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COLUNA

Tudo é enorme no Brasil, menos o biquíni

Pequenos, só a roupa de banho e a falta de generosidade dos poucos que acumulam a maior parte da riqueza do país

Tudo é enorme no Brasil, menos o biquíni

A primeira coisa que entendi ao chegar ao Brasil, há alguns anos, foi que aqui tudo é enorme – dos letreiros das lojas até os cartazes publicitários. Da cordialidade das pessoas à violência. É enorme a desigualdade social (entre as dez maiores do planeta), assim como a solidariedade entre os mais pobres.

Tudo é grande, menos os biquínis, embora eles também contenham uma sensualidade gigante. Uma amiga espanhola que veio nos visitar quis comprar um, mas desistiu: “São mínimos!” Quando ainda era presidente, Lula cunhou, para exaltar a dimensão de suas proezas, a frase “nunca antes neste país”.

É enorme também a capacidade que os brasileiros demonstram para aceitar os estrangeiros, assim como os resquícios da escravidão, que continuam provocando discriminação entre brancos e negros. É um lugar em que o sentido mais aguçado é o tato. Ninguém se abraça e beija mais, e com maior entusiasmo, do que os brasileiros. Até os homens.

São enormes a resignação e a aceitação da fatalidade. E grande o medo da modernidade. É desmedida a corrupção de muitos de seus políticos, e enormes os seus privilégios, suas filas de carros oficiais e seus exércitos de assessores. Suas aposentadorias de luxo e seus salários escandalosos. É imensa a exibição dos milionários. Não escondem sua riqueza; vangloriam-se dela.

Uma de minhas primeiras crônicas de costumes ao chegar ao Brasil abordou as dimensões do país. Falava sobre um empresário da construção que havia comprado seis milhões de hectares na Amazônia porque, segundo me disse, ali sua mãe “havia enterrado o umbigo”. Quando lhe perguntei se para isso precisava comprar tanta terra, respondeu: “Bem, como já decidi comprar...”. Havia em seu terreninho vários rios e comunidades indígenas. Ele nem sabia disso.

O Brasil é um gigante em suas dimensões geográficas. Só o estado de São Paulo equivale à Espanha em número de habitantes. É enorme a sua floresta, sua biodiversidade, sua quantidade de água doce (cerca de 20% do total mundial) e suas abundantes colheitas. Tudo aqui cresce rápido. Deixem um terreno baldio e, em pouco tempo, terá se transformado em bosque. É enorme o número de sindicatos (17.000) e de pessoas com foro privilegiado (33.000), de templos evangélicos (220.000) e de denominações religiosas (20.000). Existe até a Igreja Evangélica Pentecostal do Cuspe de Cristo.

São volumosas suas carências sociais. Falta moradia para oito milhões de famílias que se amontoam nas favelas. Treze milhões de pessoas estão sem trabalho. Cerca de 60% da população adulta é analfabeta funcional, e 30% dos jovens que entram na universidade têm dificuldade para entender um texto. Todo ano, um milhão de crianças abandonam a escola. Ao mesmo tempo, o Brasil possui uma robusta e moderna tecnologia. Exporta até aviões.

É grande também a força da criatividade dos jovens brasileiros. É imensa a dor de milhões de cidadãos e quase infinito o seu desejo de felicidade, assim como a sua extraordinária e invejável capacidade de fazer frente às dificuldades da vida. E são assim, sem limite, sua simpatia e seu amor pela festa.

Pequenos, no Brasil, só encontrei os biquínis e a falta de generosidade desses poucos que acumulam a maior parte da riqueza do país. O Brasil, com todas as suas contradições e corrupções, é essa enormidade que se deixa amar facilmente e que acaba nos conquistando.

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