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Ativistas denunciam brutalidade policial durante o ato contra a Copa de São Paulo

Participantes do protesto relatam agressões e prisões arbitrárias. Um de cada quatro manifestantes foi detido

A segunda manifestação do ano contra a Copa em São Paulo acabou com um de cada quatro manifestantes detidos. Dos 1.000 participantes que a polícia calculou que participaram do ato, 262 terminaram a noite na delegacia. Depois de oito meses das primeiras manifestações, um contingente de 2.300 policiais tentou impedir o vandalismo antes dele acontecer. Até um grupo de agentes com conhecimentos de artes marciais foi enviado pela primeira vez para atuar em um protesto para que, segundo o porta-voz da PM, o capitão Emerson Massera, só se agisse de maneira mais agressiva "conforme aumente a necessidade". O protesto terminou com oito feridos, cinco deles policiais, segundo a PM.

A Polícia Militar considera a operação de ontem “um sucesso absoluto”, porque "os atos de vandalismo e agressões foram mínimos em comparação com manifestações anteriores, graças à estratégia bem sucedida”, disse um porta-voz ao EL PAÍS. A brutalidade dos agentes, porém, marcou novamente sua atuação, segundo os manifestantes.

Os detidos – a polícia os chama de retidos- denunciaram a arbitrariedade dos agentes. Segundo os relatos recolhidos por este jornal, uma vez presos, os manifestantes não foram informados da causa da sua detenção, nem sobre a delegacia à qual estavam sendo encaminhados.

O presidente da Ordem de Advogados do Brasil em São Paulo, Marcos da Costa, afirma que a polícia não tem o direito de prender manifestantes e levá-los para prestar depoimentos se nesse momento não estavam cometendo um crime. “O papel da polícia é proteger a manifestação, atuar no caso de serem cometidos crimes que ameacem o direito do manifestante. Neste caso, até os profissionais da imprensa tiveram seu direito de exercer a profissão violado”, lamenta da Costa.

A Polícia Militar considera a operação de ontem “um sucesso absoluto”, porque "os atos de vandalismo e agressões foram mínimos.

Outros manifestantes também denunciaram agressões por parte de vários agentes que, equipados com um colete luminoso, esconderam seu nome. “A quem vou denunciar? A maioria não tinha identificação, e foi uma ação conjunta, ordenada”, reclama Mauro Donato, colunista do Diário Centro do Mundo que afirma ter sido cercado por um grupo de PMs que o agrediram com cassetetes e chutes durante 30 segundos.

“Uma grande novidade nos atos de São Paulo, é que nunca houve um numero igual de policiais nas laterais da manifestação como houve ontem. Foram eles os que acabaram formando o cerco”, relata um dos detidos, estudante de biologia de 18 anos, que prefere não se identificar.

O “cerco” foi um cordão policial de pelo menos uma centena de agentes que isolou um grupo aleatório de manifestantes que integrava a marcha. A ideia parecia ser a de encurralar os praticantes da tática Black Bloc, mas naquele grupo havia desde professores universitários a idosos e jornalistas. A Polícia Militar, que depende das autoridades do Governo de Geraldo Alckmin (PSDB), justificou aquele cerco para “impedir uma injusta e iminente agressão, retendo pessoas que se preparavam para cometer atos criminosos durante apenas o tempo necessário para identificá-las”. Alguns dos presentes relataram como os policiais levantaram uma bandeira azul e disseram: “A gente ganhou. Essa Copa é nossa”.

Quando nos cercaram desceram cacetada até que todo o mundo ficou no chão. Alguns foram presos na hora e levados para a delegacia.

“Quando nos cercaram desceram cacetada até que todo o mundo ficou no chão. Alguns foram presos na hora e levados para a delegacia. Teve um manifestante que estava sentado e quando o levantaram para levá-lo à delegacia começou a ter convulsões e os policiais começaram a bater nele com cassetete. Até onde eu vi estava desmaiado”, relata o jovem.

