 1,46 de comprimento com os pés abertos, e pesava cem quilos na Terra, que não serão mais de 10 gramas no cometa devido à escassa atração gravitacional, disseram os cientistas da ESAC. Se ocorrer tudo bem, o módulo de descida pode funcionar até três meses recolhendo imagens e dados da composição do solo (leva inclusive uma broca para perfurar até 20 centímetros de profundidade e recolher amostras) e explorando as propriedades da superfície e a sub-superfície. “Esperávamos ser um local com muito gelo, mas na realidade é um local coberto com muita poeira”, declarou O'Rourke.

Os instrumentos a bordo poderão buscar aminoácidos, que não seriam um indicador direto de vida, mas sim de um entorno propício, comenta sobre a missão outro cientista, Nicolas Altobelli. Isso poderia ajudar a desfazer dúvidas a respeito da hipótese que coloca os cometas como veículos nos quais a vida poderia viajar no Sistema Solar e nos quais ela poderia ter chegado na Terra.

A nave Rosetta está agora dando voltas em torno do cometa, a oito quilômetros de distância da superfície e completando uma volta completa a cada quatro dias. Quando estiver a 30 quilômetros, faltarão duas semanas, explicaram os especialistas da ESAC. Um total de 25 engenheiros e físicos se ocupam da operação científica da missão (76 pessoas no total nos diferentes centros europeus envolvidos), disse Miguel Pérez de Ayúcar, cientista da Rosetta.