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Família vende ‘tempo livre’ em campanha para pagar a escola do filho

Casal recorre a financiamento coletivo e cria cardápio de serviços em troca de doações

Carol e Thiago, com Pipe (ao centro), com o caçula, Raul.
Carol e Thiago, com Pipe (ao centro), com o caçula, Raul.

Felipe, que completa 6 anos em janeiro, não era feliz na escola em que estudava. Nem seus pais estavam satisfeitos. Num modelo “tradicional” de educação, não viam como o filho poderia se tornar o cidadão que esperam que ele seja um dia: crítico, questionador e comprometido com causas sociais. Há alguns meses, a busca pela “escola ideal” finalmente chegou ao fim, mas o encontro coincidiu com uma mudança drástica no orçamento da família, que decidiu recorrer à criatividade para não abrir mão da escolha feita. Para que o Pipe possa estudar em 2016 onde a família quer, a mãe, Carolina Beltrão, e o padrasto, Thiago Klein (com quem Carol tem o filho caçula, Raul), deram início à campanha de financiamento coletivo que busca arrecadar 17.110 reais para bancar um ano de escola.

Mas o crowdfunding não pede simplesmente doações: em troca da contribuição em dinheiro, o casal oferece um cardápio de serviços que tem como ingrediente principal algo que falta a muitas pessoas: tempo livre, seja para passear com os cachorros, para montar uma horta em casa, para fazer uma hamburgada no jantar ou para ensinar violão para os filhos, por exemplo. Os preços dos serviços vão de 10 a 700 reais e há várias opções disponíveis.

“A gente começou a colocar no papel ideias do que poderia oferecer pra levantar a grana de um ano da escola do Pipe. Aí pensamos: ‘a gente sabe fazer tanta coisa além do nosso trabalho, e se oferecêssemos serviços que os nossos amigos possam se interessar?’. Por exemplo, a gente adora cachorro e mora numa casa, podemos ser petsitter [babá para animais de estimação] por um tempo. Assim, a gente não estaria pedindo nada e a pessoa pagaria por um serviço sabendo que tem uma causa por trás”, explicou Carol ao EL PAÍS.

A escola dos sonhos da família é a Politeia, uma instituição denominada democrática de ensino fundamental em São Paulo que atende a poucos alunos e cuja mensalidade para o ano é de pouco mais de mil e quatrocentos reais. Pipe estuda lá desde setembro (na ocasião, o valor da mensalidade saiu pelo mesmo que a escola anterior) e, em um vídeo no site da campanha, Carol e Klein explicam os motivos que os levaram a escolher o local, bem como as razões que os motivaram a buscar o financiamento coletivo para pagar a anuidade de 2016 e mantê-lo na escola. Um deles é que a troca de escolas coincidiu com uma mudança na carreira da mãe, que largou a publicidade para se dedicar ao trabalho de doula, dando suporte a gestantes e bebês. “Eu sentia que não estava fazendo nenhum bem para o mundo e não conseguia mais levar aquela vida. Fiz o curso de doula e me encantei”, conta.

Tanto o filho quanto a mãe estão mais felizes hoje: ele “se apaixonou” pela escola atual e ela se encontrou na nova profissão, muito mais próxima da sua formação acadêmica, que é serviço social. Mas o impacto da mudança no orçamento foi grande: o trabalho de Carol ainda não rende uma remuneração fixa e, assim, é o salário de Klein, que trabalha como publicitário (e é o responsável pelos serviços “verdes” do site, como a plantação de hortas em casa e em caixas) que sustenta a família —que há um ano e nove meses ganhou também um novo integrante, Raul, que ainda não frequenta a escola.

Alguns dos serviços que a família oferece. ampliar foto
Alguns dos serviços que a família oferece.

“O foco é este ano porque a ideia é que em 2016 a gente consiga se organizar, que eu esteja numa atuação como doula mais estável… A gente não vai depender do financiamento coletivo pra sempre. Mas é uma opção pra dar um start, deixar a escola paga por um ano e colocar ordem na casa”, explica Carol. O casal explica ainda que terá 10% de desconto na instituição de ensino por ter optado por pagar uma anuidade, mas que não achava justo pedir um desconto maior que os demais alunos, outra justificativa para a iniciativa.

O site entrou no ar no dia 2 de dezembro de 2015 e, até o final do mês, já havia arrecadado quase 50% da meta. A escola foi avisada sobre a campanha desde o início e o casal explica que Pipe também foi envolvido no processo —entusiasmado com a ideia, ele até se ofereceu para ensinar futebol para outras crianças, mas o serviço não está disponível. Agora, a família ainda estuda o que fazer caso o valor total não seja atingido até o início das aulas, em fevereiro, mas já considera um sucesso a forma como a iniciativa foi recebida por amigos e desconhecidos.

“A gente botou o site no ar com muito medo, esperávamos muito o julgamento das pessoas. Mas muita gente que nem nos conhece nos ajudou, abraçou a causa, entendeu que era importante pra gente poder escolher o modelo de educação que a gente quer pros nossos filhos. Se a escola pudesse ser paga com amor, ele já estaria com o fundamental inteiro pago. Então, pra nós, isso já foi 100% de aproveitamento”.

Pipe com a família, que colocou serviços a venda, como aulas de violão, para arrecadar verba para a escola.
Pipe com a família, que colocou serviços a venda, como aulas de violão, para arrecadar verba para a escola.

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