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Refluxo solidário na UE

Em 2016 chegaram menos imigrantes e refugiados à Europa do que no ano anterior, mas houve mais mortes no caminho

Migrantes e refugiados pedem ajuda a equipes de resgate, em 8 de dezembro.
Migrantes e refugiados pedem ajuda a equipes de resgate, em 8 de dezembro.

A Europa vai entrar em 2017 sem ter resolvido a expectativa de que se agravem as contradições que a impediram de lidar com generosidade e rigor com a crise dos refugiados. O ano se encerra com o dramático paradoxo de que, graças ao acordo com a Turquia, chegaram menos imigrantes, mas subiu o número de mortos na tentativa de obter asilo ou refúgio. Em 2015, chegaram mais de um milhão de refugiados, contabilizando-se 3.771 mortes. Em 2016, os que chegaram somam 327.000, mas houve até agora mais de 3.800 mortes ao longo de travessias temerárias que transformam o Mediterrâneo em um mar de morte.

Estão marcadas para o próximo ano eleições em países como Alemanha, França e Holanda, o que pode acentuar o refluxo solidário da União Europeia. Se 2015 se caracterizou pela colaboração nula de uma parcela dos países, especialmente do Leste europeu, com a política de refugiados, 2017 poderá ser ainda pior. A capacidade de solidariedade se desgastou inclusive no país que foi mais generoso e efetivo: a Alemanha. O atentado terrorista de Berlim proporcionou munição ao populismo xenófobo e a chanceler Angela Merkel enfrenta, agora, novas dificuldades.

A União Europeia pretende retomar em março o mecanismo de regulamentação de Dublin que obriga que os refugiados cumpram com trâmites legais de asilo e permaneçam no país de chegada. Isso fará com que a maior parte do problema recaia, mais uma vez, sobre a Itália e a Grécia, o que é claramente injusto: os refugiados buscam a Europa, e não esses países especificamente. Seus governos estão certos quando se queixam e se mostram céticos quanto à capacidade da UE de assumir depois os contingentes que chegarem. Até agora, ela não cumpriu o compromisso firmado em setembro de 2015 de distribuir em dois anos 160.000 refugiados assentados na Grécia e na Itália. Passado mais de um ano, foram realocados apenas 8.200, equivalentes a 5% do total. É bastante lamentável que a Espanha figure entre os mais reticentes –398 dos 16.000 prometidos e mais 1.449 do Líbano e da Turquia--, embora cidades como Madrid e Barcelona tenham estruturas capazes de acolhê-los.