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COLUNA

Macho, pansexual e feminista, vai encarar?

Óbvio que me declaro, irresistivelmente, feminista. Mesmo oscilando entre o macho-jurubeba (o cara de raiz popular brasileiro) e o homem dito sensível. Lugar de homem é no feminismo

Humanista é uma pessoa com grande interesse pelos seres humanos. Meu cachorro é humanista. Assim falava o escritor Kurt Vonnegut, um dos meus guias espirituais para o mal-estar do mundo-cão.

Feminista é uma pessoa com grandes interesses pelos direitos das mulheres. Este que vos escreve, mesmo sendo cachorro muitas vezes, é, talvez por ser humanista, um homem com grandes interesses pelas mulheres, portanto um feminista. Mesmo sendo involuntário machista na crônica de costumes, como as entrelinhas das minhas mal traçadas denunciam, me declaro, doravante, feminista.

Serei eu contraditório? O mais contraditório dos mortais, como me ensinou, em uma tarde remota em Apipucos, o marido de dona Magdalena, Gilberto Freyre, autor de um livrinho de nada chamado Casa-Grande & Senzala, depois de uma pergunta imbecil deste colunista enquanto jovem e desfocado repórter.

É chato esse troço de botar a culpa toda nos outros. Tão enfadonho quanto é achar que a corrupção é mais nova que o meu uísque paraguaio 12 anos

Óbvio que me declaro, irresistivelmente, feminista. Mesmo oscilando entre o macho-jurubeba (o cara de raiz popular brasileiro) e o homem dito sensível. Lugar de homem é no feminismo. Pode parecer populista, que seja. Acho que beira um certo brizolismo moreno amoroso, talvez. Tem algo da delicadeza de Darcy Ribeiro, o mestre, nessa parada. Só não se pode, em um país que atingiu 50 mil casos de estupros por ano e um tapa na cara da mulher por minuto, é não ser, minimamente, feminista.

Sou de sexo masculino e de gênero pansexual, no que declaro e conclamo: sejamos todos feministas, pelo menos como o vira-lata do velho Kurt era um belo humanista. Sinto muito, mas não há outra maneira de celebrar a data das mulheres. Afinal de contas, uma mulher sem um homem é como um peixe sem bicicleta. Que falta faz, não é, colega Gloria Steinem?

A volta do boêmio

Depois de seis meses afastado da crônica, queria ter a convicção do Paul Newman no final de A cor do Dinheiro (1986), filme de Scorsese que revi ontem com a minha camponesa polonesa de São Paulo, e dizer, com uma tacada seca e certeira de bilhar: “Voltei”. Escriba em desconstrução, como o próprio jornalismo que vive a sua crise de sinuca de bico, vos digo, mesmo ainda com muito giz para gastar no taco: estou mais perdido do que repórter de Brasília esperando Janot/Godot.

Escriba em desconstrução, como o próprio jornalismo que vive a sua crise de sinuca de bico, vos digo: estou mais perdido do que repórter de Brasília esperando Janot/Godot

Talvez seja melhor copiar o Rubem Braga e flanar, nas ruas do Rio de Janeiro, em busca de uma borboleta amarela. A crônica como arte de ligar o foda-se sem perder o lirismo jamais. A realidade não está para amadores, senhoras e senhores.

Talvez seja melhor compreender que temos aí um grande pastoril profano, para lembrar a festança folclórica do Nordeste brasileiro. De um lado o protegido cordão azul, o inimputável e nem sempre sustentável paraíso dos tucanos –vide as administrações do Paraná e de São Paulo; de outro a demonização automática do cordão encarnado (vermelho).

Pena é que falta, na cena política, o Velho Faceta, mestre de cerimônias da sacanagem do dito pastoril, para dizer que não há virgem no puteiro. Voto no Velho Faceta como juiz de todas as causas. As pastorinhas, imparciais, agradecem.

