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Polícia sufoca manifestação do MPL contra alta da tarifa em São Paulo

Marcha nem chegou a sair da concentração quando foi reprimida por bombas de gás lacrimogêneo lançadas pela PM. Mais de 20 ficaram feridos, incluindo jornalistas

Manifestação MPL em São Paulo
Manifestantes correm das bombas atiradas pela polícia. AFP

A segunda manifestação do ano contra o reajuste da tarifa do transporte público em São Paulo, que subiu de 3,50 para 3,80 reais no sábado, foi literalmente sufocada nesta terça-feira pela Polícia Militar, sob comando do Governo Geraldo Alckmin (PSDB). Após os manifestantes se recusarem a seguir rota determinada pela PM, os soldados, que já cercavam a concentração de ativistas, utilizaram dezenas de bombas de gás lacrimogêneo contra os manifestantes convocados pelo Movimento Passe Livre. Mais de 20 pessoas ficaram feridas e ao menos oito foram detidas.

O tumulto foi iniciado antes mesmo da marcha sair. A concentração do ato foi na Praça do Ciclista, no encontro da avenida Paulista com a rua da Consolação. Ali, a Polícia Militar e policiais da Tropa de Choque fizeram um isolamento da área, permitindo a entrada somente pela rua da Consolação, por uma pequena passagem. Todo o resto dos acessos estavam bloqueados pela polícia. Nem mesmo a imprensa era autorizada a passar. As ruas adjacentes também estavam bloqueadas. Todas as possíveis rotas de fuga tinham cordões de policiais. Os sinais do que poderia acontecer na sequência já estavam claros.

A Secretaria de Segurança Pública havia determinado que a manifestação deveria descer pela rua da Consolação em direção ao centro da cidade. Por isso, fechou as vias ao redor do local. Os manifestantes, porém, queriam seguir para o Largo da Batata, na direção oposta à decidida pela Polícia Militar. Era uma questão de tempo - e pouco tempo - para que a PM reagisse. Os adeptos da tática black bloc, que sempre ficam na dianteira dos atos, tentaram romper o cordão de isolamento da Polícia, que reagiu prontamente jogando diversas bombas de gás em direção aos manifestantes. Encurralados na área entre a Paulista, a Consolação e a Bela Cintra, não conseguiam fugir das bombas, enquanto diversos jornalistas foram impedidos, pelo cordão policial, de entrar no local e registrar os abusos.

A reportagem presenciou bombas sendo jogadas da sacada de um prédio na esquina da Paulista com a Consolação. Também foram arremessadas bombas em direção aos repórteres, fotógrafos e cinegrafistas. Ao menos uma repórter da TV Gazeta foi ferida, além de mais três fotógrafos.

Guiados pela resistência, parte dos militantes decidiram descer a rua da Consolação depois que as bombas cessaram na região. Chegaram até a altura do cemitério da Consolação gritando "sem violência", pedindo pela tarifa zero e pelo fim da Polícia Militar. Decidiram então entrar à esquerda, em direção ao bairro de Higienópolis, zona nobre da cidade. Ali, o Batalhão de Choque reprimiu mais uma vez os manifestantes, em um jogo de gato e rato atrás de quem sobrara. Diversos sacos de lixo foram espalhados pelas ruas por manifestantes, na tentativa de formar barricadas. A essa altura, o ato já estava completamente disperso.

