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Rocinha, a mãe de todas as favelas do Brasil, vota em Dilma Rousseff

Apesar da diminuição da desigualdade, a dicotomia entre ricos e pobres se mantém

Mesmo com unidades pacificadoras, o tráfico volta com força à comunidade

Dilma e Pezão em campanha pelo Rio.
Dilma e Pezão em campanha pelo Rio. Divulgação

“Vou votar na Dilma porque é quem mais se preocupa com os pobres”. Enquanto enche de água um balde de cimento, com o rosto e as mãos cobertos por uma fina camada de poeira, o encanador Jorge Alves resume o sentimento geral dos moradores da Rocinha, a maior e mais conhecida favela do Rio de Janeiro. Mas faz uma ressalva: “Os evangélicos dizem que preferem o Aécio”. O comentário tem fundamento se for levado em conta o fato de a presidenta Dilma Rousseff ter expressado em várias ocasiões suas abordagens progressistas em relação a assuntos delicados, como o casamento gay e o aborto, provocando arrepios nos púlpitos neopentecostais. No entanto, as pesquisas de intenção de voto mostram claramente que o eleitorado do Rio está bastante dividido em função dos níveis de renda e educação. Dilma aparece como favorita nas mais de 1.000 favelas que se espalham pela cidade. Nos bairros urbanizados, longe das vicissitudes dos pobres, os cidadãos com rendas médias ou altas votarão em massa no candidato do PSDB, Aécio Neves.

Jorge Marinho, de 18 anos, negro, ganha 400 reais por semana como ajudante de pedreiro nas imediações da mesma favela, que, com uma população beirando os 80.000 habitantes, representa o baluarte mais estratégico do narcotráfico nos bairros endinheirados do Rio. “Não vou votar porque me faltaram documentos, mas se fosse, votaria na Dilma sem dúvidas. Não podemos apoiar governos que só defendam os interesses dos ricos”, diz o jovem.

A Rocinha é a prova latente de que algo falhou e de que as facções criminosas se reagruparam e recuperaram musculatura

Ricos e pobres. Pobres e ricos. Apesar da indiscutível diminuição da desigualdade conquistada nos últimos 12 anos pelos três Governos consecutivos do Partido dos Trabalhadores (PT), a dicotomia continua na boca de muitos moradores das favelas cariocas. E o motivo é simples: ainda que na Rocinha uma parte nada desprezível da população se enquadre no que as autoridades consideram como classe média emergente ou classe C (famílias com renda entre 1.734 e 7.475 reais mensais, segundo a Fundação Getúlio Vargas), a maioria deles, no fundo, continua se considerando pobre simplesmente por morar em uma favela, ou seja, em um bairro de barracos sem saneamento básico nem serviços públicos de qualidade.

Nesses subúrbios a campanha eleitoral transcorre em meio a um clima estranho. Durante os meses anteriores ao primeiro turno, a Secretaria de Segurança Pública do Governo Estadual detectou que em mais de 40 favelas existiam restrições à realização de comícios. Narcotraficantes e milicianos proibiram determinados políticos, como o atual Governador e candidato à reeleição pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), Luiz Fernando Pezão, de fazer campanha dentro de suas comunidades. Algumas gangues tentaram cobrar quantias volumosas para garantir o acesso desses políticos. Nas favelas do Complexo do Alemão, na zona norte do Rio, foram necessários 3.000 soldados do Exército para garantir que a população exercesse seu direito ao voto livre durante o primeiro turno eleitoral.

Nos últimos meses ficou claro que o narcotráfico carioca mantém um poder que as instituições públicas insistem em minimizar. O secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, costuma se referir às violentas ações dos traficantes nas várias favelas pacificadas como “tentativas desesperadas” de desestabilizar o processo iniciado em 2008. Mas a Rocinha é a prova latente de que algo falhou e de que as facções criminosas se reagruparam e recuperaram musculatura. Várias fontes no local coincidem no mesmo relato: um número crescente de traficantes da facção Amigos dos Amigos (ADA), armados com arsenal de guerra, voltou a tomar o controle de determinadas áreas da favela. Após um ano e meio de relativa calma, os fuzis e os pontos de venda de drogas de novo formam parte da paisagem da comunidade.

O EL PAÍS confirmou, de forma independente, a realização de bailes funk até o amanhecer, financiados por traficantes sem que a UPP local intervenha para estabelecer a ordem. Os criminosos tampouco economizam em fogos de artifício durante as madrugadas dos fins de semana, o que na Rocinha é considerado um autêntico desafio à autoridade pública. A miragem da pacificação vivida durante o primeiro ano da operação virou fumaça. “Tudo voltou ao normal”, confirma um jovem ligado ao narcotráfico local, que pede anonimato. Do presídio no Mato Grosso do Sul onde cumpre pena, Antônio Bonfim Lopes, o Nem, continua dando instruções a um número cada vez maior de adolescentes e jovens recrutados na própria favela ou foragidos do Complexo do Alemão.

O maior responsável pela estratégia de pacificação no Rio, o Coronel Frederico Caldas, afirma categoricamente que “a Rocinha está sob o controle da polícia”. “Pode haver alguns problemas, mas a comunidade está funcionando sob uma lógica de normalidade, inclusive com um bom fluxo de turistas. A resistência que pode estar sendo registrada não está relacionada com o período eleitoral, mas sim ao fato de continuar existindo uma forte demanda por drogas. E é preciso levar em conta que a Rocinha foi o quartel-general de uma importante facção criminosa do Rio. É o ponto mais estratégico e lucrativo da venda de drogas na cidade”, explica.

O comando das UPPs insiste que a estratégia está cumprindo com sua principal missão: reconquistar os territórios e reduzir os índices de homicídios. Segundo o Instituto de Segurança Pública do Rio (ISP), os homicídios caíram mais de 26% nas favelas pacificadas, durante o ano passado. No entanto, os especialistas em segurança pública alertam que o modelo começa a dar sinais de esgotamento e que é necessário uma nova reviravolta para consolidar as conquistas realizadas, principalmente através da implantação de serviços públicos, mais do que policiais.

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