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Você acha justo o preço que paga pelo cafezinho?

Como diversas iniciativas desafiam os modelos tradicionais de economia

Carol Gutierrez, do Preto Café, em São Paulo.

Ir à padaria pela manhã e pedir um café e um pão na chapa pode ser uma atitude desafiadora. Tomar todos os dias o tradicional café da manhã brasileiro, em um momento em que as coisas estão cada vez mais caras, é um ato capaz de deixar muita balança – e não é aquela balança que a gente tem no banheiro de casa - em déficit no final do mês.

O ato de questionar o preço do cafezinho em São Paulo fez com que Carol Gutierrez, Francele Cocco, Lucas Pretti e Maurício Alcântara se associassem para pensar em um novo formato de negócio: Um lugar onde você paga o quanto achar que deve pagar pelo que consome. Assim funciona o Preto Café, uma associação sem fins lucrativos para que “as pessoas reflitam sobre o quanto custa o que elas consomem”, segundo Maurício Alcântara.

O Preto Café foi inspirado no Curto Café, a versão carioca do negócio. Instalado em um coworking no bairro de Pinheiros, o Preto Café tem quase tudo o que um café convencional tem: mesas, cadeiras, decoração descolada. Mas a lousa na parede com a descrição de custos como aluguel, luz, impostos e, claro, o café, e as xícaras sem jogo – todas foram doadas, por isso, não há uma padronização das louças – dão uma pista de que ali funciona algo diferente.

Não há um cardápio. No balcão, algumas quiches, bolos e outros quitutes. Não há garçons. Quem toca o negócio são os próprios sócios. Não existe caixa. Para pagar, é preciso deixar o dinheiro dentro de um pequeno aquário de vidro, ou passar seu cartão na máquina que fica ao lado. E você deixa ali o quanto quiser. “Pagar o quanto quiser é uma provocação sobre o custo de vida em São Paulo”, diz Maurício.

A professora de história Fátima Mazarão partiu do mesmo princípio que o Preto Café para abrir a Ecozinha, em Curitiba. Também instalada em um coworking, ela e o namorado, Luciano Vaini, realizam almoços semanais, onde as pessoas pagam o quanto querem pela refeição. “Os custos são abertos e as pessoas contribuem com margem nesses custos”, conta Fátima. “Não é o preço da comida, é a ideia de valor de refeição, tudo o que fazemos é natural, artesanal e orgânico. E é preciso fazer reserva antecipada, para que não tenha desperdício de comida”.

No cardápio desta semana, lasanha de berinjela com abobrinha e queijo tofupiry (uma derivação do queijo Catupiry, só que feito de tofu, queijo a base de soja), arroz com nozes, mix de folhas, salada de lentilha e mousse de chocolate com base de abacate, já que a comida é vegana. Segundo Fátima, em média, cada pessoa deixa entre 18 e 20 reais. “Esse valor cobre os custos, paga os insumos e já nos permite ter um caixa”, diz.

O Instituto Chão, em São Paulo, trabalha um pouco com a mesma lógica do deixe o quanto quiser. Criado com a ideia inicial de ser um espaço de convivência, o local foi inaugurado em maio, mas logo mudou de direção. “Quando abrimos, as pessoas vinham até aqui procurar alimentos orgânicos”, conta um dos seis sócios, Fábio Mendes. “Detectando essa demanda reprimida e passamos a vender esses tipos de alimentos. Mas não era essa a ideia inicial”. O grande quadro negro com a descrição dos custos parece ser o selo de transparência desses lugares, já que todos têm um.

No Instituto Chão os alimentos são vendidos pelo custo do produtor – um feito e tanto para os que buscam comprar alimentos sem agrotóxicos e não querem gastar uma fortuna por isso. Chegando no caixa, o cliente deixa, além do valor da conta, o quanto quiser de contribuição. "Partimos um pouco do princípio da economia solidária. Não lucramos aqui", diz Fábio.

