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COLUNA

Mais cem anos de solidão

A chuva que caía interminável naquela pequena aldeia dos confins da Colômbia encharcava meus pés adolescentes

José Santos, um dos grandes nomes da literatura infantil da atualidade, era líder estudantil em Juiz de Fora, interior de Minas Gerais, no final da década de 1970. Cursava a faculdade de comunicação na universidade federal e encabeçava um grupo de jovens reunidos em torno do Varal de Poesia, que acontecia quinzenalmente aos sábados no calçadão da Rua Halfeld, e do folheto Abre-Alas, espécie de antologia, publicada em off set e ilustrada por desenhos dos novos artistas plásticos da cidade, que trazia o melhor da produção poética contemporânea do Brasil.

Eu o conheci durante uma greve. Escalaram-me para conclamar os alunos reticentes a aderir a uma paralisação destinada a impedir o aumento do preço do bandejão – a comida servida no Restaurante Universitário -, pretexto para sairmos às ruas numa demonstração de força contra a ditadura militar. Quando subia as escadarias do Instituto de Ciências Humanas e Letras, encontrei José. Disse a ele, rapidamente, que era de Cataguases, cidade onde, sabia, ele havia morado, e, simpático, me convocou para participar de uma das reuniões de estudo que realizavam-se em sua casa.

Demorou alguns dias ainda para que eu o reencontrasse e ele reiterasse o convite. Apareci lá uma noite. José me recebeu com alegria e conduziu-me a um quarto apertado, onde um bando de rapazes e moças em torno dos vinte anos discutia uma passagem obscura de Os conceitos elementares do materialismo histórico, da socióloga chilena Marta Harnecker. Sobre a mesa, uma enorme bacia cheia de pipocas, duas garrafas grandes de guaraná e vários copos de vidro usados. Após as apresentações, encostei-me a um canto, deslocado.

Como retomassem a discussão, deixei meus olhos passearem pelas estantes abarrotadas. Pegava ao acaso um volume, folheava-o, devolvia-o. A curiosidade de José não compreendia limites, enredada em teses de política, em conceitos sociológicos, em pensamentos filosóficos, em considerações literárias, em reflexões poéticas, em biografias, história, ficção. Esgotada a pauta daquela sessão, os interesses se dispersaram. Alguém colocou um disco de Mercedes Sosa na vitrola, outro acendeu um cigarro, outro ainda se despediu, tinha prova na manhã seguinte.

José então aproximou-se e perguntou se algo havia me chamado a atenção no caos daquelas obras enfileiradas. Sorri, tímido, e, antes que respondesse, ele, retirando dois livros de uma pilha, me entregou, dizendo, "Leia esse escritor, é simplesmente genial". Mirei os estranhos títulos, Os funerais da Mamãe Grande e Olhos de cão azul, observei o nome do autor, Gabriel García Márquez, enfiei-os sob o braço e calado saí para a noite de perfumes adocicados.

Assim que deixei o prédio, abri ao acaso um dos volumes, justo na página em que se iniciava o conto Monólogo de Isabel vendo chover em Macondo. As primeiras palavras reveladas seqüestraram meu espírito e meu corpo caminhou sonâmbulo negaceando de postes, buracos e pessoas, buscando os coágulos de luz que, rompendo a copa das árvores, drapejavam a calçada mal conservada da avenida Rio Branco. A chuva que caía interminável naquela pequena aldeia dos confins da Colômbia encharcava meus pés adolescentes.

No silêncio da casa, transformada em república, assentada no número 420 da rua Moraes Sarmento, todos dormiam. Todos, menos eu. Lido o último conto de Os funerais da Mamãe Grande, percebi, exausto, que as sombras projetadas na parede desenhavam rostos de pessoas amadas que, pouco a pouco, iriam se diluir na memória. Então, os barulhos vindos de fora penetraram por debaixo da porta inaugurando a manhã, passos, vozes, a agitação dos passarinhos, o ônibus que subia lotado de estudantes para a Cidade Alta e descia abarrotado de trabalhadores para a Cidade Baixa. Eu já acumulava 18 anos de uma irremediável melancolia. E agora, debruçado à mesa, compreendia que, sem uma segunda chance sobre a terra, restavam para mim ainda mais cem anos de solidão...