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A arma secreta dos Estados Unidos na corrida espacial

Hollywood conta a história das mulheres negras que ajudaram a humanidade a chegar à Lua

A matemática Katherine Johnson na NASA.
A matemática Katherine Johnson na NASA. NASA

Quando o presidente Barack Obama mencionou num discurso no ano passado que as mulheres negras haviam participado de todos os grandes momentos da história do seu país, a primeira coisa que veio à mente de muita gente foram os movimentos pelos direitos civis, a igualdade salarial das mulheres e o sufrágio feminino. Poucos pensaram na chegada do homem à Lua. Mas é isso que o filme Hidden Figures (figuras ocultas) pretende mostrar. Baseado no livro homônimo, o longa conta a história de três cientistas afro-americanas que trabalharam para o programa espacial da NASA nos anos cinquenta e sessenta.

Uma delas, a matemática Katherine Johnson, foi a responsável por calcular a trajetória da viagem que fez de Alan Shepard o primeiro norte-americano a viajar ao espaço, em 1961, e, um ano depois, da que levou John Glenn a ser o primeiro homem a entrar na órbita da Terra. Naquela década, Johnson também colaborou com as diversas missões Apollo que deixaram a pegada humana na Lua.

Johnson, junto com Mary Jackson e Dorothy Vaughan, pertencia ao grupo de matemáticas, apelidadas de computadores, especializadas em fazer os cálculos essenciais para todas as operações espaciais. Interpretadas respectivamente por Taraji P. Henson (ganhadora de um Globo de Ouro por sua atuação na série Empire), pela cantora Janelle Monáe e por Octavia Spencer (melhor atriz de 2012 por The Help), as cientistas podem entrar, décadas depois, em outra corrida: a do Oscar de 2017.

Protagonistas de um filme de Hollywood, as três matemáticas eram até agora apenas coadjuvantes nos livros de história. Johnson, 97 anos, aprendeu a ler aos 4 e com 15 entrou na universidade. Formou-se três anos depois, mas suas opções profissionais estavam limitadas pelas leis de segregação racial da época. “Na época eu só podia ser professora ou enfermeira”, recordou numa entrevista. Mas ela acabou superando todas as barreiras profissionais, raciais e de gênero que poderiam ter impedido seu avanço. Sua entrada na NASA coincidiu com a abertura da agência a postos de trabalho para mulheres, pela escassez de engenheiros após a Segunda Guerra Mundial.

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“Sempre que temos uma oportunidade de progredir decidem mexer na linha de chegada”, diz no filme a personagem Mary Jackson, outra dos computadores. A trajetória das três mulheres é um relato do caminho percorrido desde então pelos EUA. Na Virgínia, onde ficava a sede da NASA, vigoravam as leis segregacionistas de Jim Crow. O filme recorda um incidente em que as três mulheres são paradas na estrada pela polícia quando iam para o trabalho, e o agente não acredita que a NASA contrate mulheres negras. Em outra, Johnson é confundida com a faxineira ao entrar na sala de engenheiros.

Jackson trabalhou inicialmente como matemática, mas depois atuou como engenheira aeroespacial, nas experiências com túnel de vento e simuladores de voo da NASA. Vaughan, outra professora de matemática que acabaria dirigindo a equipe, permaneceu na ativa até a década de 1970. Foi a supervisora que recomendou a Johnson que entrasse para a divisão aeroespacial.

As três representam a intercessão, num momento histórico para o seu país, dos movimentos pelos direitos civis das minorias raciais e pela igualdade das mulheres, no marco da Guerra Fria e da corrida espacial contra Moscou. Em 2015, Obama concedeu a Johnson a Medalha Presidencial da Liberdade, maior condecoração civil do país, destacando a contribuição de dezenas de mulheres que, como ela, ajudaram os Estados Unidos a vencerem o desafio de enviar ao primeiro ser humano ao espaço.

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