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Algoritmos: conselheiros do amor

Nanaya, site criado por engenheiro da NASA, usa estatística para avaliar a vida romântica

Uma das imagens que Nanaya usa para avaliar a personalidade. Ampliar foto
Uma das imagens que Nanaya usa para avaliar a personalidade. Nanaya

Uma ruptura sentimental pode servir como motor criativo. Concretamente, a partir de uma frase específica: "Gostaria de ter uma análise de custos e benefícios para saber se quero ficar com você." Foi o que aconteceu com Rashied Amini (Pensilvânia, 1985), embora quando escutou a frase pensou, no começo, que era uma besteira. Sua namorada durante mais de dois anos, com quem queria se casar, disse que gostaria de uma estatística para saber se queria continuar com ele. Mas a frase ficou na mente deste engenheiro de sistemas da NASA e se transformou em Nanaya, um projeto online cuja função essencial é servir como guia romântico através da análise estatística.

"Quando me disse aquilo, eu ri. Porque para mim o amor é algo completamente diferente. Mas depois da ruptura, como estava machucado, pensei que talvez não apenas ela, outras pessoas precisam ver um número para tomar uma decisão. Por isso criei Nanaya", explica Amini. As linhas matemáticas de seu projeto não são diferentes das que faz em seu trabalho para a NASA. Amini é especialista em construir algoritmos para a tomada de decisões em missões espaciais. E tais algoritmos são, essencialmente, análise de custo e benefícios. "Nanaya se parece bastante, do ponto de vista matemático, a uma missão que criamos para evitar que um asteroide se choque com a Terra. Essa é uma missão na qual não se pode falhar porque o objetivo é salvar vidas. O que fizemos foi olhar todas as variáveis e escolher qual opção tem mais probabilidades de sucesso." Substitua o ser esmagado por um astro pelo calvário de uma má escolha na vida romântica e você tem Nanaya.

Nanaya usa ferramentas estatísticas similares às empregadas pela NASA para suas missões espaciais

Ao entrar em Nanaya já nos encontramos com um questionário geral. Nacionalidade, religião, orientação sexual, idade... Logo depois, começa uma espécie de identificação pessoal através de fotografias com duas opções: Sou ou Não Sou. Por exemplo, em uma imagem dá para ver uma grama perfeitamente nivelada e uma folha de grama mais alta que as demais; um homem se aproxima para cortá-la com uma tesoura; o traço pessoal que a acompanha: perfeccionista. Sou ou Não Sou? O resultado, uma lista detalhada dos traços de personalidade do usuário.

Mas o núcleo de Nanaya oferecerá outro questionário que vai mostrar uma encruzilhada, dependendo se o internauta está solteiro ou em uma relação. Se está solteiro, Nanaya pede que o usuário descreva a pessoas com quem gostaria de ter uma relação e seu histórico romântico. "Há quanto tempo tem relacionamentos? Quanto duraram? Por quê se separaram? Quanto tempo passou entre essas relações? Quanto tempo demorou para encontrar outras pessoas que você gostou? Este passo me dá uma ideia de como se sente sem ter um relacionamento". A seguinte etapa do questionário íntimo de Nanaya é conhecer todo detalhe mundano da vida do usuário: onde vive? Em que trabalha? Que tipo de amigos possui? A cada quanto tempo sai com eles? Trabalha em um lugar que ajuda a conhecer pessoas ou não?

O teste de personalidade de Nanaya elaborado a partir de uma série de imagens associado com um traço pessoal (perfeccionista, aventureiro, confiável, bom amigo, etc.). ampliar foto
O teste de personalidade de Nanaya elaborado a partir de uma série de imagens associado com um traço pessoal (perfeccionista, aventureiro, confiável, bom amigo, etc.). Nanaya

Se estiver em uma relação, o sistema muda. Ele dá a opção para ser feito pelas duas pessoas ou para que uma responda atuando como seu namorado(a). Se respondem os dois, eles poderão ver e comparar seus perfis e previsões de futuro. Nanaya faz todas as perguntas relevantes para uma relação a longo prazo: Quer se casar? Quer ter filhos? Quando quer ter? Quer assentar a vida em algum lugar? "Para muita gente da minha idade, e vejo isso em meus amigos e gente que conheço, estas são perguntas que ninguém fez antes. Entram em uma relação e um ano depois veem que não era isso o que queriam porque ninguém pergunta no começo o que você quer. E é isso que Nanaya faz. E acho que é valioso porque lhe dá a oportunidade de ver quais decisões quer tomar. É como um espelho. Ele dá a oportunidade para você olhar para si mesmo."