“Houve vários procedimentos ilegais tanto no primeiro ato contra a Copa como no segundo", continua o estudante. "Os policiais desobedeceram o próprio manual de controle de distúrbios. Conforme o treinamento deles sempre tem que haver uma via de fuga. Nos dois atos eles cercaram os manifestantes. É muita sorte que ninguém morreu pisoteado ainda. A segunda violação foi ao nos levarem presos. Não podem deter pessoas para averiguação. Você tem que saber a acusação e para qual delegacia você está sendo levado”, destaca o estudante. Ele reconhece ter cometido atos de vandalismo em outros protestos para contestar a violência policial, mas disse que desistiu por entender que o único que ia conseguir era apanhar mais da polícia. “Eu vi que esse modelo não funcionava, que ia ficar preso e apanhando. Olha o que adiantou”, disse.

Tarek Mahammed, fotojornalista ferido durante o protesto.

Os jornalistas voltaram a ser alvo da polícia. Cinco profissionais foram detidos e outro vários apanharam. Um repórter do jornal Folha de S.Paulo ficou preso no cerco e quando foi flagrado gravando a cena foi arrastado com chave de pescoço por vários metros antes de ser liberado. “Eu fiquei no cerco e comecei a tirar fotos. Aí veio um soldado e começou a falar que não tinha medo de mim, nem da minha câmara. Começou a me empurrar com o escudo, me afastei”, conta Tarek Mahammed, da Rede de Fotógrafos Ativistas. O fotógrafo relata um confronto provocado quando um dos manifestantes chamou de “porcos” aos agentes na hora do cerco se abrir. “Dois policiais foram para cima dele e começaram a bater muito. Me chutaram, bateram na minha cabeça até que cai no chão. Estava sangrando. Eu cheguei a perguntar porque estavam batendo em mim e me responderam: Falei para você não ficar aqui’”. É a sexta vez que Mahammed é agredido por policiais em manifestações, afirma.

Um outro jornalista independente de 27 anos, que transmitia ao vivo o protesto para o Grupo de Apoio Popular (GAPP), acabou no hospital após desmaiar. “Eu estava bem próximo do cordão policial quando parei para colocar minha máscara, aí eu tive que tirar meu capacete. Nesse momento o cordão lateral dos agentes avançou com os cassetetes e eu não consegui correr, havia muita gente ali tentando fugir. Eu levei um golpe na cabeça, me virei e tomei outro no ombro, e um outro na nuca. Esse golpe me deixou completamente tonto e não consegui sair. Havia pessoas ao meu redor sendo agredidas já no chão. Consegui encontrar o grupo de socorristas e nesse momento desmaiei. Me colocaram num carro com um advogado e me levaram para a Santa Casa”, lembra Alexandre Capozzoli que, além de retransmitir ao vivo os protestos, trabalha como designer em uma empresa de móveis.

Um dos feridos acabou sofrendo depois da agressão com um dos problemas mais criticados durante os protestos: a qualidade dos serviços públicos.

Depois da agressão, Capozzoli acabou sofrendo com um dos problemas mais criticados durante os protestos: a qualidade dos serviços públicos. “Levei 20 minutos para ser atendido e me informaram que o tempo de espera era de três a quatro horas. Como tenho plano de saúde acabei ligando e fui removido a uma outra sala na mesma Santa Casa. Em menos de uma hora fui atendido, me fizeram um monte de exames e recebi alta. Meu corpo está bem marcado. Mas não houve um traumatismo mais grave", relata.

Os Advogados Ativistas, que representam gratuitamente os detidos durante os protestos, também denunciaram agressões por parte dos policiais. O grupo afirma que os agentes prejudicaram seu trabalho ao impedir que acompanhassem as revistas pessoais, que acabaram sendo feitas “longe dos olhos dos cidadãos, advogados e imprensa” com o risco de que os agentes cometessem abusos, disse. “A Polícia Militar de São Paulo por diversas vezes promove operações de dispersão dos movimentos sociais, com policiais não identificados, e realiza prisões para catalogar manifestantes coagindo-os a sair das ruas”, disse a associação.

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