Em pouco tempo, a notícia se espalhou e o local passou a ser super procurado. E na lógica do Chão, quanto mais gente compra, mais baixos os preços ficam. “O café, quando abrimos, custava 1,50. Hoje já custa 1,30”, conta Fabio. O mesmo vale para a cenoura, a alface, a laranja e a maçã. Fábio afirma que apenas 3% das terras brasileiras são destinadas a plantações de alimentos orgânicos. A procura é grande, e a oferta é pequena. Por isso, os preços são altos. “Imagina se fosse o contrário?”, diz. “Muita gente vem aqui achando que a gente quer promover a alimentação saudável. Na verdade, a gente quer mesmo é promover a reforma agrária”.

O Instituto é aberto às novas ideias. Quinzenalmente, alguns assentamentos de trabalhadores sem terra realizam uma feira com seus produtos ali. Mensalmente, há uma reunião em que todos que deixam seu e-mail na ficha cadastral são convidados. “Buscamos a forma mais disforme possível”, diz Fábio.

Para Alexandre Teixeira, jornalista e autor dos livros Felicidade S.A e De dentro pra fora – Como uma geração de ativistas está injetando propósito nos negócios e reinventando o capitalismo (Ambos da editora Arquipélago), essas novas formas de economia surgem, basicamente, de dois questionamentos. “Por um lado, as pessoas acham que o modelo de economia tradicional está errado”, diz, “e, por outro, há um questionamento do próprio trabalho”.

A busca por um propósito no trabalho é, na maioria dos casos, a maior responsável pelo surgimento de novas iniciativas. “Todo mundo estava nesse momento de insatisfação com o trabalho", diz Maurício Alcântara, do Preto Café. "Por isso, abrimos o Preto também com a ideia de termos tempo livre para podermos nos dedicarmos a outras atividades também”. O Instituo Chão, como outro exemplo, nasceu em um hospital psiquiátrico. Lá, parte dos hoje sócios do Chão trabalhava, e surgiu a ideia de transformar o local em uma associação sem fins lucrativos. "Fizemos o estatuto, mas acabou não dando certo", diz Fábio Mendes. "Quatro anos depois, abrimos o Chão".

Buscar um propósito, porém, não significa, necessariamente, não ganhar dinheiro. “O desafio dos negócios do nosso tempo não é trocar lucro por propósito, mas é conciliar lucro com propósito”, diz Alexandre Teixeira.

A novíssima economia

Um dos pioneiros nesse desvio dos caminhos da tradicional economia é o Uber. Alvo de críticas e apelos em várias cidades do mundo, a empresa presta serviço de táxi sem que o motorista seja, necessariamente, um taxista - e tenha que pagar pelas licenças que a categoria exige. Basta ter um carro. E a ideia já está semeada, ainda que a empresa não consiga êxito. “Se o Uber fechar, a ideia de compartilhar o carro não vai acabar”, diz Alexandre Teixeira.

Outro que está entre os primeiros e entre os maiores exemplos é o Airbnb, serviço em que você pode colocar a sua casa, ou um quarto ou sofá, para alugar pelo tempo que quiser. “Hoje existem 80.000 quartos disponíveis no Airbnb do Rio de Janeiro. É a mesma capacidade hoteleira”, diz Teixeira. Segundo ele, a novíssima economia passa pela diversidade das atividades lucrativas: “A nova maneira de ganhar dinheiro será um mix de atividades rentáveis”, diz. “Você pode alugar um quarto na sua casa, pode aproveitar o trajeto que faz de carro até o trabalho para lucrar com uma carona e fazer alguns trabalhos como freelancer”.

E se para desenvolver esse trabalho você precisar de uma caixa de som ou uma lente de máquina fotográfica ou de um cabo específico, pode entrar no Tem Açúcar. A plataforma, que tem mais de 25.000 curtidas no Facebook, cruza dados com as pessoas que estão próximas a você e lança o que cada um precisa emprestado ou pode emprestar. É possível conseguir as coisas mais inusitadas, como panela de pressão, chapéu de rodeio ou cobertor. “De certa maneira, estamos retomando o espírito hippie, mas de uma maneira que não é caricata, e usando a tecnologia de uma forma libertária”, diz Teixeira.

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