O passo final são os números. Nanaya faz inclusive projeções de casais virtuais com diferentes traços de personalidade associados ao usuário e uma previsão se aguentarão a longo prazo ou fracassarão. "Por enquanto, testei com umas quinze pessoas e o algoritmo funciona muito bem." Quer dizer, as cobaias de Nanaya viram refletidos em um gráfico ou estatística um resultado muito parecido ao que tiveram com casais dessas características pessoais; segundo seu criador, "mais de 95% de eficiência". Ter uma visão básica deste relatório será grátis. Mas Amini, que não pensa em deixar seu trabalho na NASA para trabalhar só com Nanaya, poderia chegar a um preço simbólico de uns dólares pelo relatório mais detalhado, para manter a viabilidade deste projeto ao qual, por enquanto, contribuem cinco pessoas em seu tempo livre.

Um dos gráficos realizados pelos algoritmos de Nanaya para o grupo de voluntários que mostra o efeito positivo dos sites de encontros ‘online’ na possibilidade encontrar um namorado(a). ampliar foto
Um dos gráficos realizados pelos algoritmos de Nanaya para o grupo de voluntários que mostra o efeito positivo dos sites de encontros ‘online’ na possibilidade encontrar um namorado(a). Nanaya

As esperanças de Amini com Nanaya em sua vertente romântica não são megalomaníacas. Diz não pretender que se entenda seu projeto como uma máquina da verdade que decide pela pessoa o que ela deve fazer com sua vida romântica. "Cada pessoa deve determinar a importância que tenham os resultados do relatório. O que espero é que seja tomado como algo para estimulá-lo a pensar em sua vida privada. E nada mais."

Além do romance, jornalismo e big data

Mas a ambição de Amini com sua ferramenta vai além do sentimental. Aproveitando a grande densidade de dados estatísticos que acumula Nanaya, planeja assinar acordos, sempre com o consentimento do usuário e mantendo o anonimato, para oferecer amostragens estatísticas a jornais locais e especialmente universitários.

Por exemplo, já está em marcha o plano para uma grande pesquisa sobre assédio sexual contra mulheres no trabalho nos Estados Unidos. "Esperamos saber, pela percepção dos usuários, em quais são as cidades dos Estados Unidos o problema é mais grave. E queremos nos associar com pequenos jornais para estas análises porque estes têm menor capacidade para fazer jornalismo de dados", afirma. "Sou uma pessoa que gostaria de ver artigos deste tipo. Se um jornal publica uma história sem um bom trabalho de dados, as pessoas não sabem se é pura opinião. Mas se são feitos artigos baseados em dados duros, digam o que disserem, a verdade está à vista. E quero ajudar a que isto aconteça", afirma. Também para usos muito mais mundanos e individuais. "Por exemplo, se você quiser mudar para outra cidade. Pois posso lhe dar, segundo sua personalidade, as melhores candidatas nas quais vai encontrar mais gente que tem a ver com você", diz Amini.

O que espero é que seja tomado como algo para estimulá-lo a pensar em sua vida privada"

O poder de quanto possa contribuir Nanaya a estes aplicativos será dado pelo número de usuários que conseguir. "Imagine que tenho usuários que trabalhem em um hotel. Então começo a saber quais pessoas nos Estados Unidos trabalham em hotéis e que tipo de personalidade têm em cada cidade. Também saberia quais pessoas costumam passar muito tempo em hotéis. E assim, usando big data, posso cruzar os perfis de usuários para obter padrões. Tenho seus dados de orientação sexual, localização, personalidade e com que frequência interagem", explica o cientista. Claro, todo este viveiro estatístico por enquanto só será possível nos Estados Unidos, porque Nanaya usará os censos de seu país para cruzar a informação que dão os usuários com a oferecida pelo Governo. "Mas minha esperança é que possamos exportar a outros países", conclui Amini.

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