O escritor Mário de Andrade, o turista acidental, saberia do que estou tratando, estudou tal pastoreio com generosidade do homem sabido para entender a sacanagem para além das manchetes esquematizadas do bem e do mal. Os paulistanos carecem redescobrir não o Brasil, mas pelo menos entender Mário de Andrade. Urge.

Meu uísque paraguaio

É chato esse troço de botar a culpa toda nos outros, como na transferência automática para a hashtag #foiFHC. Tão enfadonho quanto é achar que a corrupção é mais nova que o meu uísque paraguaio 12 anos. É importante sim saber a origem dos esquemas e trapaças, entender que o doleiro pode ter sido o mesmo, enfim, ter a ideia de jornalismo além da arte de embrulhar o peixe da feira do sábado. A crença -ou pelo menos a mistificação- que o jornalismo possa virar história é que nos faz jornalistas. O resto é picaretagem sem compromisso.

No Brasil, aqui vale a minha experiência de repórter, os escândalos são diferentes, mas a adorável lavanderia do dinheiro sujo costuma ser a mesma. O mesmo banco, a mesma praça, o mesmo doleiro. É assim desde o Collor, só não interessa –às vezes para o cordão azul, às vezes para o cordão encarnado- reconhecer esse fato. O sr. Youssef que o diga. A lavanderia que lava mais branco não quer saber a cor do dinheiro, meu caro Paul Newman. É igualzinha ao seu personagem no filme revisto e ampliado agora no meu juízo.

Noves fora a idade do meu uísque, vale a sabedoria do garoto da fuzarca Ivan Lessa, que ainda nos anos 70 mandou essa, na caçapa: “A cada 15 anos o brasileiro esquece o que aconteceu nos últimos 15 anos".

Ilusões perdidas, ilusões achadas

Imagina a loucura de escrever o que se chamaria Dicionário da Corrupção no Brasil! Quantos volumes? Ave, Quixote. É o que este cronista tentou um dia. A missão era dividida com o repórter e amigo Emanuel Neri, potiguar também obsessivo por fazer o documentário permanente da existência –viver é contar. Só rindo dessa dupla. Ainda no tempo que jornalista catava informação na unha, como quem enfrenta um touro brabo sob os olhos de Hemingway.

Folheando jornais e catataus de inquéritos, fracassamos monumentalmente. Para cada caso que escrevíamos do passado, fedia um novo escândalo na nossa frente, como a compra da reeleição de FHC, por exemplo, reportagem de Fernando Rodrigues. Vira-lata investigativo da Folha de S. Paulo à época da ideia maluca do livro do dicionário da Corruptobrás, meu drama era o seguinte: ou cuidamos da merda antiga ou perdemos o trem, a maria-fumaça do nosso tempo.

Para a editora 34, de SP, que publicaria o livrão-sem-fim e, óbvio, para os autores, também pesou um parecer informal, na base da amizade, do criminalista Luis Francisco de Carvalho Filho, nuestro Chico Fogo, um dos melhores do Brasil. Assim como a diferença de intenção e gesto do fado tropical do xará Buarque, o advogado mostrou, direitinho, como o dicionário daria prejuízo financeiro, para dizer o mínimo. Qualquer político cujo caso não tivesse transitado em julgado, mesmo nos mais explícitos episódios de tenebrosas transações, nos levaria uma grana de indenização. Pior: com a primariedade jurídica em risco, mais adiante poderíamos amargar um xilindró, digo, ver o sol quadrado.

Feliz com essa reestreia, justamente neste EL PAÍS que tanto considero, vos declaro: vou retomar o Dicionário da Corrupção no Brasil. E viva Ortega y Gasset: "O homem é o homem a sua circunstância". Até a próxima sexta.

Xico Sá, escritor e jornalista, é autor do romance 'Big Jato' (editora Companhia das Letras) e d´O Livro das Mulheres Extraordinárias' (Três Estrelas), entre outros dez livros. É comentarista dos programas 'Extra-Ordinários' e 'Redação Sportv'.

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