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COLUNA

Receita para ser feliz em 2015

Somos os responsáveis exclusivos pela destinação que damos à nossa existência

Por uma questão de hábito, os últimos suspiros de um ano e os inaugurais de outro são momentos destinados à reflexão, mesmo que as conclusões a que cheguemos explodam nos céus junto com os fogos de artifício. Não me quero diferente: portanto, nesta derradeira coluna de 2014 e primeira de 2015, gostaria de oferecer algumas considerações a respeito de nossa estadia no mundo, provisória, precária, fugaz, baseadas numa constatação inicial, óbvia, mas quase sempre ignorada, de que o objetivo final de todos nós é alcançar a felicidade. (Mas, alguém poderia indagar, o que é felicidade? Eu respondo, citando e adaptando Santo Agostinho, cujas palavras referem-se na verdade ao conceito de tempo: “Quando não me perguntam, eu sei; mas se me perguntam, e quero explicar, não sei mais nada”).

Nascemos para a morte – eis uma verdade indiscutível. Nosso vagido preliminar não deixa de ser um grito de angústia: obrigados a deixar o conforto de uma relação literalmente umbilical com nossa mãe, que nos proporciona alimento, segurança e afeto sem que tenhamos de nos esforçar quase nada, somos violentamente jogados num mundo adverso ao qual demoramos a nos ajustar, sendo que muitos não se ajustam nunca. Cada dia vivido é uma marca que imprimimos na parede da nossa existência. Se admitimos que só contamos com essa oportunidade – eu pelo menos não creio em vida após a morte, nem em reencarnação –, então temos que tornar nossa passagem pela Terra a mais suave possível.

Ao contrário do que apregoou Jean-Paul Sartre, o inferno não são os outros, mas nós mesmos. Nós é que arquitetamos nossa trajetória na vida

Portanto, nosso corpo é sagrado, o invólucro de que se reveste nossa essência. E, a rigor, trata-se do único bem material que possuímos de maneira efetiva. Todos as coisas que acumulamos são acessórias e acidentais: podem até nos proporcionar momentos de intensa alegria, mas não satisfazem nossa indigência espiritual. A felicidade que almejamos ultrapassa as necessidades comezinhas, embora não as despreze, pois apenas um corpo saudável, física e intelectualmente, resiste para subsistir no tempo, quando nos transformamos em memória. E se nosso corpo é sagrado, todos os corpos que nos cercam também o são. Segue daí que é na interseção entre eu e o outro que legitima-se o mundo: no ato de reconhecer o outro como igual a mim mesmo, de compadecer com a dor alheia, de regozijar com a conquista alheia. É o outro, enfim, que nos concede o estatuto de ser humano em plenitude. (“Nenhum homem é uma ilha isolada”, escreveu o poeta e ensaísta inglês John Donne, no século XVII).

Se nascemos para a morte, se o corpo é o único bem material que possuímos e se existimos apenas quando reconhecidos pelo outro, concluímos que somos os responsáveis exclusivos pela destinação que damos à nossa existência: somos o condutor e somos o veículo. Evidentemente que fatores biológicos, psicológicos, sociais e econômicos determinam, em parte, o lugar que ocupamos no mundo. Mas só depende de mim, do meu esforço, realizar-me como pessoa – e realizar-me como pessoa é edificar uma estrada larga e pavimentada rumo à felicidade. Neste sentido, ao contrário do que apregoou o escritor e filósofo francês Jean-Paul Sartre, o inferno não são os outros, mas nós mesmos. Nós é que arquitetamos nossa trajetória no espaço-tempo de uma vida, ora por espelhamento, ora por oposição.

Como não conseguimos definir a felicidade pelo que ela é, tentemos pelo que ela não é. Felicidade não é o mergulho no prazer efêmero, na satisfação do gozo imediato; não se confunde com a alegria, mas nutre-se dela; e, embora colocada como horizonte de possibilidades, não se realiza na consumação, mas flui em sua duração. A felicidade não é, enfim, um projeto egoísta, pois para sua consecução encharcamo-nos da Humanidade. Trata-se de uma utopia, dirão alguns. Mas, como diz o poeta Sergio Vaz, “para alcançar utopias é preciso enfrentar a realidade”.

Então, sejamos melhores em 2015!

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