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Lições de uma eleição

O PT ganharia mais em assumir sua identidade esquerdista no espectro político brasileiro

Neste domingo, o Brasil vai acordar dividido e deve continuar assim pelos próximos anos independentemente de quem ganhe as eleições para presidente. Desde 1989 não se via uma disputa tão acirrada. A novidade é que, a partir de 2006, as classes populares aderiram em sua maioria às bandeiras de esquerda sustentadas pelo PT, rompendo um vínculo muito antigo que as ligava aos partidos mais conservadores, como o DEM. Dito de outro modo, agora, a polarização entre esquerda e direita parece finalmente corresponder à divisão entre classes dominadas e classes dominantes no Brasil.

Toda essa terminologia, aparentemente muito antiga, mostra sua atualidade no caso brasileiro. Testemunhamos, neste momento, o PT usufruir do crédito eleitoral obtido pelas políticas de inclusão social e o PSDB se beneficiar de uma reação visceral a estas políticas no topo da pirâmide.

Considerando o cenário de uma vitória apertada de Dilma Rousseff – apontada pelas pesquisas mais recentes e, sobretudo, pela tendência de crescimento da sua candidatura nos últimos dias – restará ao PT aprender algumas lições preciosas, se quiser evitar que a virada à direita verificada nas eleições para o Congresso se estenda até a presidência em um futuro não muito distante.

A primeira delas é a de que a ligação direta com as classes populares através das políticas de inclusão social não torna dispensável a contribuição dos movimentos sociais e da militância histórica, sem a qual o PT não teria chance nesse segundo turno. A virada recente sugerida pelas pesquisas coincide com a adesão à campanha de uma militância até então desencantada com o governo. Mas convém não errar na interpretação: apesar do entusiasmo que lhe é próprio, uma parcela expressiva desta militância tem duras críticas ao partido, somente não concebe a possibilidade de um retrocesso ao neoliberalismo “puro sangue” do PSDB. Então, em vez de tentar se tornar palatável ao conservadorismo vetando medidas como as dos direitos LGBT, o PT ganharia mais em assumir sua identidade esquerdista no espectro político brasileiro, como foi obrigado a fazer no segundo turno, quando a polarização se tornou ainda mais aguda.

A segunda lição tem uma relação direta com a primeira e diz respeito à ambiguidade ideológica das jornadas de junho de 2013. Para muitos jovens que foram às ruas no ano passado, aquela parecia ser a primeira experiência de participação política, e essa mobilização ocorrida no vácuo, sem a intermediação de movimentos sociais, pôde ser capturada simbolicamente pelo PSDB através do discurso da mudança. Este é um dos fatos mais intrigantes desta campanha: como Aécio Neves conseguiu se associar ao desejo de mudança? A resposta deve ser muito complexa, mas o PT deveria buscá-la primeiro na sua própria negligência em relação à necessidade de articular as conquistas materiais das classes populares e a politização destas conquistas através dos movimentos sociais. Sem vir acompanhada de formação política, a inclusão social não impede que a mudança seja reduzida ao mero rodízio no poder, plataforma que fez convergir para o PSDB tanto a reação elitista às políticas do PT, quanto a insatisfação difusa de muitos jovens beneficiados por estas políticas.

Outra lição fundamental é a urgência da reforma política e da democratização dos meios de comunicação, que podem enfraquecer os mecanismos através dos quais uma parte dos pobres e da classe média intermediária é levada a votar contra seus próprios interesses. A reforma política precisa atacar o problema do alto custo das campanhas brasileiras e das suas formas de financiamento, que instalam a promiscuidade de relações entre setor público e setor privado, e entre o executivo e o legislativo. Já a democratização dos meios de comunicação, sobretudo da radiodifusão que depende de concessão pública, é fundamental para a criação de um ambiente de mídia menos monolítico e uníssono como o que se viu. Aliás, circula nas redes sociais a ideia de que o jornalismo brasileiro é o primeiro derrotado nessas eleições.

Em Pernambuco, alçado ao centro do cenário eleitoral pela morte de Eduardo Campos, os aprendizados parecem ainda maiores. Sempre tive a curiosidade de saber quem ganharia as eleições no estado caso houvesse uma disputa direta entre Lula e Eduardo Campos, para entender quem ajudou quem a conquistar os altos índices de popularidade de que dispunham. Campos teve o mérito de surfar a onda da prosperidade trazida pelos investimentos do Governo Federal em Pernambuco, tanto que seus candidatos desconhecidos foram eleitos para a Prefeitura do Recife e para o Governo do Estado com ampla margem de votos. Mas isso não tem impedido, até aqui, que Dilma Rousseff lidere as pesquisas no estado.

Como é sabido, uma das formas de manifestação do fisiologismo da política brasileira é a ausência de critérios doutrinários e programáticos na costura das alianças, criando combinações muito esquisitas na formação das chapas locais, como foi o caso do PT em Pernambuco na eleição para governador, quando apoiou um candidato do PTB vinculado ao empresariado. Isso em certa medida abre caminho para a intromissão de critérios mais pessoais na escolha dos candidatos. O que se verifica no Estado até agora é o descolamento entre o voto para governador e o voto para presidente, de modo que o PT local também deverá ter aprendido uma amarga lição: a de que a popularidade em nível nacional não o autoriza a tecer qualquer aliança. No segundo turno da eleição presidencial, ao que tudo indica, será a vez do PSB descobrir os limites do seu poder de transferência de votos.

Por fim, convém lembrar que um país tão dividido é mais difícil de governar, sobretudo porque, se a vitória de Dilma Rousseff se confirmar, mesmo tendo sido eleita com uma plataforma mais à esquerda, ela terá que lidar com um dos Congressos mais conservadores dos últimos tempos. Não vai ser fácil. Só espero que uma parte da sua reconhecida inabilidade política seja reflexo da firmeza de suas posições, e que estas se traduzam em mais políticas de distribuição e reconhecimento voltadas aos pobres, negros, indígenas, mulheres, LGBTs, portadores de deficiência, enfim, políticas que façam cair a desigualdade em suas múltiplas dimensões.