Manifestante ferido é atendido pelo Grupo de Apoio ao Protesto Popular (GAPP).
Manifestante ferido é atendido pelo Grupo de Apoio ao Protesto Popular (GAPP). REUTERS

Segundo o Grupo de Apoio ao Protesto Popular (GAPP), ao menos 24 pessoas ficaram com ferimentos graves e foram atendidas ainda nas ruas pelos ativistas do Grupo. Ao menos 25 pessoas foram encaminhadas ao Hospital das Clínicas e três foram para a Santa Casa. O estudante de arquitetura Gustavo Camargo, 19, foi gravemente ferido por um estilhaço de bomba, enquanto estava encurralado na avenida Paulista. Ele teve uma fratura exposta e quebrou alguns ossos de um dos dedos da mão direita. Não se sabe ainda se vai recuperar os movimentos. A mãe do estudante, a advogada Ana Amélia Mascarenhas Camargo afirmou que o médico disse à família que "trata-se de um ferimento típico de um estilhaço de bomba", e que "com certeza processaremos o Estado". Gustavo foi atendido no hospital Albert Einstein.

"Necessidade de dispersão"

Ainda enquanto a polícia corria atrás de manifestantes pelo centro da cidade, o secretário de Segurança Pública, Alexandre Moraes, convocou uma entrevista coletiva para apresentar o balanço da ação. Afirmou que ao menos oito pessoas foram detidas, além das quatro que já estavam presas, uma desde sexta-feira da semana, e outras três desde ontem, mas ele não as mencionou na coletiva. Segundo Moraes, a "necessidade de dispersão" ocorreu porque os manifestantes tentaram romper o cordão de isolamento da Polícia.

"Não é possível que os manifestantes queiram livremente bagunçar a cidade toda", afirmou Moraes. Segundo ele, a polícia usará essa "estratégia" em todas as manifestações cujo roteiro não for apresentado previamente às autoridades. "Chamamos diversas vezes o MPL para conversar e eles não vieram", disse. "Pedimos que eles comuniquem por ofício o traçado, se não quiserem se reunir [com a secretaria de Segurança]".

Segundo Moraes, a "Constituição demanda isso [comunicar o roteiro de uma manifestação previamente]". Ele diz que não houve abuso da polícia em relação aos manifestantes. "Houve a necessidade da utilização do uso progressivo da força porque tentaram romper o cordão", disse.

Sobre ação da PM em relação à imprensa, Moraes afirmou que "a recomendação é garantir a liberdade de imprensa. Se houver abuso e comprovação do abuso, será apurado". Antes do ato começar, ao menos um fotógrafo e um repórter foi revistado pela Polícia, mesmo estando credenciado. Teve seus equipamentos revistados e suas credenciais fotografadas. O fotógrafo André Lucas Almeida foi obrigado a entregar seu cartão de visita para um PM.

Uma agência da Caixa e parte do Instituto Cervantes, na avenida Paulista, foram alvos de ação depredatória.

Novos atos

Dois novos atos já estão marcados para esta semana. Serão na quinta-feira, com concentração no Largo da Batata, na zona oeste da cidade, e no Theatro Municipal, no centro. A reportagem apurou que o MPL ainda deve discutir internamente se os roteiros das marchas serão enviados previamente à secretaria de Segurança.

Os atos do MPL costumam ter seus roteiros decididos na hora, por meio de uma assembleia com os manifestantes. Foi isso o que ocorreu nas manifestações do ano passado. Neste ano, porém, no primeiro ato, na sexta-feira já não houve assembleia, assim como a marcha desta terça, onde um jogral foi realizado apenas para afirmar que o ato iria para o Largo da Batata. Além de convocar atos de rua, o MPL resolveu endurecer e ampliar as táticas de mobilização neste ano, incluindo o bloqueio temporário de terminais e de vias.

O reajuste da passagens, em plena recessão e a apenas meses das eleições municipais, é visto como "suicídio eleitoral" até no entorno do prefeito Fernando Haddad (PT), que deve buscar a reeleição e diz que o aumento é inevitável dada a situação das contas da Prefeitura de São Paulo. No início da tarde, a Prefeitura publicou uma nota solicitando a mediação do Ministério Público para "garantir" que a manifestação desta terça ocorresse sem violência. O secretário municipal de Direitos Humanos, Eduardo Suplicy, e o controlador-geral do município, Roberto Porto, fizeram um requerimento de mediação ao Ministério Público.

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