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O grande salto dos Estados Unidos para a independência energética

Há cinco anos, a produção norte-americana estava abaixo de 20 milhões de barris diários de petróleo. Agora, se aproxima de 25 milhões e supera a Arábia Saudita em óleo

Uma bomba extrai petróleo em Montana. AP

Cada trimestre, os grandes gestores de fundos nos Estados Unidos revelam suas estratégias de investimento. A do Berkshire Hathaway, braço financeiro de Warren Buffett, é uma das mais seguidas em Wall Street. Seu interesse pelas corporações “made in USA” é conhecido, sobretudo se são grandes empresas. O que a bolsa não esperava era o anúncio de que entraria no capital da petroleira Exxon Mobil.


Embora surpreendente, a aposta não é por acaso. Buffett aposta há anos no renascimento energético dos Estados Unidos. Ele tem participações na ConocoPhillips e na Suncor e é proprietário da companhia ferroviária Burlington Northern Santa Fe, com a qual controla a infraestrutura para escoar o petróleo e o gás natural que emergem das novas reservas exploradas no interior do país e no Canadá.


A manobra de Buffett é um reflexo da frenética corrida energética na qual os EUA estão imersos e que terá importantes implicações para sua economia e suas relações com o resto do mundo. Dennis Ross, ex-negociador para Oriente Médio, colocou recentemente em evidência como a autossuficiência energética pode mudar o equilíbrio das forças na região.


O temor do diplomata é que haja um recuo do poder dos EUA na região, porque já não depende do petróleo do Golfo Pérsico. Outros analistas veem algo semelhante com a Venezuela e outros países produtores na América Latina. “Os efeitos da evolução energética dos EUA será sentida mais além da América do Norte e da indústria”, sugere a Agência Internacional da Energia em um de seus relatórios sobre tendências.


As cifras estão aí. Em outubro, o Departamento de Energia antecipava que os EUA serão já neste ano o principal produtor de petróleo e gás natural do mundo, superando Rússia e Arábia Saudita. Isso se explica pela quantidade de hidrocarbonetos que está sendo explorada no Texas e na Dakota do Norte, além do gás natural extraído de rochas porosas em alguns Estados da costa leste do país.


Há cinco anos, os EUA produziam menos de 20 milhões de barris diários de petróleo e gás natural, divididos em partes iguais. A Rússia superava esse nível combinando as duas fontes fósseis, enquanto que a Arábia Saudita era o maior produtor do óleo. Agora, a produção total norte-americana está perto de 25 milhões de barris e supera o país árabe em petróleo.


A chave desta reviravolta está na exploração do xisto. Há uma dezena de países tentando viabilizar um modelo para explorar o gás natural acumulado nas formações rochosas. Mas os EUA estão claramente na frente, apesar da controvérsia em torno desta técnica de extração. Atualmente, o xisto representa mais de 40% da produção total de gás natural nos EUA e 15% no Canadá.


E seria ainda maior se a capacidade da infraestrutura para transportar toda essa energia não fosse limitada. Voltando ao caso de Buffett, a petroleira ConocoPhillips conta com inúmeros projetos em andamento em Athabasca (Alberta), enquanto que a ExxonMobil tem 4 bilhões de barris em reservas provadas em jazidas de xisto no Canadá. A Suncor, por sua parte, é a maior produtora em areias petrolíferas.


A projeção do Departamento de Energia é que a produção de petróleo dos EUA se mantenha nos 10 milhões de barris diários entre 2020 e 2040. No caso dos combustíveis líquidos, subirá a 18 milhões de barris diários em duas décadas e meia. Isso permitirá reduzir as importações líquidas para 25% em 2016, ante 60% em 2005.


Essa maior exploração dos recursos fósseis não vem acompanhada, contudo, de um aumento do investimento nas denominadas energias limpas, que se apresentaram no passado como outro fator importante para abrir o caminho para a independência. Ao contrário, caiu 41% no último ano. A extração do gás natural é muito mais barata e lucrativa para as petroleiras.


A ideia da autossuficiência era impensável há cinco anos. Agora é possível que os EUA e o Canadá se transformem em exportadores líquidos de petróleo e gás natural em 2025, superando os países do Oriente Médio. O Departamento de Energia está começando a aliviar as restrições aplicadas às exportações de gás natural. Sua projeção é que o país seja em 2018 um exportador líquido de todas as formas de gás natural.


Com todas essas reservas na mão, a atenção dos EUA muda claramente para a Ásia. É o que o Canadá também está fazendo, antecipando que seu vizinho e principal sócio comercial já não precisará tanto de seus recursos energéticos para alimentar a sua economia. Mas esse ajuste no equilíbrio de poder no mercado de energia também pode afetar a relação com a Europa.


Ao produzir sua própria energia, reduz o desequilíbrio na balança exterior e a economia se beneficia de uma redução no preço do combustível demandado pela indústria, o que dá ao país uma importante vantagem competitiva. Isso explica porque algumas multinacionais estão voltando a aumentar suas operações nos EUA. Elas não reduzem apenas os custos de produção para a manufatura, mas também os de transporte.